Durante o ano de 2020, um país que até então era um tanto quanto esquecido pela imprensa mundial voltou a ser alvo das manchetes: a China, que até então só aparecia nos noticiários quando o assunto era a aceleração ou desaceleração da sua economia, se tornou o grande assunto do ano. Na verdade, no mundo, desde 2016 ela já vinha roubando a cena, pois neste ano, nos debates presidenciais dos Estados Unidos, o então candidato Donald Trump já falava muito sobre os perigos deste país ditatorial e as ameaças às quais representava. No entanto, nunca foi de fato levado a sério pela imprensa norte-americana, que, acreditem se quiser, consegue ser pior que a brasileira, mesmo isto parecendo impossível. No artigo de hoje iremos conhecer um pouco mais sobre a China para além do coronavírus, e mostrar as ações do país que a imprensa não mostra: perseguições, ameaças, violações de direitos humanos, campos de concentração, censura pesada do Estado, e todo o tipo de violência contra quem ousar ficar no caminho do dragão chinês, que promete abalar o mundo nas próximas décadas.

Para todo bom começo, é fundamental que conheçamos um pouco da história desse país de forma bem resumida, apenas para entendermos um pouco do que se passa hoje: no começo do século XX, a monarquia chinesa cai e surge a república, comandada pelo presidente Sun Yat-sem, do partido nacionalista. Nesta época, a China e a ilha de Taiwan eram um único país, até que em 1949, depois de conflitos entre os nacionalistas e os comunistas, é estabelecida, por Mao Tsé Tung, do Partido Comunista Chinês, a República Popular da China, na parte continental, o que faz os nacionalistas fugirem para Taiwan e por lá ficarem. Ao assumir o governo da China, Mao pega um país de terceiro mundo e começa uma série de reformas para tentar alavancá-lo, dentre elas, há o Grande Salto para Frente, que prometia desenvolver a indústria chinesa com a produção de aço. Além disso, Mao também prometia investir na agricultura do país.

Mas seus meios, tanto para alavancar a indústria quanto para desenvolver a agricultura, deram errado: no caso da indústria, Mao ordenou a produção desenfreada de um aço de péssima qualidade. O resultado não poderia ter sido outro: devido ao excesso de oferta do produto e a baixa qualidade, ninguém no mundo quis comprar o aço chinês, o que deu ao país um prejuízo muito grande. Já o plano para a agricultura foi pior ainda: Mao lançou a campanha para a eliminação das 4 pragas: ratos, moscas, mosquitos e pardais. Estima-se que aproximadamente 1 bilhão de pardais foram mortos pelos chineses por ordens de Mao, que achava que eles comiam a produção. No entanto, com a morte dos pardais, os insetos, que outrora eram comidos por esses pássaros, se proliferaram em níveis absurdos e acabaram com a produção, dando mais prejuízo ainda ao país. Essas duas políticas em específico do Grande Salto deram origem à Grande Fome Chinesa, que ocorreu de 1958 a 1962, cujos números de mortos variam de 15 a 55 milhões, dependendo do historiador a ser consultado, além de ser considerado também um dos maiores desastres provocados pelo homem no mundo. Nesse período, chineses comiam barro, cascas de árvores e tudo o que encontravam, inclusive insetos e animais como ratos, para se manterem vivos (é desse período que vem a tradição de comer cachorros também, pois era o que tinha sobrado). Este foi o primeiro e grande genocídio de Mao Tsé Tung, cuja imagem ficou extremamente manchada.

Mao deixou a presidência do país em 1959, após 10 anos de governo, mas continuou presidindo o Comitê Central do Partido Comunista Chinês, o que deu poder para que ele implementasse outro plano diabólico: a Revolução Cultural. Após o fracasso do Grande Salto para Frente, a imagem de Mao estava extremamente manchada, logo, ele precisava fazer algo para recuperá-la. Então, como chefe do PCC, escreveu o Livro Vermelho e determinou sua obrigatoriedade nas escolas. Este livro continha uma grande carga de doutrinação de acordo com as ideias de Mao, e conseguiu convencer crianças e adolescentes a formarem milícias e repreender todos aqueles que ousassem a discordar do ditador comunista, incluindo pais, mães e professores dos alunos. Vinte milhões de pessoas foram vítimas da Revolução Cultural, que começou em 1966 e terminou somente em 1976, com a morte do ditador.

Após a morte de Mao, a China passa a ter um novo líder político, Deng Xiaoping, que inclusive foi um dos perseguidos na Revolução Cultural. Deng começa uma série de reformas na China, que faria qualquer pessoa de esquerda classifica-lo como neoliberal, pois ele abriu o mercado, permitiu a propriedade privada e diminuiu impostos, além de ter feito uma série de reformas nos setores de indústria, agricultura, ciência e tecnologia, o que elevou o país à potência econômica que é hoje. A famosa frase de Deng Xiaoping, “não importa se o gato é preto ou branco, desde que cace os ratos”, é uma alusão à China de hoje: um império econômico que embora use recursos do capitalismo para crescer, não abandonou o autoritarismo do socialismo, responsável pela violação de diversos direitos humanos ao redor do mundo, que é sobre o que iremos começar a falar agora.

A China é um dos poucos países no mundo que ainda mantém campos de concentração: na região de Xinjiang, no oeste do país, há um campo de concentração onde estão presos entre 800 mil e 2 milhões de uigures, uma minoria muçulmana que vive na China. E lá a tortura é pesada: segundo um relatório da Human Rights Watch, os métodos de tortura incluem amarrar o indivíduo no teto, espancamento, enforcamento, privação do sono, lavagem cerebral com adoração ao PCC e ao socialismo chinês, renúncia da fé e das origens dentre outras práticas desumanas, que não são utilizadas nem em abatedouros aqui no Ocidente. No entanto, apesar das denúncias, nenhum país do mundo se manifesta para impedir tais atrocidades devido ao fato de a China ser um grande parceiro comercial. Além disso, o único homem no ocidente que estava disposto a bater de frente com este império terrorista, isto é, Donald Trump, “perdeu” a eleição nos EUA para um candidato com uma relação um tanto quanto próxima com a China, a qual mostramos neste artigo.

No entanto, a região oeste da China não é a única que sofre com a repressão do PCC: Hong Kong, que fica no Leste, também foi alvo do autoritarismo chinês recentemente. Para entender o contexto, Hong Kong foi uma colônia britânica até 1997, quando foi devolvida à China com um acordo que prometia que a região teria uma certa autonomia com a ideia de “um país, dois sistemas”, isto é, contaria com a liberdade e democracia ocidental, mesmo estando no território chinês. Esse regime de “um país, dois sistemas” acabaria em 2047, quando Hong Kong seria incorporado à China definitivamente. Acontece que em 2014, o governo central da China quis avançar sobre Hong Kong e retirar parte de sua autonomia, o que levou o povo às ruas e a uma dura repressão por parte do governo chinês. Como em Hong Kong é proibido às pessoas terem armas, não podem resistir como deveriam. Então usam, desde 2014, guarda chuvas, o que deu nome ao protesto: Revolução dos Guarda-Chuvas.

Em 2019, o governo central da China quis aprovar uma lei que autorizava que cidadãos que fossem presos em Hong Kong fossem extraditados para a China continental, para cumprir pena lá. Isso elevou ainda mais as tensões no território semiautônomo e colocou o povo nas ruas com mais frequência. Claro que a violência policial do PCC também aumentou. Há, neste link, um vídeo que mostra manifestantes resistindo, com guarda-chuvas, à ação terrorista da Polícia do PCC. Já deixo avisado que as cenas são um tanto quanto pesadas. De qualquer forma, fica a lição fundamental sobre armamento civil, que é um meio de se defender das arbitrariedades do Estado.

Outro ponto sobre Hong Kong que vale à pena mencionar: os manifestantes criaram um aplicativo para organizar melhor os protestos. Esse aplicativo mostrava os pontos em que havia mais polícias e demais informações relevantes do tipo. No entanto, a Apple o baniu de sua loja de aplicativos, o que mostra um pouco da aliança entre Big Techs ocidentais e a ditadura chinesa. Além disso, depois de tantos esforços, em junho do ano passado a China aprovou uma lei de segurança nacional, que reprime ainda mais o que sobrou da liberdade em Hong Kong, proibindo atos de separatismo, subversão e “conluio com forças estrangeiras”.

Por outro lado, os cidadãos chineses que não estão nem em Hong Kong, nem em Xinjiang também sofrem com as perseguições do PCC: em 2017, a ditadura comandada por Xi Jinping anunciou a criação do sistema de créditos sociais, que é um sistema que monitora os cidadãos chineses 24h por dia, e dá a eles recompensas ou restrições de direitos em casos de condutas que o partido desaprova, criando uma espécie de ranking de cidadãos que seguem as ordens do PCC. O sistema conta com mais de 1 milhão de câmeras e inteligência artificial de ponta para reconhecer os cidadãos e classificá-los de acordo com suas condutas. Jogar muito videogame pode fazer qualquer cidadão chinês descer no ranking, atravessar fora da faixa de pedestres e atrasar uma conta pode fazer com que seu nome e foto sejam exibidos nos telões que existem nas grandes cidades, como Pequim e Xangai, e ter uma pontuação muito baixa de créditos sociais. Fazer coisas como criticar o governo pode custar o seu direito de viajar de trem ou avião. Este sistema chinês pode ser comparado com eventos, reais e fictícios, que chocaram a humanidade.

No caso da exibição do nome e fotos de cidadãos com créditos sociais baixos em telas de praças públicas, lembra muito a punição com a “máscara da infâmia”, que consistia numa máscara com orelhas de burro, que era usada para castigar mulheres que na idade média eram acusadas de serem “bruxas” pela inquisição, que apesar de ter sido cruel, é fichinha perto da ditadura chinesa. Já o sistema de créditos, no geral lembra tanto o episódio “Queda Livre” da série Black Mirror, quanto o livro 1984, de George Orwell. No caso da série Black Mirror, no episódio “Queda Livre” (primeiro episódio da terceira temporada; a série está na Netflix), as pessoas vivem em uma sociedade em que elas só podem realizar determinadas tarefas, como comprar casa em uma região X ou Y, ou frequentar determinados lugares, se tiverem uma quantidade suficiente de créditos sociais, que são dados pelas próprias pessoas umas às outras de acordo com o que elas postam nas redes sociais, e como agem no dia-a-dia. Não é preciso dizer que a sociedade inteira vive num estado de hipocrisia profunda, fingindo ser o que não é. Se tiver a oportunidade, veja o episódio na Netflix.

No entanto, o sistema chinês lembra algo muito mais assustador que a série de ficção Black Mirror: a distopia 1984, escrita por George Orwell em 1948, que conta uma história que se passa no ano de 1984, em que o mundo inteiro foi dominado por 3 ditaduras socialistas que monitoram seus cidadãos 24h por dia e buscam doutrina-los para obedecer ao partido de forma absoluta, sem questioná-lo. Aquele que ousar desobedecer alguma ordem do “Grande Irmão”, ditador supremo do partido socialista na Oceania, onde se passa a trama, sofre todo o tipo de punição possível: desde ser levado ao “Ministério do Amor”, que na verdade é um campo de concentração para “reeducação política” através da tortura, igual o campo de Xinjiang, que a China diz que é para esse tipo de reeducação, até desaparecer “misteriosamente”, tornando-se uma “despessoa”, com o partido apagando tudo quanto é lembrança e registro de que essa pessoa existiu, de modo a literalmente eliminá-la do senso comum e da lembrança da sociedade, semelhantemente como está acontecendo com o bilionário Jack Ma, fundador do Alibaba e do site AliExpress, que desapareceu após criticar o governo chinês em outubro.

Aliás, esse ponto da perseguição é relevante ser comentado também: a China vive dando chá de sumiço a quem ousa criticar o regime ditatorial do país, não importa se a pessoa é um milionário magnata, um médico ou um jornalista, a perseguição não tem preconceito por classe social ou profissão. Podemos citar alguns exemplos de antes, durante e depois do coronavírus: Ai Weiwei, arquiteto, foi preso em 2010 por usar as redes sociais para criticar o governo, época em que o autoritarismo era menor que o atual; Liu Xiaobo, prêmio Nobel da Paz de 2010, falecido em 2017, foi preso em 2008 por assinar a Carta 08, um documento que pedia reforma democrática na China; Gao Zhisheng, advogado, foi preso em 2009 por defender direitos de minorias religiosas na China, foi solto em 2010, ano em que voltou à prisão após revelar que na cadeia sofreu tortura “em grau de crueldade indescritível”; Jiang Tianyong, também advogado, cujo crime foi dar palestras nos EUA defendendo direitos humanos na China, país no qual desapareceu após ter sido colocado numa van por membros do PCC; Chen Guangcheng, um ativista pró direitos humanos que é cego, foi detido em 2005 por ser um dos primeiros a denunciar as perseguições ocorridas na cidade chinesa de Linyi, onde mulheres eram forçadas a fazer abortos para obedecer à “política do filho único”; Ran Yunfei, jornalista, foi preso em 2011 após a primavera árabe incentivar, na China, protestos pró democracia, dos quais ele era simpatizante; Teng Biao, professor de direito que escrevia para o Wall Street Journal denunciando as atrocidades do governo chinês, foi detido sem acusação formal pelo governo; Zhang Zhan, jornalista, foi presa em 2020 por divulgar a pandemia de coronavírus em Wuhan; Chen Qiushi, também jornalista, está desaparecido desde fevereiro de 2020, quando começou a divulgar a pandemia em Wuhan através de vídeos; Fang Bin, jornalista e empresário, foi preso também em fevereiro por divulgar o coronavírus no WeChat e no YouTube; Li Wenliang, médico que percebeu que havia um novo vírus no final de 2019, alertou as autoridades chinesas, foi ameaçado por elas por isso, pegou coronavírus e morreu; Peter Humphrey, investigador britânico que foi preso na China em 2013 e solto posteriormente. Humphrey foi torturado, drogado, acorrentado em uma cadeira e obrigado a ler uma declaração escrita pela polícia chinesa na frente de câmeras. Um detalhe um tanto quanto interessante: quem foi o âncora dessa sessão de tortura? Ninguém mais ninguém menos que James Chau, o embaixador da “boa vontade” da OMS, que disse em 2020, após todo o fiasco da China em lidar com a pandemia, que “deveríamos admirar o trabalho do Partido Comunista Chinês”.

Veja que a lista de presos políticos é interminável. Também, não poderia dar outra: a China mantém atualmente, até onde sabemos, por volta de 5,8 mil presos políticos e muitos desses não tem a sorte de conseguirem sair, pois são mortos e têm seus órgãos arrancados, coisa que a China disse que ia parar de fazer em 2014, mas que, ao que tudo indica, continua fazendo, segundo um Tribunal de Londres.

Como vimos, a China é um estado autoritário que não mede esforços para passar por cima de tudo e de todos para atingir seus objetivos, mas ainda assim goza de certo prestígio no ocidente, devido à leniência e vista grossa que jornalistas da grande mídia fazem às atrocidades do regime comunista chinês. Talvez eles façam isto porque também são de esquerda, tal como o PCC, e essa cooperação que as esquerdas têm ao redor do mundo é uma ameaça à existência de todos nós, até porque um dos responsáveis pela China ser este monstro que é hoje é o ex-presidente democrata Bill Clinton, que durante o seu governo cedeu ao lobby de algumas empresas americanas para incluir a China na Organização Mundial do Comércio (OMC), dando a ela mais poder econômico.

Grandes empresas, principalmente Big Techs, também têm sua parcela de culpa: muitas delas hoje cedem ao Sleeping Giants no Twitter para passarem a impressão de que “são contra as fake news e o discurso de ódio da extrema direita”, mas fazem lobby para manter o sistema democida chinês de trabalho escravo, a exemplo da Nike, da Coca Cola e da Apple, que recentemente, segundo o New York Times, fizeram lobby contra uma lei que uniu democratas e republicanos no Congresso americano para barrar a importação de produtos feitos com o trabalho escravo na região de Xinjiang, na China. Logo, toda vez que você ver a China avançando seu poderio criminoso sobre pessoas inocentes, lembre-se que boa parte disso é culpa dos magnatas do Vale do Silício e de um presidente democrata, de esquerda, que, ao invés de trabalhar, usava o Salão Oval como quarto de motel, isto é, Bill Clinton.

 

 

Vinicius Mariano, para Vida Destra, 18/01/2021.
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Luiz Antonio de Sabta Ritta
1 mês atrás

No excelente art. de @viniciussexto sobre um alerta vermelho para o mundo, lembro que os ianques financiaram a China. Em Hong Kong vemos manifestamente derrubando a torre dedo-duro. E toda empresa chinesa instalada no Brasil tem uma sala para o gabinete do PCChinês.

Welton Reis
1 mês atrás

Excelente! A fome do Dragão é imensa e não é de hoje.

Nunes
Admin
1 mês atrás

Excelente

Ma Brandão
Ma Brandão
1 mês atrás

Excelente artigo.
N foram os democratas q “venceram” as eleições. A China tem poder de repressão mas se endividaram muito ao longo do plano de ser número 1 do mundo. São os falidos q n saem da mansão pra n saberem q estão pobres. Ainda sim tem o povo na mão, imprensa e judiciário.
Se aliaram com Bill Clinton justamente pra destruir o país. Como diz no artigo “n importa se o gato é preto ou branco, desde q cacem os ratos”.

FABIO PAGGIARO
1 mês atrás

Excelente artigo, Vinicius. A China, se não for contida, implantará o “1984” no mundo. E não haverá, como naquele livro, três grande corporações no mundo. Haverá apenas uma, controlada por ela. A China busca, antes de mais nada, vingança contra o colonialismo ocidental no Século XIX. O momento é crítico e se o mundo continuar adormecido, acordará no inferno.