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A extinção da liberdade

 

DUBLIN, IRELAND – APRIL 08: Taoiseach Leo Varadkar (pictured) and EU Chief Brexit Negotiator Michel Barnier hold a joint press conference at Government Buildings on April 8, 2019 in Dublin, Ireland. Discussions between the two come ahead of Wednesday’s meeting of EU leaders with British Prime Minister Theresa May requesting an extension in the Brexit process. (Photo by Charles McQuillan/Getty Images)

 

Fonte: Spiked (Online)

Título Original: The erasure of liberty

Link para a matéria original: aqui!

Publicado em 20 de dezembro de 2021

 

Autor: Brendan O’Neill

 

A cultura do medo da Covid é a maior ameaça à liberdade no século 21.

 

Leo Varadkar verbalizou o indizível. O Tánaiste (vice-primeiro-ministro) da Irlanda deixou claro que, agora, estamos em uma guerra sem fim contra a Covid e que uma de suas principais baixas será a liberdade. Na sexta-feira, enquanto a Irlanda apresentava diversas novas medidas de contenção da Ômicron, Varadkar dizia que a crise da Covid talvez dure ‘vários anos’. É uma ‘guerra longa’, declarou. E então irrompeu a linha matadora, as palavras que deveriam tranquilizar não só os irlandeses, mas todos os habitantes da Europa Ocidental. Prevendo um futuro sombrio e intolerante sob o qual a Covid supostamente nos forçará a viver, Varadkar afirmou que “talvez, antecipadamente aos próximos invernos e variantes, devêssemos tentar ter períodos de liberdade e dar às pessoas alguma folga…”

Períodos de liberdade. Essas três palavras deveriam nos preocupar a todos. Elas capturam, possivelmente muito mais do que qualquer outra declaração de um membro da classe política, nos últimos 21 meses, a evidente reorganização histórica da sociedade, pela qual estamos passando hoje. O sonho desalentador de Varadkar inclui restrições e lockdowns permanentes, ainda que ocasionalmente amenizados por ‘períodos de liberdade’. Por breves tréguas do controle governamental. Por intervalos de alguns meses, ou talvez apenas umas poucas semanas, quando os nobres líderes permitirão que você faça o que quiser. Isso até que o inverno dê sinais de que está chegando novamente, ou seja, com sua promessa de doenças respiratórias, e então seu ‘período de liberdade’ chegará ao fim. A imprudente declaração de Varadkar confirma que, na era da Covid, a relação entre estado e indivíduo está sendo radicalmente reorganizada para benefício do primeiro e degradação do segundo.

De todos os países da Europa que estão reinstaurando um lockdown rigoroso ou leve, a Irlanda é o país que mais me preocupa. A Irlanda é uma das nações mais vacinadas do continente. Mais de 90% de sua população elegível receberam duas doses. Em comparação, o Reino Unido vacinou cerca de 80%; a Alemanha, 70%; a Polônia, 55%. Além disso, a aplicação de doses de reforço vai muito bem. Neste momento em que escrevo, 1,5 milhão de doses de reforço já foram aplicadas – nada mal para um país cuja população é de apenas 5 milhões. Apesar de tudo isso, e a despeito do fato de que o povo irlandês apresenta níveis muito altos de proteção contra os piores impactos da Covid, persiste-se em implementar restrições, e a normalidade permanece como um sonho distante.

As novas restrições na Irlanda começaram no domingo. Incluem toque de recolher a partir das 8 horas da noite, em pubs e restaurantes. Depois desse horário, estão proibidos eventos em locais fechados. Tais eventos, quando realizados antes das 8 da noite – a Ômicron é menos virulenta durante o dia, segundo essas regras malucas – estarão limitados a 50% da capacidade do local. E as regras de proximidade social também mudaram: agora, mesmo quem está triplamente vacinado terá que se isolar por cinco dias, caso entre em contato com alguém diagnosticado com Covid. As regras para reuniões domésticas não foram alteradas – pessoas de três diferentes domicílios ainda podem se reunir na residência de uma quarta pessoa. Portanto, encontros familiares estarão permitidos neste Natal. Este talvez seja um daqueles breves ‘períodos de liberdade’ prometidos por Varadkar. Tenho certeza de que o povo irlandês está super agradecido por este pequeno ato de misericórdia dos poderes constituídos.

Algumas autoridades, na Irlanda, querem que o governo reprima ainda mais. O National Public Health Emergency Team (NPHET) – basicamente, o SAGE da Irlanda – propôs toque de recolher a partir das 5 horas da tarde, para pubs, restaurantes e cinemas. Resumo: não haveria nada para se fazer ao final do dia de trabalho. Tudo estaria fechado. Isso seria um lockdown em tudo, menos no nome. Felizmente, até a elite amante de lockdowns de Dublin rechaçou essa proposta mágica para controlar a propagação da Ômicron. Christopher O’Sullivan, TD* de Courk South-West, afirmou: ‘Muitas pessoas já estão vacinadas com a 3ª dose, mas elas não deveriam poder comer ou beber com um amigo, em um restaurante, após as 5 horas da tarde’.

De fato, O’Sullivan expõe um ponto importante sobre a situação geral da Irlanda e também da Europa. É grande o número de pessoas já vacinadas. E nos foi dito que, muito provavelmente, assim que estivéssemos vacinados, assim que mais e mais pessoas estivessem protegidas dos graves problemas de saúde ou mesmo da morte por Covid-19, tudo voltaria ao normal. Sim, a Covid ainda sobe e desce, ainda se propaga, ainda infecta, mas a vida tem que continuar, assim como fazemos nos casos de gripes e resfriados. Este, claramente, não é mais o caso. Agora, mesmo a população da Irlanda super vacinada poderá ter sua liberdade rescindida assim que uma nova variante surgir. Sim, a Ômicron aparentemente pode contornar a imunidade vacinal, mas, até o momento, as evidências sugerem que a variante, no máximo, causa uma forma branda da doença nas pessoas vacinadas. A previsão mais catastrófica do NPHET é que 2 mil pessoas poderiam ser hospitalizadas por causa da Ômicron, no próximo mês. Duas mil em cinco milhões. Isso significa que, no pior cenário, 0,04% da população demandaria hospitalização. Que me desculpem, mas um país que não pode fornecer serviço hospitalar para 0,04% de sua população sem antes restringir liberdades, [esse país] precisa fazer uma séria auto avaliação.

Para qualquer pessoa na Europa que se importe com a liberdade, a Irlanda deveria fazer soar os alarmes. Um país super vacinado, que enfrenta a possibilidade de apenas 2 mil pessoas precisarem de atendimento hospitalar, está impondo novas restrições e falando em racionar a liberdade durante anos. Isso mostra, muito claramente, que o modo de vida democrático está sendo erradicado pela cultura do medo da Covid. O problema desse debate, no entanto, é que um lado afirma que esse tipo de coisa sempre foi o plano nefasto (o Great Reset etc.); já o outro lado diz que o mais importante é apoiar a saúde pública; e qualquer um que abra a boca para dizer… ‘Mas, e a liberdade e a democracia?’… torna-se, essencialmente, um ‘assassino de vovós’. Precisamos urgentemente neutralizar essa visão discrepante e estúpida e argumentar que a extinção da liberdade pode não ser uma conspiração, pode não ser o plano concreto de uma elite conspiradora, mas, ainda assim, é algo real, e terá consequências reais para cada soberania, à solidariedade das comunidades, para cada direito que todos temos de fazer escolhas e avaliar os riscos que acharmos convenientes.

‘Períodos de liberdade’ – ao que parece, isso é tudo o que podemos esperar no futuro. Mas, um ‘período de liberdade’ não é, de forma alguma, liberdade. Se a posição básica da sociedade é ter um regime de restrições justificado, em nome da saúde pública; e se a liberdade é tão somente um prazer temporário, quando tudo vai bem; então, a liberdade perde seu sentido e a própria cidadania é violentamente subvertida. Precisamos insistir que não cabe ao estamento burocrático nos conceder a liberdade. Nós já possuímos a liberdade. E ai de nós se o sistema acreditar que tem o direito de nos negar a liberdade sempre que houver uma crise.

 

* N.T.: TD significa Teachta Dail (membro do parlamento irlandês)

 

Brendan O’Neill é redator-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast da Spiked, The Brendan O’Neill Show.

 

 

Traduzido por Telma Regina Matheus, para Vida Destra, 01/01/2022.                                  Faça uma cotação e contrate meus trabalhos através do e-mail  mtelmaregina@gmail.com ou Twitter @TRMatheus

 

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