No último dia 16 de junho de 2022, o USA Today removeu, de sua plataforma, 23 artigos que podem ser considerados desde incompletos ou parcialmente incorretos até falsos – ou fake news, para quem gosta do estrangeirismo. Não é pouca coisa. A jornalista que os escreveu, e o USA Today publicou, a jovem Gabriela Miranda, supostamente inventou declarações e fontes para corroborar as informações disponibilizadas em suas matérias noticiosas. Quando o trabalho jornalístico é sério, íntegro e ético, esse tipo de ocorrência significa catástrofe das grandes. Em uma conclusão sucinta, o jornal aparentemente MENTIU para seus leitores.

Confiança e taça de cristal, depois de quebradas, são inconsertáveis. Ainda que se recolham e colem os cacos, a marca da quebra persistirá para sempre, constantemente nos lembrando que, ei!, se mentiu uma vez, por que não mentirá de novo?

Infelizmente, o USA Today não está sozinho nessa, só foi pego na possível trapaça. Entre ladrões, existe a máxima de que o problema não é roubar, mas ser capturado. Pelo comportamento que a imprensa mundial, o que inclui a brasileira, tem mostrado, é razoável a suspeita de que, talvez, o bordão dos ladrões se encaixe à perfeição na mídia corporativa.

O quanto isso prejudicará a imagem e a reputação de um dos jornais de maior circulação em solo americano ainda está para ser medido. O dono incontestável da verdade, o tempo, nos dirá. Talvez.

A suposta farsa

Ao que tudo indica, alguém acionou o USA Today e solicitou correções em algum artigo de Gabriela Miranda. Isso motivou a instauração de uma investigação interna para auditar o trabalho de reportagem da jornalista. Segundo o New York Post, o Breitbart News, a Fox News e a CNN, todos citando o Times que, por sua vez, foi o primeiro a ter acesso à nota de esclarecimento elaborada pelo USA Today, “a auditoria revelou que alguns indivíduos citados [no artigo] não pertenciam às organizações mencionadas [no artigo] e aparentemente foram fabricados”.

Considerado um dos jornais de maior circulação nacional, o USA Today, fundado em 1982, tem sua sede no Estado da Virgínia. De periodicidade diária, emprega 5.000 jornalistas e sua versão impressa é distribuída em 46 estados americanos. O total de leitores diários chega à casa dos 5 milhões. É o que afirma o website da empresa.

Por algum motivo, o imbróglio veio a público. O mais rotineiro é que esse tipo de ocorrência trafegue apenas nos corredores internos. A jornalista já se desligou do jornal, fechou suas contas de mídia social e tomou providências para rebater os auditores. O USA Today, em sua nota de esclarecimento, promete aperfeiçoar seus processos de obtenção e verificação das informações que publica.

“O jornalismo profissional morreu”

A frase é do jornalista Paulo Figueiredo, atualmente integrando o corpo de comentaristas da Jovem Pan e bastante atuante no YouTube, onde tem um canal. Ele inegavelmente tem razão.

Foi uma morte lenta, iniciada há algumas décadas, quando uma inicialmente gradual e, mais recentemente, ferrenha relativização atingiu em cheio os princípios da ética, da honestidade intelectual e do compromisso com a veracidade e a integridade dos fatos. Porque houve, sim, uma época em que a condição sine qua non para publicar uma história era que a voz que a contava pertencia a alguém com nome, sobrenome e CPF – pelo menos. Se a informação não tinha um dono a se responsabilizar por ela, então, não era informação, apenas fofoca. Jornais e revistas que, eventualmente, negligenciassem tais princípios faziam parte da escória que, infelizmente, machuca qualquer profissão.

Fontes secretas, que pediam ou precisavam de anonimato, somente em casos extremos e com o aval do corpo jurídico do veículo de notícias. Também gradualmente isso foi relativizado, e o escalamento dessa relativização foi tão gigantesco que, hoje, ‘fonte anônima’ ganhou status de divindade incorpórea, inacessível e inexpugnável.

Ficou fácil, portanto, inventar, mentir, distorcer, dissimular, manipular. Não há punição, não há responsabilização, não há sequer apuração das narrativas. A veracidade dos fatos foi descartada como uma senhora velha e inconveniente. A verdade é persona non grata, pois insiste demais em ratificar uma realidade indesejada. Talvez por isso a agora ex-jornalista do USA Today tenha se sentido confortável ao supostamente inventar personagens e relatos para falar o que, provavelmente, ela queria dizer.

Ao consumidor de notícias, restou a missão de se precaver para não ser manipulado pelas ciladas midiáticas. Tarefa hercúlea, sem dúvida. Não é possível simplesmente deixar de ler notícias, ainda que mais angustiante do que a própria notícia seja a dúvida quanto à sua integridade.

Pode parecer paradoxal, e é, mas a mentira e a manipulação dão sinais sinceros de que estão enganando você. A regrinha de ouro é que toda matéria jornalística séria entrega respostas para 6 perguntas básicas: o que (o evento), quando (a data ou período), onde (o local do ocorrido), como (o modus operandi), QUEM (os personagens envolvidos E O EMISSOR da informação) e por quê (a motivação). Se essas indagações ficarem sem respostas CLARAS, você está diante de uma possível manipulação de fatos.

Sempre, mas sempre mesmo, que encontrar expressões como, por exemplo, “assessor próximo a fulano”, “fontes palacianas”, “integrante da comitiva do sicrano”, “interlocutor de ministro(s)”, e a melhor de todas, “o entorno do beltrano” – considere que 90% da verborragia é muito mais o que o jornalista queria dizer, mas não encontrou ninguém para dizê-lo. Portanto, não é informação; no mínimo, é opinião ou conclusão pessoal; no máximo, fofoca.

Claro, isso não nos protege de que o ‘jornalista’, assim como aparentemente fez Gabriela Miranda no USA Today, invente nomes e cargos para corroborar a fábula que quer divulgar. Porém, descartar – sem receio ou escrúpulos ingênuos – a informação apócrifa já é um começo.

 

 

Telma Regina Matheus, para Vida Destra, 23/06/2022.                                                    Sigam-me no Twitter, vamos debater o meu artigo! @TRMatheus

 

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