(Texto de autoria de Michel Alaby, originalmente publicado em seu site em 13/04/2020, com algumas alterações minhas para o Vida Destra)

 

Por @sssilveirado – Santa Catarina, 24/04/2020

 

Um novo Plano Marshall pode salvar a economia mundial do Coronavírus

A paralisação na atividade econômica causada pela crise do coronavirus está tendo efeitos comparáveis aos de uma guerra. Por essa razão, muitos estão chamando o plano de resgate econômico mundial necessário para impedir uma tragédia humana de proporções tão grandes quanto as causadas pela pandemia em si de novo Plano Marshall.

Por isso, vale a pena conhecer o que foi o Plano Marshall original, quem o implementou e a quem ele beneficiou. E, principalmente, qual a possibilidade real de o mundo repetir a dose de um remédio que já deu certo no passado. Fazendo uma comparação com o tratamento de uma enfermidade, algo tão no espírito dos dias atuais, quem são os médicos e os doentes.

O que foi o Plano Marshall?

O Plano Marshall foi um plano de recuperação econômica elaborado pelo então secretário de Estado norte-americano, general George C. Marshall, para reconstruir os  países que foram praticamente destruídos na Segunda Guerra Mundial (1939-1945), independentemente de que lado eles estivessem durante o conflito, do Eixo ou dos Aliados.

As razões da elaboração desse plano foi a lúcida percepção de que o que levou ao início da Segunda Guerra Mundial foram questões mal resolvidas no conflito de 1914-1918, como a atitude revanchista dos vencedores em relação aos vencidos, especialmente dos franceses em relação aos alemães.

A capitulação da Alemanha, oficializada no Tratado de Versalhes, impôs ao país uma série de restrições econômicas e o pagamento de pesadas indenizações de guerra, que levaram ao empobrecimento do povo alemão e ao surgimento de um  sentimento de injustiça. Esse foi o contexto explorado por Hitler para chegar ao poder, acabar com a democracia, começar a guerra e cometer todos os crimes que cometeu.

Mas, ao final da Segunda Guerra Mundial, o surgimento de novas versões do nazismo e do fascismo não eram a maior ameaça. O que os líderes das democracias ocidentais, como o britânico Churchill e o norte-americano Truman, que sucedeu a Franklin D. Roosevelt, falecido, perceberam era que a maior ameaça viria de um dos vencedores do conflito e aliado momentâneo: a União Soviética, uma ditadura socialista governada pelo brutal Josef Stalin.

Stalin contava com um grande ativo político nos EUA e na Europa: simpatia popular! Para justificar a aliança com os soviéticos perante sua opinião pública, os americanos suavizaram a imagem do ditador , que  na imprensa virou o “Tio Joe”, bravo e simpático líder por quem o mundo inteiro torceu fervorosamente na batalha de Stalingrado. E, tendo dominado toda a Europa Oriental, estava pronto para avançar sobre os países da parte ocidental, se a oportunidade aparecesse.

Para combater a influência de Stalin e impedir que a Europa Ocidental fosse tragada pela expansão do socialismo, o presidente dos EUA, Harry S. Truman, determinou que o secretário de estado, general George C. Marshall, elaborasse o plano de recuperação econômica dos países do Oeste Europeu, que recebeu o seu nome. O Plano Marshall consistia no investimento, ao longo de 4 anos, de US$ 13 bilhões, que em valores de 2019, seriam US$ 105 bilhões.

O Plano Marshall contemplou 17 países: Áustria, Bélgica, Dinamarca, França, Grécia, Irlanda, Islândia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Portugal, Suécia, Suíça, Turquia, Reino Unido e a então Alemanha Ocidental. Em troca desse socorro financeiro, esses países deveriam diminuir barreiras alfandegárias, afrouxar as regulações produtivas e adotar procedimentos comerciais mais modernos. (Nota: Embora o Japão também tenha recebido uma ajuda financeira de US$ 14 bilhões na época, essa ajuda não fez parte do Plano Marshall).

As Consequências do Plano Marshall

As consequências do Plano Marshall foram não só a recuperação como o maior período ininterrupto de crescimento que as economias da Europa Ocidental já tiveram. Além disso, foi o início da integração que levou à criação da União Europeia que conhecemos hoje.  Os Estados Unidos, por sua vez, consolidaram sua posição de hegemonia econômica no mundo, após a Segunda Guerra.

O que seria o Novo Plano Marshall

Um Novo Plano Marshall seria baseado na premissa, corrente, de que a crise do coronavirus é realmente uma guerra, e após ela terminar, será necessário um grande investimento por parte dos governos dos países mais ricos do mundo para recuperar não somente suas economias, mas a de países mais pobres.

Nesse sentido, os Estados Unidos já anunciaram um pacote de US$ 2,2 trilhões, o equivalente a mais de dez por cento do seu PIB, de US$ 19,39 trilhões, e o G20, o grupo dos 20 países mais ricos do mundo, dos quais o Brasil faz parte, anunciou uma injeção de US$ 4,8 trilhões na economia mundial para evitar uma recessão de proporções catastróficas.

O novo Plano Marshall vai funcionar no mundo pós coronavírus?

Essa é a pergunta que muitos fazem. E é difícil responder sem fazer antes outras perguntas. A única certeza é que existem grandes diferenças entre o mundo de 1947 e o de 2020.

A primeira diferença é saber se temos líderes à altura do desafio. Não foram poucos os países ricos democráticos em que as lideranças se mostraram vacilantes em entender a real ameaça da pandemia. Serão capazes de entender que guerra contra o coronavírus será seguida de uma emergência econômica mundial, que exigirá delas uma atuação decisiva? Nada indica que tenhamos hoje pessoas com a clareza de visão de Churchill, Roosevelt ou Truman.

E, infelizmente, não temos.

A segunda diferença é saber a real condição dos países mais ricos de fazer esse resgate. Em 1947, Europa e Japão estavam arrasados, mas os Estados Unidos estavam praticamente intactos, com uma economia em pleno emprego. Hoje, todas as maiores economias foram afetadas pelo coronavírus praticamente ao mesmo tempo.

A terceira diferença se refere ao contexto. Ao fim da Segunda Guerra Mundial estava claro para os EUA que não ajudar a Europa e o Japão significava entregar esses países ao domínio da União Soviética. Hoje,  não existe mais um grande inimigo a ser enfrentado. Embora os EUA ainda sejam a grande potência mundial e estejam sendo desafiados nessa posição pela China, até o momento a rivalidade entre esses dois países não chegou a nada parecido com o que foi a Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética.

Aída que a China seja um país oficialmente socialista, há muito ela não tem interesse em exportar o seu sistema político ou inspirar revoluções em outros países do mundo, como a antiga União Soviética fazia. A China é hoje a grande fábrica do mundo, e a relação dela com os Estados Unidos e com as demais economias do mundo é a de importar e exportar mercadorias, não ideologias. Ao menos por enquanto.

Na verdade, o que o mundo espera é que sejam a China, o FMI e o Banco Mundial os protagonistas de um Novo Plano Marshall. Não somente porque são os únicos que podem fazê-lo, mas também porque esse é o tipo de missão para que organizações como essas existem. E porque a China teria interesse em projetar seu soft power como potência ascendente, coisa que já está fazendo com a chamada “diplomacia da máscara”, as doações de respiradores, EPIs e o envio de profissionais de saúde aos países mais afetados pela pandemia.

Se esse cenário se confirmar, resta saber qual será a atuação dos autores do Plano Marshall original. Ou seja, como os Estados Unidos reagirão a um novo e reforçado protagonismo chinês no mundo. Uma questão que, uma vez vencida a pandemia nos EUA, poderá ser de grande peso nas eleições presidenciais americanas, que ocorrerão em 2020.

O Comércio internacional no mundo pós-pandemia.

Outra questão que precisa ser observada é como será o comércio internacional nesse mundo pós-pandemia do coronavírus. Ter a China como grande fábrica do mundo levantou algumas questões. Muitos países, inclusive o Brasil, precisaram de equipamentos para combater a pandemia, desde máscaras de proteção N95 até respiradores, para tratar os doentes mais graves.

Como a maior fabricante desses itens é justamente a China, que foi o primeiro país a ser afetado pela pandemia, hoje são produtos com altíssima demanda em falta no mundo inteiro e com gravíssimas consequências. Essa dependência de um único país como principal, ou único, fabricante de produtos que o mundo precisa, e que se tornaram realmente estratégicos, levantou em todo o mundo questionamentos sobre o atual estágio de globalização, que pode levar a mais protecionismo, o que coloca um ponto de interrogação no papel que a China poderá realmente exercer.

A única certeza que temos é que com ou sem um novo Plano Marshall, o mundo não será o mesmo após a pandemia do coronavírus. E, literalidade à flor da pele, quem viver, verá!

Avatar
Últimos posts por Silveirado (exibir todos)
Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
mais antigos
mais novos mais votados
Inline Feedbacks
View all comments
Moisés
Moisés
3 meses atrás

Muito bom