Publicamos mais uma tradução de artigo da imprensa internacional feita pela nossa colaboradora, a jornalista e tradutora profissional Telma Regina Matheus. Apreciem!

 

 

Em um Ocidente pós-cristão, espere o ressurgimento da violência, brutalidade e opressão

 

 

Fonte: The Federalist

Título Original:  In A Post-Christian West, Expect A Resurgence Of Violence, Brutality, And Oppression

Link para a matéria original: aqui!

Publicado em 3 de maio de 2022

 

Autor: John Daniel Davidson

 

A civilização ocidental não é capaz de sobreviver à anulação de sua origem no Cristianismo. Já estamos vendo uma amostra do que isso significará.

 

Em uma sequência perturbadora no início do [filme] “The Northman” [O Homem do Norte], novo épico de Robert Eggers sobre a brutal vingança viking, um bando de selvagens guerreiros nórdicos, em uma espécie de transe, ataca um vilarejo de Rus. A chacina que se segue é retratada em detalhes realistas. Em determinado ponto, o protagonista do filme, Amleth, interpretado por Alexander Skarsgård, rasga com os dentes a garganta de um inimigo.

Após o ataque, todos – com exceção de um punhado de aldeãos considerados suficientemente saudáveis para sobreviver como escravos no inverno – são reunidos e trancados em uma casa, inclusive as crianças. Dois guerreiros nórdicos arremessam tochas no telhado de colmo, enquanto os aldeãos, presos ali dentro, gritam e imploram por suas vidas.

Praticamente todo o filme é assim, e não há nada de divertido ao assisti-lo. Porém, em meio a toda a lama, fumaça, carnificina e cenas representando primorosamente a bruxaria pagã, podemos ter uma ideia angustiante da Europa setentrional pré-cristã. Independentemente do que Eggers esteja tentando mostrar em “The Northman”, ele não fez qualquer esforço para maquiar a violência impressionante e impiedosa da cultura viking.

De fato, é muito difícil assistir ao filme sem experimentar uma sensação de profundo alívio de que o paganismo nórdico tenha sido suplantado pelo Cristianismo. Os monges católicos que se aventuraram na Escandinávia, no século décimo, trouxeram uma religião nova e radical, que proclamava algo de revolucionário para a mentalidade pagã: um Deus amoroso, que fez o homem à sua imagem, outorgando um valor inerente a cada pessoa, inclusive para os fracos e incapazes – escravos, mulheres, crianças.

Esta provavelmente não era a intenção de Eggers, mas “The Northman” é um poderoso lembrete de que a civilização ocidental se ergueu diretamente do Cristianismo, e dele depende sua vitalidade. Tivesse a Igreja Católica fracassado em converter a Europa, o continente teria definhado no paganismo, tanto quanto definharam as culturas indígenas da América. Não teria existido um Santo Agostinho, nem um Santo Tomás de Aquino, ou Carta Magna, ou filosofia, ou teologia, nem mesmo os Pais Fundadores americanos.

Tudo isso para dizer: vivemos hoje dos juros do Cristianismo, extraindo [inspiração] do depósito da fé que libertou o Ocidente do paganismo. Nossa civilização – com sua insistência em direitos individuais, devido processo [legal], poderes vários e estado de direito – depende, acima de tudo, do entendimento especificamente cristão em relação ao homem, à sociedade e ao cosmos. Era a isso que John Adams se referia, por exemplo, quando disse: “Nossa Constituição foi feita somente para um povo moral e religioso. Ela é totalmente inadequada para o governo de qualquer outro povo”.

Constatar isto é também admitir o que já deveria ser óbvio: os juros estão acabando. Não somos mais “um povo moral e religioso”, e há o perigo real de que, sem o Cristianismo, a nossa civilização atrofiará e morrerá, juntamente com nosso sistema de governo.

Isso não significa dizer que retornaremos ao paganismo de eras pré-cristãs, aos ataques de guerreiros nórdicos a vilarejos desamparados, nem aos rituais demoníacos de videntes pagãs. Entretanto, as sociedades pós-cristianismo começarão a perder ideias e princípios que distinguiram a civilização ocidental do resto do mundo, e de tudo o que viera antes – coisas como a liberdade de expressão e consciência, os direitos inalienáveis, a igualdade entre os homens, o consentimento dos governados.

Na verdade, esse processo já está se desenrolando. Pense em apenas um exemplo, ocorrido em fevereiro, antes da invasão russa à Ucrânia, quando a atenção mundial estava voltada para o Canadá. Lá, com a desculpa de cuidar da saúde e da segurança, um governo supostamente liberal levou a cabo uma aterrorizante repressão sem precedentes a manifestantes pacíficos e suas famílias.

Nada poderia ilustrar melhor a corrupção e a decadência de uma sociedade, antes considerada tolerante e livre. O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, protótipo de um liberal esclarecido, nos mostrou o tipo de tolerância que podemos esperar de governos liberais pós-cristãos no ocidente.

Os pacíficos manifestantes foram presos, tiveram suas contas bancárias confiscadas, seus ativos congelados e seus recursos financeiros para a defesa judicial bloqueados. Foram informados que perderiam seus meios de subsistência, com caminhões apreendidos e licenças canceladas. Em determinado momento, os burocratas governamentais ameaçaram inclusive retirar-lhes a guarda dos filhos, caso não se submetessem. A mensagem do governo de Trudeau foi muito clara: calem-se, voltem para casa, cessem os protestos ou, além da prisão, vamos arruiná-los completamente.

Pensei naquelas famílias canadenses enquanto lia um ensaio de Francis Fukuyama, no Wall Street Journal, no último fim de semana, sobre como o mundo está “claramente evoluindo em direção à igualdade e liberdade”, e como, apesar de alguns retrocessos, o liberalismo vencerá no final. Ele afasta a massiva situação contrafatual da China comunista, que estabeleceu uma civilização moderna decididamente nada liberal. Ele tenta confortar seus leitores com chavões vazios sobre o “progresso para a justiça” da história.

Em seu longo ensaio, porém, em nenhum momento Fukuyama menciona, sequer uma vez, o papel do Cristianismo na criação e sustentação dos princípios liberais que, ele acredita, resistirão sozinhos. Ele não sabe ou se recusa a admitir que toda a nossa concepção de justiça e liberdade nasce da religião cristã, sem a qual esses valores se tornarão meras justificativas para governar pela força bruta.

Seu erro – um erro compartilhado por todas as nossas elites liberais – é atribuir o sucesso da civilização ocidental ao aprimoramento progressivo da natureza humana e aos avanços da tecnologia moderna. A natureza humana, contudo, não se aperfeiçoou. Ela é fixa e corrompida, e nunca vai mudar. De certa forma, somos todos guerreiros nórdicos e selvagens. Sempre fomos.

Com a paixão e ressureição de Jesus Cristo, o Cristianismo nos deu uma saída. O Cristianismo anunciou a possibilidade de redenção para nossas naturezas corrompidas, e de conversão a “um caminho de excelência”, o caminho do amor, que é Cristo e Seu reino. Qualquer que seja o progresso que tenhamos obtido desde então, ele é resultado desse caminho de excelência. Se o abandonarmos, como estamos fazendo, o que nos espera é uma civilização pós-cristã tão brutal e violenta quanto o mundo pré-cristão do [filme] “The Northman”.

 

*John Daniel Davidson é editor sênior do Federalist. Seus artigos foram publicados no Wall Street Journal, no Claremont.

 

 

Traduzido por Telma Regina Matheus, para Vida Destra, 09/05/2022.                                  Faça uma cotação e contrate meus trabalhos através do e-mail  mtelmaregina@gmail.com ou Twitter @TRMatheus

 

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