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Charles, o Terrível

 

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Ele será o rei das elites globais.

 

Fonte: Spiked Online

Título original: Charles the Terrible

Link para o artigo original: aqui!

Publicado em 13 de setembro de 2022

 

Autor: Brendan O’Neill

 

Parece que Charles III não foi proclamado rei apenas do Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte. Aparentemente, ele se tornou rei também do mundo. ‘O mundo tem um rei do clima’, bradou um observador ‘verde’. Um repórter da Forbes saiu-se com uma melhor, implorando à Sua Majestade para ser um ‘monarca do clima’ e usar ‘o poder do palanque’ – e falou a sério – para ‘influenciar a política climática’ ao redor do mundo. O melhor de ter um rei do clima, diz esse comentarista que quer que Sua Majestade intimide a nós, plebeus eco-mimados, é que sua influência significa que ele poderá persuadir as mentes britânicas e não britânicas. Porque, quando um rei fala, ‘as pessoas tendem a ouvi-lo, mesmo fora da Grã-Bretanha’. Majestade, ide e civilizai os estrangeiros que prejudicam o clima!

É impressionante que uma ala da elite liberal esteja tagarelando sobre Elizabeth II ter sido uma ‘rainha colonizadora’ enquanto a outra está suplicando que Charles III seja efetivamente um rei colonizador, que use seu régio poder, dado por Deus, para, impositivamente, abrir os olhos ignorantes do ‘povinho’ em seu país e no exterior. Um editorial do Sydney Morning Herald, jornal publicado em uma das terras onde Charles agora é rei, humildemente roga que Sua Majestade ‘use sua posição para buscar o bem maior, quando o assunto é meio ambiente’. De maneira assustadora, esse jornal afirma que, embora o ‘domínio oficial’ do monarca britânico tenha diminuído nas últimas décadas – mais de uma dúzia de nações desistiram da rainha como Chefe de Estado, durante o seu reinado de 70 anos – isso não é relevante, porque o eco-ativismo ao estilo de Charles é o que ‘o mundo todo está à espera’ (a ênfase é minha). Em resumo, esqueça as restrições históricas que a humanidade impôs ao poder monárquico, sendo a mais importante a de que um monarca não tem poder fora de seu ‘domínio oficial’ – nosso glorioso novo eco-rei deve usar a ‘influência do seu trono’ para encorajar uma ação global em relação ao clima.

Essa súplica para o rei agir globalmente, para ir além de seu ‘domínio oficial’ com sua pregação sobre o meio ambiente, é extraordinária e alarmante. O que foi feito da soberania nacional? Mesmo a antiga ideia de que os monarcas da Grã-Bretanha eram governantes designados pelo próprio Deus estava submetida ao princípio de nação. Os direitos divinos dos reis nada significavam em face dos direitos nacionais dos estados que não queriam ser governados por tais reis. Por isso, a posição divina da Rainha Elizabeth, como soberana, desmoronou quando os cidadãos da Guiana, de Trinidad e Tobago, de Barbados e de outros [países] exerceram seu direito à soberania [nacional] e decidiram removê-la da chefia de estado. Thomas Paine fez a melhor interpretação no seu panfleto revolucionário, Common Sense, ao descrever como era perverso que um monarca britânico pudesse ter domínio sobre a América: ‘Até mesmo a distância que o Todo-Poderoso colocou entre a Inglaterra e a América é uma prova sólida e natural de que a autoridade de um sobre o outro nunca foi o desígnio do Céu’.

Entretanto, parece que a distância que o Todo-Poderoso definiu entre as nações não serve para nada quando se trata de ‘salvar o planeta’. Também não importa a independência nacional, o direito fundamental de um povo de não ser incomodado por um rei estrangeiro. Esqueça tudo isso, dizem os bajuladores ‘verdes’ – Charles III deve usar sua posição como ‘possivelmente o ambientalista mais importante da história’ para realizar mudanças globais. Obviamente, não está claro se Charles será tão irritantemente sincero como rei quanto o foi quando era um mero príncipe. Ele foi gravado dizendo ‘Não sou tão estúpido assim’ ao ser questionado se continuaríamos a nos ‘intrometer’ na política quando ele subisse ao trono. Porém, o fato de estar sendo demandado e a evidente possibilidade de que o faça, dada sua singular devoção ao deus do ambientalismo, deveria preocupar todos os que acreditam na democracia.

Toda essa conversa de ‘rei do clima’ é excepcionalmente reveladora. Ela confirma que uma das coisas mais tirânicas do alarmismo da mudança climática é a ameaça que isso representa para a soberania nacional. Onde mesmo reis, mesmo a própria ordenação de Deus, encontram os seus iguais nas fronteiras de nações independentes, o movimento das alterações climáticas não reconhece tais impedimentos à sua supremacia cultural. A ideia de que a mudança climática é uma ameaça globalizada, uma força de destruição sem precedentes, que permeia todas as fronteiras e envenena tudo, foi a principal patrocinadora do enfraquecimento do ideal de soberania nacional. Estados-nação não têm poder, disseram, para lidar com a ‘maior ameaça que a humanidade já enfrentou’, nas próprias palavras do novo rei. Portanto, o que precisamos é de elites globalizadas, instituições supra-fronteiras que possam elaborar planos verdes que subjugarão a todos nós. A ONU, a UE, Davos, todas as conferências da COP – todos, aparentemente, são organismos supra-nacionais e supra-democráticos para lidar com essa ameaça global mortal. Essas elites globalizadas há muito amam Charles precisamente por sua disposição para ser um monarca global. ‘Ele é um poderoso influenciador com alcance global’, bradou o Washington Post, no ano passado (a ênfase é minha).

Assim, o Todo-Poderoso pode ter posicionado a sua nação a milhares de milhas da Grã-Bretanha, a milhares de milhas do ‘domínio oficial’ de Charles III, mas ainda assim ele poderia exercer sua ‘poderosa influência’ sobre você. Não será Deus ou os direitos divinos dos reis que concederão a ele a autoridade para fazer isso – será a ideologia do ambientalismo. Este é, agora, o meio pelo qual as elites – aborrecidas com a democracia e ávidas para contornar as massas mal informadas – buscam implantar sua agenda misantrópica de menos crescimento, asseguradas pelo conhecimento de que o direito democrático dos estados-nação, qual seja, o de discordar, foi esmagado pela alegação histérica de que a mudança climática é uma ameaça tão grande que anula as nações. Não é de surpreender que Charles esteja tão confortável com as elites globalizadas. Ele se pavoneia entre os eco-guerreiros bilionários em Davos. Ele faz discursos pomposos na COP. Eles o saúdam como ‘rei do clima’, porque sabem o que isto significa: que ele será um rei das elites globais, que representará suas ideologias supra-fronteiras e supra-crescimento – e com muito mais lealdade [às elites] do que à cultura e à tradição (que ideia ultrapassada!) da nação que o proclamou rei.

Alguns críticos destacam a hipocrisia verde de Charles. É um nível de hipocrisia inacreditável. No ano passado, calculou-se que os principais membros da família real – a rainha (que descanse em paz!), Charles, William e Harry e todos os seus parceiros – geraram cerca de 3.180 toneladas de dióxido de carbono ao ano. Compare-se isso com as miseráveis 37,6 toneladas de CO2 geradas, anualmente, por uma família mediana de quatro pessoas. Portanto, nossa melhor realeza produz 50 vezes mais carbono do que nós, plebeus irritantes. Definitivamente, há algo de repugnante quando vemos Charles – para não falar de Harry e Meghan – voando em jatinhos para as reuniões de alterações climáticas, a fim de reclamar e lamentar a destruição do planeta. E o pior, Charles III agora está sendo aclamado, por alguns, como o rei que poderá ajudar a reverter os avanços industriais do país que ele governa. ‘Seu reino’ é uma nação que ‘ajudou a liderar o mundo na era da industrialização há mais de um século’, diz um repórter verde. Tal Revolução Industrial, que o novo rei e os seus eco-fãs tanto odeiam, ajudou a nos libertarmos da servidão aos proprietários de terras, e nos permitiu o acesso às cidades, ao conhecimento, à democracia, à liberdade. É fácil para o rei espreitar da janela do seu vasto palácio e dizer: ‘A Revolução Industrial arruinou o mundo’. O restante de nós olha para fora de nossas janelas muito mais modestas e pensa: ‘A Revolução Industrial salvou nossas vidas’.

Entretanto, há uma coisa muito pior do que a hipocrisia. Há o fato de que as ideologias do ambientalismo e a tecnocracia podem incentivar Charles III a ser um rei identitário, conquistador do mundo, que fará sermões para todo tipo de gente. Charles III faria bem em recordar as palavras de um grande britânico que lutou, de forma muito articulada, contra a ordem de Charles I: [falo de] John Milton. Em seu brilhante panfleto sobre a necessidade de restrições aos reis – The Tenure of Kings and Magistrates – Milton afirmou que a autoridade de um rei reside apenas naquilo que lhe foi ‘transferido e confiado pelo Povo, para o Bem Comum de todos, no qual o poder ainda permanece fundamentado e não pode ser dele retirado sem antes violar seu direito natural inato’. Se temos que ter um rei – e minha preferência republicana é a de que não precisamos – então, com certeza, ele deveria pensar no que o povo da Grã-Bretanha precisa e quer, em vez de permitir que a adulação das elites globais lhe suba à cabeça. Ouça Milton, Charles, e não Davos: o ‘bem comum’ do povo britânico é muito mais importante do que o ‘bem’ mesquinho e egoísta das elites globais.

 

*Brendan O’Neill é redator-chefe de política da Spiked e apresentador do podcast da Spiked, The Brendan O’Neill Show. Inscreva-se no podcast aqui. E siga Brendan no Instagram: @burntoakboy.

 

 

Traduzido por Telma Regina Matheus, para Vida Destra, 17/09/2022.                                  Faça uma cotação e contrate meus trabalhos através do e-mail  [email protected] ou Twitter @TRMatheus

 

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WELTON REIS DOS SANTOS
11 dias atrás

Sempre soube, porém sem muita certeza que o príncipe Philip era o financista da Greenpeace e agora os ambientalistas querem que o rei assuma. Lembro que Charles III é botânico e como tal deve abraçar a causa, mas sem muita exposição. Artigo interessante!