COURO BRASILEIRO

COURO BRASILEIRO

 

Por @sssilveirado – Imbituba/SC, 05/09/2019

 

Recentemente, em vista do alarido criado por Emmanuel Macron (@emmanuelmacron) sobre as queimadas na Amazônia, mera cortina de fumaça (perdoem-me o trocadilho) para seu real intento (entenda aqui, brilhantemente lecionado por @FabioTalhari), vimos a notícia[1] de que a VF Corporation, holding detentora das marcas Timberland, Kipling, Vans, Eagle Creek, e The North Face, para citar as mais conhecidas por este mero escriba, suspendeu a compra de couro brasileiro.

Por ser curta, transcrevo a íntegra da nota, com grifos próprios:

Em nossos negócios, a VF desenvolve e implementa políticas para alinhar nossas decisões de negócios com o propósito da VF de empoderar movimentos de estilo de vida ativo e sustentável para a melhoria das pessoas e do planeta.

Por muitos anos, a VF Corporation e nossas marcas implementaram políticas de abastecimento que mantém os valores da VF a respeito de matérias primas. Desde 2017, nós aprimoramos nosso abastecimento global de couro através de estudos para garantir que os fornecedores de couro estejam de acordo com nossos requisitos de abastecimento responsável.

Como um resultado desse estudo detalhado, não conseguimos assegurar satisfatoriamente que nossos volumes mínimos de couro comprados de produtores brasileiros sigam esse compromisso. Sendo assim, a VF Corporation e suas marcas decidiram não seguir abastecendo diretamente com couro e curtume do Brasil para nossos negócios internacionais até que haja a segurança que os materiais usados em nossos produtos não contribuam para o dano ambiental no país.

Ora, se desde 2017 existe um controle, apenas em 2019 reconhecem que este é falho, ineficaz para o fim ao qual foi criado e ao qual se destina?

Indignação pontual, seletiva e meramente interesseira, por certo para “empoderar movimentos”.

Ademais, a parte final da nota é cristalina ao afirmar que “até que haja a segurança que os materiais usados em nossos produtos não contribuam para o dano ambiental no país”.

Quem deve fazer tal comprovação são os fornecedores ou o próprio Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil – CICB, quem, aliás, segundo a notícia, “alertou o governo para os efeitos negativos das queimadas”.

Dita notícia cria ainda outro “desvio de foco” ao leitor mais desavisado: traz indicadores da exportação de couro em 2019, bem como os principais destinos, citando como fonte o Ministério da Economia.

Este, todavia, não é o cenário adequado, considerando-se que o mercado de moda (ou fashion, como queiram) é sazonal, tendo sua produção e coleções variando conforme a estação.

Justamente por isso, trazemos à baila os dados reais dos últimos 3 (três anos), mostrando que as exportações vem em declínio e que (apenas agora?) a decisão de suspenderem a importação não tem a ver com as queimadas, tampouco com o parco controle de qualidade e impacto ambiental alegados pela holding:

Em milhões de USDEm milhões de m2
201720182019201720182019
Janeiro150,6132,398,014,715,614,8
Fevereiro161,1143,1110,916,916,716,5
Março192,6144,8119,020,216,718,2
Abril161,6137,0102,216,316,915,2
Maio189,3101,5107,123,612,115,8
Junho148,3134,387,415,417,113,1
Julho149,277,684,215,09,913,3

 

Justa e exatamente por tais fatos, não há que se atribuir credibilidade à notícia: mera especulação em tentativa de baixa dos preços praticados pelos produtores nacionais, objetivando o aumento da lucratividade da holding detentora das marcas. Basta, em retaliação, já que o próprio CICB parece não saber o que fazer, boicotar as marcas e seus produtos!

Hoje, a notícia[2] de que a H&M (Hennes et Mauritz) suspendeu igualmente a importação de couro do Brasil.

Segundo nota enviada à Reuters (ao menos não dirigiu a nota à Folha, como a VF Corporation), “a proibição permanecerá ativa até que existam sistemas de garantia críveis para verificar se o couro não contribui para danos ambientais na Amazônia”, afirmou o documento.

Novamente, quem deveria providenciar um “sistema crível” à exportação seria a própria CICB, eis que congrega os exportadores e serve, ao menos nas notícias mais escabrosas, como porta-voz da categoria.

Aliás, a maioria dos exportadores faz parte de órgão internacional de controle de qualidade do couro (leia aqui), o qual o próprio grupo H&M apoia.

Ainda segunda a notícia, “uma porta-voz da H&M disse que a maioria do couro do grupo é originária da Europa e que uma parte muito pequena é do Brasil”.

Não parece, efetivamente, que façam os curtumes nacionais entrarem em colapso, sendo uma pressão eminentemente política e não econômica.

Temos no país grandes grupos econômicos, fabricantes de calçados e roupas que podem perfeitamente absorver o couro “for export”, trazendo divisas ao país com agregação de valor ao produto, deixando as marcas “preocupadas com o meio ambiente”[3] numa posição de perda de fornecedor e tendo eventualmente que responder por quebra contratual.

Finalmente, a própria notícia sobre a H&M dá conta de polêmicas e posicionamentos mais graves que as alegadas suspeitas de que os insumos comprados decorram ou colaborem para o aumento dos riscos ambientais.

Chamem como for: cortina de fumaça, teatro de fantoches, casa dos espelhos, menos de preocupação com o meio ambiente!!!

 

[1] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/08/gestora-da-kipling-timberland-e-vans-confirma-suspensao-de-compra-de-couro-brasileiro.shtml

[2] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2019/09/hm-suspende-compra-de-couro-do-brasil.shtml

[3] Entre aspas porque sabemos que a preocupação destas empresas não é com o meio ambiente, mas apenas com o custo de seus insumos.

Silveirado

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