O advento da pandemia do Covid-19 trouxe à tona os reais interesses de muitas pessoas, agentes públicos, partidos políticos e governos. A República Popular da China exemplifica perfeitamente essa realidade. O modus operandi da diplomacia “não oficial” chinesa não é segredo para alguns, que sabem como seus agentes agem contra aqueles que representam algum tipo de ameaça ao regime comandado pelo Partido Comunista Chinês (PCC).

E essa perseguição não conhece limites territoriais ou institucionais. Para se ter uma ideia, Indivíduos chineses, que se identificaram como funcionários da embaixada chinesa em Portugal, tentaram bloquear a participação do cardeal Joseph Zen Ze-kiun, bispo emérito de Hong Kong e opositor do regime de Pequim, numa reunião de católicos em Fátima, entre 22 e 25 de agosto de 2019.

O evento foi organizado pela International Catholic Legislators Network (ICLN). Segundo a imprensa portuguesa, esses “diplomatas” queriam que a organização do evento desconvidasse o cardeal e dois deputados de Hong Kong, com o argumento de que seriam mentirosos.

Testemunhas também afirmam que houve múltiplas tentativas de entrar nas instalações do hotel, perceber o que ia ser discutido nas várias reuniões programadas, fotografar os participantes do encontro e até seguimentos durante as orações realizadas diariamente no santuário. Uma ação claramente intimidatória!

Mas nos últimos anos, o achaque diplomático chinês passou a ser feito às claras, de forma oficial e com cada vez mais ousadia. A China interfere nas questões internas de outros países, por meio do chamado sharp power, que nada mais é do que o uso de políticas diplomáticas manipuladoras por um país para influenciar e minar o sistema político de um país-alvo.

Geralmente, essa manipulação ocorre por meio de investimentos que, à primeira vista, parecem ótimos negócios, mas que servem depois para amarrar os setores estratégicos desses países aos interesses chineses.

O Embaixador Yang Wanming representa fielmente essa modalidade diplomática chinesa. Para quem não se lembra, ele foi embaixador na Argentina entre 2014 e 2018, e foi o artífice de um acordo que permitiu a construção de uma base de satélites chinesa no deserto da Patagônia.

Os termos do acordo assustaram o Presidente Maurício Macri, recém empossado. Os argentinos não poderiam entrar nas instalações ainda em obras, por exemplo. Ao questionar Wanming, Macri foi avisado de que se quisesse rever o acordo sobre a base, então a China iria rever todos os acordos com a Argentina, o que comprometeria bilhões de dólares em empréstimos e investimentos.

O cenário pandêmico, que aliás, alguns julgam ser de responsabilidade chinesa, foi o palco perfeito para que as chantagens se tornassem explícitas. Como foi o único país que viu sua economia crescer durante a pandemia, a China praticamente monopolizou a produção de EPI’s usados no enfrentamento da crise, passando a negociar em posição de vantagem.

No Brasil, governos estaduais fizeram compras diretas de respiradores através de operações pouco transparentes e com fortes indícios de corrupção, segundo apontam investigações da Polícia Federal. Mas essas transações diretas feitas com governos estaduais tinham também o objetivo de minar a coordenação do Ministério da Saúde, que ficou apenas com a fatura para pagar.

Com a fabricação das vacinas contra Covid-19 não foi diferente. No começo de 2021, houve um atraso na entrega de insumos vindos da China. O embaixador Wanming foi à imprensa e disse que a China pressionava pela demissão do ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, para liberar os insumos.

Há poucos dias, o governo paraguaio denunciou que intermediários chineses fizeram uma proposta para ter acesso a vacinas contra a covid-19. Em troca, o país deveria romper as relações diplomáticas com Taiwan. Se isso não é chantagem explícita, nada mais é.

Aliás, a Embaixada chinesa enviou uma carta à Câmara dos Deputados no ano passado pedindo que os parlamentares brasileiros não exaltassem Taiwan ou parabenizassem a presidente recém eleita. Um absurdo completo! Imaginem se os EUA mandassem carta ao Parlamento brasileiro intimidando deputados de esquerda que falassem mal do governo americano? É surreal!

O mais grave é que muitos políticos brasileiros acham essa chantagem diplomática justificável como forma de reação a falas de políticos que são seus adversários por aqui. Ignoram que é exatamente esse jogo que beneficia os interesses chineses em detrimento dos interesses brasileiros e de nossa soberania?

Esses são apenas alguns episódios recentes da forma como a diplomacia chinesa vem atropelando as regras da boa convivência entre as nações. Chantagem é coisa de bandido aproveitador, e nenhuma nação livre deveria se submeter a esse tipo de coisa, ainda mais quando o chantagista se aproveita de uma tragédia humana para isso.

Quem decide ignorar esses fatos, seja por conveniência política, ou até mesmo por interesses financeiros, é cúmplice do achaque e da chantagem. E obviamente, tem explicações a dar em breve.

 

 

Saul Christos, para Vida Destra, 29/03/2021                                                                    Sigam-me no Twitter, vamos debater o meu artigo! @saulchristos

 

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Erick Nilson Silva
Erick Nilson Silva
1 ano atrás

Estamos ferrados com essa turma do PCC.