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A perplexidade dos Democratas

As eleições de midterms expuseram claramente como os Dems estão fora da realidade.

 

Fonte: Spiked online

Título original: The bewilderment of the Democrats

Link para o artigo original: aqui.

Publicado em 8 de novembro de 2022

 

Autor: Brendan O’Neill*

 

O Partido Democrata está realmente atordoado com os eleitores americanos, não é mesmo? Os Dems parecem totalmente perplexos com as massas. Parecem desnorteados com as prioridades políticas das pessoas, com suas crenças, sua falta de interesse nas questões da guerra cultural que, constantemente, os esquerdistas militantes reivindicam como as mais importantes na América. Tudo o que li às vésperas das midterms de hoje sugere que a máquina dos Democratas está tão à deriva, no que tange aos americanos, que bem poderia estar em outro planeta.

Os Democratas precisam ‘confrontar seu cenário de pesadelo’, relata a CNN. O que é esta coisa infernal que, segundo a CNN, os Dems ‘sempre temeram’? É que a principal preocupação dos eleitores é a economia! Isso é um pesadelo para os Democratas, porque eles esperavam que as grandes questões nas midterms fossem o aborto, após o desfecho do caso Roe vs. Wade, e o episódio de 6 de janeiro. Quando um partido político considera um pesadelo que os eleitores estejam pensando na economia – em seus pacotes salariais, em pagar as contas, em conseguir sobreviver – você sabe que ele está à beira da insanidade. Você sabe que ele se desviou do reino da realidade, das questões que sensibilizam as pessoas, e agora está muito mais interessado em sinalizar ruidosamente sua virtude em questões de ‘justiça’.

É a prova do além-mundo dos Dems, de seu distanciamento do povo, de que eles realmente pensaram que poderiam se esquivar da economia nestas eleições. Joe Biden preferiu amplificar a questão da democracia, com suas afirmações frenéticas de que os Republicanos após o 6 de janeiro são uma ameaça às próprias instituições da política americana. Mas as pessoas enxergam através de sua pose de defensor da vida democrática. Elas sabem que é uma política inoperante, concebida para desviar o olhar da bagunça que ele fez na economia e induzi-las a priorizar um golpe imaginário contra a América.

Como diz a CNN, os Dems claramente pensaram que fomentar o pavor em relação aos eventos do dia 6 de janeiro, provocando medo acerca do futuro da democracia, seria uma boa jogada, mas eles estavam errados. O pânico democrático de Biden ‘ressoa fortemente em Washington, DC’, diz a CNN, ‘mas, fora da bolha de políticos e jornalistas de Beltway, a democracia parece ser um conceito muito mais distante e esotérico do que a luta diária para alimentar a família’. O evento do dia 6 de janeiro só interessa mesmo às elites progressistas porque lisonjeia sua autoimagem empolada de virtude, pois seriam elas que mantêm à distância a multidão trumpista. A maioria dos americanos já superou isso, e eles não gostam de ser alvos de uma política de medo, transparentemente projetada para fazê-los pensar menos sobre a economia.

Alguns tentaram alertar a administração. Bernie Sanders disse aos Dems para se controlarem. Sim, a questão do aborto é importante, disse ele, ‘mas deveria constituir 80% do debate? Ou vocês deveriam começar a falar sobre o que preocupa profundamente o povo americano?’ Há uma estranha, quase aristocrática inclinação para a desconexão dos Dems em relação à vida de tantas pessoas. Um eleitor republicano, entrevistado pela BBC News, sintetizou o fenômeno. As pessoas estão preocupadas com a inflação, o aumento dos preços dos combustíveis e a criminalidade, disse ele, e ainda assim os Democratas estão se concentrando em ‘questões como acesso ao aborto, direitos dos transgêneros, leis restritivas de armas, desmantelamento da polícia e 6 de janeiro’. As pessoas querem soluções para seus problemas econômicos, e tudo o que estão recebendo dos Dems é uma política de Twitter. Eles se parecem com o equivalente político-partidário de uma reunião editorial de Jezebel, o Instagram da Lena Dunham real.

É tentador ver os Dems se esquivando da economia como apenas uma tentativa de encobrir os estragos de Biden. Isso faz parte, sem dúvida. Mas há mais também. Sua negligência nos assuntos econômicos reflete um afastamento mais amplo da política que um dia conhecemos e [uma aproximação do] novo complexo industrial de virtudes, onde o desempenho da retidão é mais importante do que a reparação de danos sociais.

Entretanto, não é apenas na economia que os Democratas estão perplexos com o povo. Há também a criminalidade. As pesquisas mostram que esta é outra grande preocupação dos eleitores, não muito atrás da economia. E os Dems não estão percebendo. Eis o desnorteamento da governadora Democrata do Estado de Nova York, Kathy Hochul, que, em uma recente discussão sobre como as reformas da fiança poderiam ter incitado o crime em NYC, disse: ‘Não sei por que isso é tão importante para vocês’. Não saber por que as pessoas querem viver em comunidades que não se vejam em uma situação fora de controle, que se sintam seguras em vez de caóticas, supera o não saber por que os eleitores têm preocupações econômicas. A falta de noção é extraordinária.

Há um desdém palpável entre as elites costeiras em relação às preocupações das pessoas com o crime. Isto foi bem capturado em um artigo do New York Times que parecia mais um escárnio disfarçado de jornalismo. ‘O medo do crime predomina entre os eleitores’, dizia. As pessoas aparentemente se deixam ‘dominar’ pelas ‘preocupações com o crime e a desordem’. Algumas dessas pessoas medrosas sequer foram vítimas de crimes, nos disseram – elas apenas viram ‘acampamentos de sem-teto ou… uma seringa, ou dejetos humanos no calçadão’. Eu me pergunto por que as pessoas poderiam achar isso perturbador. Por que poderiam considerar a presença de fezes humanas em suas ruas como uma coisa indesejável, possivelmente um sinal de mal-estar social? Alguns elementos das elites culturais estão agora tão arrebatados pela simpatia pseudoprogressista pelos criminosos de rua que imediatamente pensam que toda expressão de preocupação com o crime é racista, ou pelo menos prova de ‘medos’ da direita.

Os direitos paternos no campo da educação é outra coisa que os Dems e seus apoiadores da mídia não captaram nesta eleição. Muitos Republicanos disseram que não é correto que as escolas ensinem as crianças sobre questões transgênero e de sexualidade e raça. Não é para isso que serve a escola, dizem eles. Muitos pais concordam. E isso intriga os progressistas. Só porque eles estão felizes por seus filhos serem informados de que existe uma centena de gêneros, eles acham que todos os outros pais também deveriam estar. Eles não conseguem imaginar a existência de seres humanos que tenham uma visão de vida diferente da deles. Assim, o Washington Post ridicularizou o foco dos Republicanos sobre os ‘direitos paternos’ – sim, o jornal colocou os direitos paternos entre aspas – e rotulou o tema como uma ‘questão da guerra cultural’ fortemente direcionado a ‘criticar os direitos dos transgêneros’. As perspectivas políticas deles são puras – as suas são fobias, neste caso, transfobia.

The Dems increasingly resemble ageing aristocrats peering from the windows of their castle at the bemusing throng below. Maybe your average American is just dim? Hillary Clinton hinted at this when she wondered out loud last week if voters ‘really understand’ what’s at stake in the Midterms. ‘I think that with all of the noise that we’ve gotten in this election season, I don’t think that people are really able to grasp [how bad it would be for the Republicans to take back control of the House]’, she said. It’s been too noisy. The little people can’t think straight. No wonder they’re making so many dumb decisions, like talking about the economy and worrying about crime.

Os Dems se assemelham cada vez mais a aristocratas decrépitos que espreitam, das janelas de seus castelos, a multidão desorientada que está lá embaixo. Talvez o americano médio seja apenas um tanto simplório? Hillary Clinton insinuou isso quando se perguntou em voz alta, na semana passada, se os eleitores ‘realmente entendem’ o que está em jogo nas midterms. ‘Acho que, com todo o ruído que nos atinge nesta época de eleições… não acho que as pessoas sejam realmente capazes de perceber [quão ruim seria se os republicanos retomassem o controle da Câmara]’, disse ela. Há ruído demais. As pessoas comuns não conseguem pensar direito. Não é à toa que tomam tantas decisões estúpidas, como falar sobre a economia e se preocupar com a criminalidade.

Os Democratas estão à deriva no mundo dos trabalhadores há muito tempo. Os ‘Democratas’ há muito deram adeus à ‘classe trabalhadora’, como disse um artigo do Atlantic, esta semana. Os Dems ‘continuam perdendo o apoio da classe trabalhadora’, e cada vez mais entre as classes trabalhadoras não brancas, como também entre as classes trabalhadoras brancas. Sua escolha de temas apela mais aos ‘eleitores socialmente progressistas e com formação universitária’ do que à sua ‘tradicional base de apoio’. Esta é a história dos principais partidos de ‘esquerda’ em todo o Ocidente: eles deixaram sua base da classe trabalhadora e passaram a ser propriedade de graduados da classe média alta. O resultado final consiste em partidos, como os Dems, que genuinamente não conseguem entender por que as pessoas que trabalham querem maior segurança econômica, menos crimes e uma boa educação para seus filhos, em vez de propaganda com influência de fluidez de gênero. Imagine ficar desnorteado com essas ideias tão normais.

 

*Brendan O’Neill é redator-chefe de política na Spiked e apresentador do podcast da Spiked, The Brendan O’Neill Show. Assine o podcast aqui.

 

 

Traduzido por Telma Regina Matheus, para Vida Destra, 12/11/2022.                                  Faça uma cotação e contrate meus trabalhos através do e-mail  [email protected] ou Twitter @TRMatheus

 

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