Em um futuro não muito distante…

São 6:30 da manhã e você desperta com a voz da assistente virtual, que lhe informa as horas e a previsão do tempo. Enquanto faz a sua higiene diária com a toalha umedecida higienizadora (os banhos foram abolidos por desperdiçarem água e energia), a assistente virtual faz a leitura das suas mensagens e traz as informações do dia, autorizadas pelo Comitê Gestor de Informações, do governo.

Já vestido, hora do café da manhã, que ainda tem este nome apesar do consumo de café ter sido abandonado para que as lavouras cafeeiras dessem lugar a plantações mais importantes, como a soja, ou a projetos de reflorestamento. E nada de leite de vaca. No cardápio gafanhotos e larvas com leite de baratas, tudo de acordo com a dieta prescrita pela assistente virtual e que fornece todos os nutrientes necessários para suprir as necessidades humanas, tudo cientificamente comprovado, de acordo com os especialistas.

Você se distrai ouvindo as notícias oficiais enquanto faz o desjejum, se esquece do horário e se assusta com a voz da assistente virtual avisando que em dois minutos o veículo compartilhado estará chegando na sua porta.

Apressadamente você pega sua máscara e a mochila feita de materiais reciclados e desce rapidamente as escadas do seu edifício (Os edifícios não usam mais elevadores, para economizar energia e incentivar os exercícios físicos). Mal chega na calçada e o veículo elétrico compartilhado estaciona logo à sua frente. Você entra no veículo, que já tem outros três passageiros e segue para o trabalho.

Apesar de nunca ter ido trabalhar em companhia destas pessoas, elas lhe são familiares, pois usam roupas iguais, com o mesmo padrão e cores. A variedade de cores e modelos de roupas foi abolida pois incentivava um consumismo desnecessário fazendo a indústria gastar recursos naturais preciosos para produzi-las. E gerava outros distúrbios nocivos pois incentivava as pessoas a valorizarem umas às outras dependendo da sua vestimenta, o que gerava uma desigualdade inaceitável.

Após cumprimentar as pessoas você segue ouvindo as notícias oficiais, afinal é importante se manter bem informado já que a qualquer momento pode surgir uma pandemia ou outra situação emergencial que exija uma nova postura no dia a dia e você não quer ser o responsável por violar regras vitais e colocar em risco o bem-estar e a segurança de toda a sociedade.

Terminadas as notícias oficiais, a assistente automaticamente coloca uma música especialmente escolhida para você relaxar enquanto se dirige ao trabalho. Ouvindo a música, sua mente divaga e você se dá conta de como é privilegiado por ser um dos poucos trabalhadores que ainda atuam presencialmente, já que a maioria das pessoas atua remotamente.

Seu trabalho no Núcleo de Produção e Abastecimento Regional é importante para toda a sociedade, pois é lá que os alimentos e demais itens necessários para o dia a dia dos cidadãos são produzidos, embalados e enviados para todos, com os custos subsidiados pelo Estado e o valor sendo descontado diretamente dos salários.

Com a produção padronizada, o governo consegue garantir que todas as pessoas tenham o mesmo padrão de vida e usufruam das mesmas coisas, garantindo assim uma sociedade sem desigualdades sociais como as vividas pelas gerações anteriores.

E tudo funciona de forma muito simples, bastando você informar ao governo o seu número de cidadão e qual gênero você escolheu, para receber tudo o que precisa. Desde que você não esteja incluído numa lista de pessoas antissociais, é claro.

Você se lembra como seus antepassados viviam com dificuldades, tendo, por exemplo, que passar anos numa instituição chamada “escola” para adquirir conhecimentos que  dependendo da profissão escolhida nem seriam utilizados. E mais uma vez você respira aliviado, pois não precisou passar por nada disso. Os computadores do governo automaticamente determinaram qual a melhor função para você e imediatamente você pôde iniciar o seu trabalho, pois a assistente virtual lhe dizia tudo o que você tinha que fazer, dispensando horas ou anos de tempo perdido lendo manuais ou assistindo aulas infindáveis.

As inteligências artificiais ficaram com a tarefa de pensar e analisar as situações corriqueiras e as pessoas passaram a ter mais tempo para usufruir de uma vida saudável e produtiva.

Ao chegar no seu local de trabalho a assistente virtual informou todas as tarefas que você deveria realizar naquele dia. Ela foi lhe dizendo o que fazer e você foi executando tudo de acordo com as instruções recebidas. O trabalho seguia agradável e logo você foi avisado que era hora do almoço. Realmente você estava com fome e imagina um bom hambúrguer artificial mas ao chegar no refeitório a refeição disponível era macarronada com massa feita de farinha de larvas e molho de tomate com carne artificial. Apesar do desapontamento inicial você logo se lembra que o cardápio é pensado para suprir as suas necessidades e isso fez com que você se conformasse. Até porque você não iria querer reclamar sobre isso e ser ingrato com tudo o que o governo tem oferecido a você com tanta dedicação. E nem correr o risco de ser incluído na lista de pessoas antissociais e ter que ir para um Centro de Aprendizagem Cívica.

Após a refeição, você tem uma hora de descanso e resolve aproveitar este tempo indo até o Centro de Entretenimento da empresa para ver o que estava disponível naquele dia.

Nas telas, a televisão oficial apresenta um documentário mostrando como foram terríveis os anos iniciais do século XXI, com as pessoas perdidas lutando para fazer escolhas bizarras como, por exemplo, querendo o direito de comer carne de animais. Só de pensar em comer carne de animais seu estômago revirou. Como as pessoas podiam se alimentar de forma tão abjeta? E ainda destruíam a natureza para criar rebanhos imensos, que eram mortos de forma sistemática e em escala industrial para saciar este apetite tenebroso.

Foram tempos terríveis, com uma minoria querendo viver uma vida destrutiva enquanto a maioria ansiava por uma vida equilibrada e que respeitasse o meio ambiente.

As pessoas perdiam o seu tempo enfiadas em salas de aula para aprender coisas que não utilizariam, lutavam diariamente em trabalhos cansativos e enfadonhos para ganhar salários que seriam gastos para satisfazer prazeres sem sentido como roupas diferentes, perfumes, calçados variados, etc. Todos sempre querendo adquirir, comprar, acumular bens, numa ânsia consumista sem sentido e que devastava o meio ambiente e as próprias pessoas, já que gerava um desequilíbrio na sociedade, fazendo com que alguns tivessem muito e muitos não conseguissem ter nem mesmo o básico.

Como foi difícil a transição para a sociedade atual. O documentário mostra o Estado querendo o bem-estar da sociedade e as pessoas lutando contra. Você não consegue entender como aquelas pessoas podiam ser contra o bem-estar geral da sociedade e se pergunta como podiam ser tão egoístas?

Como podiam querer um estilo de vida que degradava o meio ambiente no qual habitavam? Qual a necessidade de adquirir tantos bens, se hoje você tem o necessário para viver e é feliz?

Mais uma vez você se sente feliz por não ter mais que se preocupar com as mesmas coisas que seus ancestrais. Não precisou perder anos da sua vida estudando; não precisa gastar horas diárias buscando informações; não precisa pensar em coisas fúteis como “moda” e coisas ultrapassadas como “estilo pessoal”; não precisou se preocupar em escolher um emprego, pois o governo usou seus modernos computadores para escolher o melhor para você.

Como era possível que as pessoas perdessem tanto tempo diariamente em congestionamentos de veículos, que levavam horas para percorrer distâncias relativamente pequenas? Felizmente o trabalho remoto e as compras online com entregas por drones automatizados ajudaram a diminuir a necessidade das pessoas saírem de casa, o que reduziu drasticamente os veículos em circulação. E hoje ninguém se preocupa em despender recursos para adquirir o próprio veículo. Pra que? Muito desperdício!

O expediente termina e você pega um veículo compartilhado para voltar para casa. No caminho a assistente virtual te alerta sobre uma mensagem do Sistema Nacional de Relações Humanas, que o avisa que a inteligência artificial tinha encontrado uma pessoa com perfil perfeito para você e tinha marcado um encontro virtual para aquela noite. Animado, após uma higiene pessoal caprichada (a seco, claro!), você  se prepara para o encontro daquela noite.

A pessoa não é o que você imaginava mas os temas propostos pela assistente virtual para a conversa ajuda o papo a fluir bem durante o jantar e no final, mesmo contrariados, seguem a orientação da assistente virtual e tem uma relação sexual virtual. Apesar do orgasmo, você acha tudo um tanto anti-higiênico. Pelo menos você finalmente comeu o hambúrguer artificial que tanto queria.

O encontro termina e você volta para a sua rotina. Logo a assistente virtual o avisa que é hora de dormir. Na cama você pensa em tudo o que viu no documentário que assistiu, lembra de todas as lutas inúteis que as pessoas tinham e, aliviado,  pensa: que mundo maravilhoso é este em que eu vivo. E dorme feliz.

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Não, caro leitor, não se trata de uma cópia barata de George Orwell. É apenas uma reflexão acerca do que nos espera se continuarmos omissos em relação às pautas globalistas que vêm sendo implantadas em velocidade cada vez maior enquanto a sociedade é distraída por questões como meio ambiente e saúde, só para citar algumas.

Claro que a defesa do meio ambiente é importante e é claro que uma vida saudável é o desejo de todo ser humano, mas a defesa das pautas ambientais e a busca por uma vida com saúde devem ser feitas de forma racional, com as pessoas tendo respeitado o direito de escolher o que consideram o melhor para si e tendo a liberdade de fazer os questionamentos necessários às suas escolhas.

Se tudo continuar caminhando no ritmo atual, em breve pessoas como eu e como você que está lendo este artigo estarão sendo tratadas como as grandes vilãs da humanidade e do planeta, e poderemos até mesmo correr o risco de sermos considerados indesejáveis ao ponto de sermos também considerados descartáveis.

Ainda temos tempo para a reação, que deve ser enérgica e à altura do que vem sendo feito contra nós. Não há mais tempo a perder e não temos outra alternativa a não ser lutar com todas as armas disponíveis ou logo será tarde demais. E entraremos para a história como uma minoria raivosa, histérica e egoísta, que só pensava em si mesma enquanto a “maioria” ansiava por um mundo melhor, sustentável e igualitário. Os vencedores escreverão a História. Se formos nós, certamente escreveremos a Verdade. Se forem outros, será escrita a verdade deles. Que estará longe de ser Verdade.

 

 

Sander Souza (Conexão Japão), para Vida Destra, 05/08/2022.
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WELTON REIS DOS SANTOS
6 dias atrás

Eu chamo de histeria social como consequência do sensacionalismo imposto pela grande mídia para mobilizar incautos e produzir replicadores (influenciadores) com objetivo de vender produtos financeiros e objetos inúteis. Como ganhar muito dinheiro com inutilidades e conquistar “amigos”, já vi essa chamada. Excelente artigo!