A passagem do ex-chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, foi uma das mais aguardadas na CPI da Pandemia. O objetivo é estabelecer alguma conexão entre as eventuais dificuldades que, a exemplo de outros países, o Brasil possa ter encontrado no processo de aquisição de vacinas.

Mas a “quinta série” da política brasileira quer convencer a sociedade de que o nosso país é alvo de uma birra chinesa por causa de falas pinçadas sem o devido contexto. Atribuem a essas manifestações os eventuais atrasos no envio de insumos para a fabricação de vacinas, como a Coronavac. É o próprio Butantan que, buscando politizar o fato, se apressa a fazer essa associação, sendo apoiado por membros da classe política.

O Governo chinês jamais deu uma sinalização oficial de que os atrasos ocorreram por conta disso. Sempre se manifestaram no sentido de dizer que não havia qualquer entrave político ou diplomático, mas sim uma intercorrência devido ao grande volume de pedidos de vários países. Ela tem contratos a cumprir.

E foi nesse sentido que Ernesto Araújo se manifestou na CPI. Ele afirmou que o Itamaraty acompanhou todo o processo burocrático de liberação das exportações de insumos de vacinas. E jamais foi identificada nenhuma correlação entre o atraso que houve e qualquer atuação dele ou qualquer elemento político do governo brasileiro. Pelo contrário, a China, por suas autoridades, já informou, inclusive publicamente, que o Brasil é o país que mais recebeu insumos e vacinas produzidos por eles.

Não se pode esquecer que a China é o nosso maior parceiro comercial. Em 2020, a corrente de comércio (exportação + importação) entre Brasil e China foi superior a US$ 100 bilhões. Foram US$ 101.728 bilhões comercializados. As exportações brasileiras alcançaram a cifra igualmente recorde de US$ 67.685 bilhões e as importações totalizaram US$ 34.042 bilhões, segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex) do Ministério da Economia.

Exportamos aos chineses praticamente o dobro do que importamos, o que demonstra que eles precisam do que vendemos, compram de nós porque somos competitivos e temos qualidade, sobretudo no que diz respeito às commodities agrícolas. É simples: a China precisa comer, e nós temos comida. Não é um favor que nos fazem.

Agora, não é segredo para ninguém que o sharp power chinês é muito forte e incisivo. O modo com que a diplomacia chinesa joga duro com os que se opõem a seus interesses é evidente. Basta ver a reação da China a países que não optam, por exemplo, pela tecnologia 5G da Huawei. Aí sim, uma posição de nação, concreta, diplomaticamente sustentada é que pode ser alvo de uma retaliação.

Por isso mesmo, uma fala retórica de qualquer um no Brasil não movimenta o gigante asiático que também depende das boas relações com o nosso país. O pragmatismo impera. Aliás, é muita presunção achar que isso estaria acima das relações históricas entre os dois países. Pura bravata.

Essa narrativa de uma China ofendida por causa de falas esporádicas é infantilidade, e não encontra respaldo na realidade. É tão surreal como imaginar que os EUA passassem a retaliar ao Brasil comercialmente por falas, de parlamentares de esquerda contra o “imperialismo americano” e outras tolices.

Outros países promovem ações muito mais contundentes cobrando transparência do Governo chinês em relação à pandemia, bem como fazem denúncias de abusos e violações dos direitos humanos de minorias religiosas praticados pelo regime. E nem por isso, parece haver um receio dos parlamentos desses países por eventuais retaliações a essas críticas justas e necessárias.

Porém, mesmo diante de provas da irrelevância desses casos para a boa relação com a China, é essa cascata que vem pautando o debate público no Brasil. Não se pode mais fazer qualquer crítica, ainda que sustentada em fatos, sob pena de sermos “castigados” e ficar sem a vacina. E claro, a culpa será de quem ousou apontar as mazelas da ditadura comunista chinesa, que infelizmente, tem muitos adeptos no Brasil.

 

 

Ismael Almeida, para Vida Destra, 19/05/2021.
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Roberto Toledo
Roberto Toledo
2 meses atrás

NESTA ENTREVISTA DA JOVEM PAN FICA CLARISSIMO QUE O DORIA COMBINOU COM A CHINA PRA IMPEDIR A REMESSA DO TAL INSUMO E TENTAR CAUSAR PRESSÃO NA POPULAÇÃO DAQUI https://youtu.be/7wll7o4lwk4

Roberto Toledo
Roberto Toledo
2 meses atrás

O embaixador da china disse no twitter que irão se apoderar do Brasil e é preciso ter paciência. E aí brasileiros ?????