Prezados leitores:

Seguimos com o nosso compromisso de trazer até vocês, todos os sábados, artigos sobre temas relevantes, publicados pela imprensa internacional, e traduzidos pela nossa colaboradora, a jornalista e tradutora profissional Telma Regina Matheus. Apreciem!

 

Google: o que aconteceu com o ‘Don’t be evil’?*

 

 

As gigantes Big Techs estão se comportando como os novos senhores feudais.

 

Fonte: Spiked online

Título original: Google: whatever happened to ‘Don’t be evil’?

Link para a matéria original: aqui

Publicado em 20 de julho de 2022

 

Autor: Joel Kotkin

 

*N.T.: ’Don’t be evil’, o lema do Google que norteava a empresa em seus primórdios, significa, em tradução livre, ‘Não seja maldoso’.

 

Quando veio a público em 2004, o Google personificava a genialidade tecnológica e empreendedora. Dois engenheiros haviam desenvolvido um mecanismo de busca extraordinariamente poderoso e fácil de usar, abrindo as portas para uma imensidão de conhecimento.

Os fundadores proclamaram seu lema como ‘Don’t be evil’, típico do tecno-otimismo do Vale do Silício que vigorava há décadas. Stewart Brand, escrevendo [na revista] Rolling Stone de 1972, alegou que, assim que o acesso à informação se tornasse universal, isso nos transformaria a todos em ‘parasitas de computador, altamente capacitados enquanto indivíduos e cooperadores’. Seria uma nova era, prosseguiu Brand, de ‘criação espontânea aprimorada e interação humana’. Os ‘primeiros idealistas digitais’, observou o cientista da computação e escritor Jaron Lanier, em 2014, anteviram uma rede ‘compartilhada’ que funcionaria ‘livre das restrições da ordem comercial’.

Esse cenário idílico não existe mais. Google e outras Big Techs deixaram de ser criadores populares. Agora, são oligarcas e monopolistas que exercem influência excessiva no mercado e na política.

O lema ‘Don’t be evil’ foi removido, em 2018, do código de conduta corporativa do Google. Nas palavras de Ross LaJeunesse, ex-diretor de relações internacionais do Google, essa remoção refletiu a transformação do Google em uma empresa dominada pela necessidade de ‘buscar lucros maiores e um valor de mercado ainda mais alto’.

O Google se metamorfoseou em um quase monopólio que, atualmente, controla mais de 90% do mercado de mecanismos de busca dos Estados Unidos, Europa e Reino Unido. O Gmail, por sua vez, tem 1,5 bilhão de usuários mensais ou cerca de 75% do mercado de e-mail baseado na Web. Assim como muitas de suas contrapartes oligárquicas, o Google agora controla uma gigantesca base de receita. Como descreve o escritor e acadêmico Michael Lind, o Google hoje funciona como uma ‘cabine de pedágio’, agindo como um senhor feudal digital que cobra taxas dos viajantes cibernéticos. Blindada da concorrência, a empresa se beneficia enormemente não da inovação, mas da descoberta de novas maneiras de alavancar sua posição mercadológica dominante.

O mecanismo de busca do Google – que, um dia, se notabilizou pela imparcialidade e software livre – foi altamente politizado. E usa seu poder mercadológico para reprimir concorrentes – como mostraram investigações realizadas na Europa, no Reino Unido e nos Estados Unidos. De fato, a União Europeia, em 2021, multou o Google em bilhões de dólares por dar tratamento preferencial, em seu mecanismo de busca, ao seu próprio serviço de compras. Um dos poucos concorrentes do Google, o muito menor DuckDuckGo, acusou-o, no início deste ano, de manipular as extensões de navegadores para direcionar clientes de produtos rivais. Este mês, o órgão regulador governamental do Reino Unido, a Competition and Markets Autorithy [Autoridade para Competitividade e Mercados], iniciou sua própria investigação sobre a Apple e o Google.

Feudalismo no Vale do Silício

Os novos soberanos do espaço cibernético podem não usar cotas de malha ou cartolas, mas eles governam com a mesma ferocidade de seus antepassados medievais ou dos gananciosos capitalistas da Era de Ouro. Ex-funcionário da Apple e redator da revista Wired, Antonio García Martínez descreveu as operações dos oligarcas da tecnologia como um ‘feudalismo com marketing melhorado’.

À época em que comecei minhas reportagens sobre o Vale do Silício, em meados dos anos 1970, muitas start-ups eram dirigidas por pessoas que tinham ideias revolucionárias sobre como melhorar a sociedade. Nos protestos Occupy Wall Street*, em 2011, manifestantes anticapitalistas fizeram inclusive um minuto de silêncio, quando souberam da morte de Steve Jobs. Eles o aclamavam como libertador e rebelde.

*N.T.: Em tradução livre, Occupy Wall Street era um chamado do tipo ‘Ocupe Wall Street’.

Na verdade, no passado, as companhias fundadoras, como Hewlett-Packard e Intel, criaram uma boa vida não só para seus funcionários, mas também para um grande número de empresas e terceirizados de menor porte. Os pesquisadores Manuel Pastor e Chris Brenner afirmam que os anos 1980 foram ‘bons tempos de crescimento e equidade no Vale do Silício’.

Mas essa visão do Vale do Silício, como uma cultura aberta e equitativa, não mais corresponde à realidade. Em 2017, a Bloomberg descreveu a próspera e tecnológica Bay Area como ‘uma região de inovação segregacionista’. Algo como 76.000 milionários podem chamar de lar os condados de Santa Clara e San Mateo, mas aproximadamente 30% dos residentes do Vale do Silício dependem de assistência pública ou privada para satisfazer suas necessidades básicas. Minorias predominam nos cargos de baixa remuneração. Há uma segregação cada vez maior das famílias pertencentes a minorias e baixa renda. Alguns trabalhadores são obrigados a viver em estacionamentos de trailers ou até mesmo a dormir em seus carros. O vale é também o lugar dos maiores acampamentos de sem-teto da América.

Mike Malone, que noticiou o que ocorria no Vale do Silício ao longo do último quarto de século, argumenta que o local perdeu muito do seu ethos igualitário. Ele sugere que os novos senhores da tecnologia deixaram de ser ‘jovens de origem humilde e se tornaram crianças privilegiadas’. Eles também abandonaram o ethos da produção, que fazia o vale tão inspirador e igualitário. Se há um concorrente em potencial, diz Malone, os senhores da tecnologia simplesmente o compram.

A política da Big Tech

Historicamente, o Vale do Silício tendia a não ter vinculação política, dividindo-se principalmente entre Democratas favoráveis ao empreendedorismo e Republicanos moderados. Nos anos 2010, porém, os nerds – especialmente no Google – desenvolveram o que o Intercept descreveu como um relacionamento ‘extraordinariamente próximo’ com a ‘administração andróide’ de Barak Obama. Então, o CEO do Google, Eric Schmidt, emergiu como um participante verdadeiramente poderoso da administração Obama. E quando Obama deixou o cargo, inúmeros funcionários de alto nível do presidente encontraram posições confortáveis no Google e em outras empresas de tecnologia.

Desde a era Obama, Schmidt, hoje aposentado como CEO, e o Google continuaram a desempenhar papéis importantes no Partido Democrata. Schmidt supostamente ajudou a financiar o Gabinete de Políticas para Ciência e Tecnologia do presidente Biden. Google e Schmidt estão longe de ser os únicos a se envolverem com os Democratas. Na eleição de 2020, 98% das contribuições de empresas da Internet para campanhas foram destinados a Biden, sendo que Mark Zuckerberg doou, pessoalmente, US$ 350 milhões para o Centro de Tecnologia e Cidadania, que apoiava Biden.

A remoção do tóxico Trump e a adoção de perspectivas politicamente corretas em tudo – do movimento Vidas Negras Importam até identidade de gênero e mudança climática – aparentemente levaram, para as grandes empresas de tecnologia, alguns credos esquerdistas das ruas. Um escritor progressista, David Callahan, foi acionado para descrever as Big Techs como uma espécie de ‘plutocracia benigna’, em contraste aos primeiros capitalistas que construíram suas fortunas por meio da extração de recursos [naturais], industrialização e consumo de materiais.

Com Biden na Casa Branca, o futuro político do Google parece seguro. A empresa mantém vínculos estreitos com os progressistas da Califórnia, como o atual governador desse estado, Gavin Newsom, e a vice-presidente americana e ex-senadora pela Califórnia, Kamala Harris. Harris foi uma das mais ferrenhas opositoras da regulação de empresas como o Google. A ascensão dela ou de Newsom à presidência proporcionaria um banquete adorável à oligarquia tecnológica.

Entretanto, o ceticismo do público em relação aos oligarcas tem aumentado consideravelmente nos últimos anos. Em uma pesquisa do Gallup, realizada em 2021, a proporção de americanos que avaliaram negativamente as Big Techs subiu de 33% para 45%, ao longo dos 18 meses anteriores. O apoio a uma regulação maior das Big Techs também aumentou nesse período, de 48% para 57%.

Cada vez mais, o público vê não empreendedores intrépidos, mas versões modernas dos magnatas da Era de Ouro, jogando exitosamente com o sistema político para impedir regulamentações, ações antitruste e tributações. Durante a pandemia, as Big Techs puderam acumular lucros enormes, em um momento em que as empresas físicas eram obrigadas a fechar.

Além disso, iates extravagantes, inúmeros imóveis e aviões privados – de propriedade de personagens como Jeff Bezos, Eric Schmidt, Sergei Brin e Larry Page (fundadores do Google) – dificilmente ratificam a autoimagem de desbravadores que tentam passar ou a sua suposta paixão pela agenda climática.

Incapazes de contar com a genuína admiração do público, as empresas de tecnologia – entre todos os setores, as maiores doadoras de dinheiro para políticos – também intensificaram seus esforços lobistas na direita. Tais esforços, agora, ofuscam aqueles dos grandes apoiadores tradicionais, como os setores de petróleo, tabaco ou manufatura.

As Big Techs certamente conquistaram alguns grupos conservadores que, hoje, defendem o Google e sua trupe como os legítimos vencedores da feroz competição mercadológica e rejeitam qualquer esforço para refrear seu poder. Contudo, o apoio generalizado ao Google e seus colegas, os soberanos digitais, se dissipou entre os conservadores. A constante e óbvia hostilidade das empresas de tecnologia aos conservadores – alega-se, inclusive, que o Gmail sinalizou como spam as campanhas republicanas de arrecadação de recursos financeiros – fez, sem nenhuma surpresa, muitos inimigos no Partido Republicano que, um dia, venerou a elite capitalista.

Um desafio potencialmente maior pode vir de senadores Democratas – como Amy Klobuchar, de Minnesota, e Richard Blumenthal, de Connecticut – que estão se unindo aos populistas do Partido Republicano para tentar frear o segmento publicitário do Google. De modo similar, a esquerda democrata ultra barulhenta, cuja relevância é cada vez maior, protestou contra os agressivos esforços antissindicais da Apple e da Amazon. O Google provavelmente entrará no radar também. Em 2018, o Google começou, secretamente, o ‘Projeto Vivian’ – que, de acordo com documentos judiciais, é descrito como um esforço para ‘convencer [os funcionários] que os sindicatos atrapalham’. E, em 2019, a plataforma contratou a IRI Consultants, famosa firma antissindical, para combater os esforços de sindicalização entre os funcionários.

Muitos progressistas também estão olhando para além da infindável sinalização de virtude das empresas de tecnologia, no que se refere, por exemplo, à igualdade de gênero. De fato, a empresa-mãe do Google, a Alphabet, recentemente foi intimada a pagar US$ 118 milhões para 15.500 funcionárias, em mais de 200 cargos, após um acordo judicial por discriminação de gênero. Segundo uma análise salarial no Google, registrada pelas requerentes, a remuneração das mulheres no Google diminuía aproximadamente US$ 16.790 a cada ano, em comparação com os homens desempenhando funções similares.

O Google também tem o mesmo duplo padrão quando se trata de raça. A plataforma realiza seminários contra a ‘supremacia branca’, os quais alegam que os ‘americanos são educados para ser racistas’. Ao mesmo tempo, é processada por funcionários negros – que respondem por aproximadamente 4% de sua força de trabalho – pelo que eles chamam de ‘viés sistêmico’ do Google.

Controle dos meios de comunicação

A maior arma dos oligarcas da tecnologia contra os dissidentes está em sua habilidade de controlar o fluxo de informações. As empresas de tecnologia, atualmente, buscam monitorar o pensamento tanto quanto a Igreja Católica o fazia na Idade Média. Eles se engajaram no amplo cancelamento na plataforma das muitas vozes conservadoras. E o Google, por meio de seus algoritmos, agora remove ou rebaixa publicações ou indivíduos, segundo sua conveniência. Como divulgado no US News, em 2016, o Google se tornou ‘o maior censor do mundo’. Para tornar tudo pior, o Google Chrome é amplamente citado por rastrear seus próprios usuários com uma tecnologia de ‘vigilância onipresente’.

O controle das Big Techs sobre o conteúdo e o discurso online é tão grande que é impossível ignorar. Como o Guardian observou: “Se a ExxonMobil tentasse se inserir desse jeito em cada elemento de nossas vidas, haveria um movimento orquestrado nas ruas para frear sua influência’.

O Google parece determinado a expandir seu domínio sobre a informação. Este ano, revelou um plano para utilizar seus algoritmos para incentivar os usuários a usarem a linguagem ‘inclusiva’ de maneira mais apropriada. A crescente confluência do Google e das outras plataformas dominantes com o estado executivo é ainda mais preocupante. Isso se tornou especialmente claro durante a pandemia, quando as plataformas online se engajaram na censura das vozes, não importando quão bem credenciadas fossem, que ousaram questionar a política oficial para Covid. As empresas de tecnologia aderiram, este ano, às tentativas de criar uma ‘diretoria de desinformação’ que trabalharia para limitar os dissidentes da ortodoxia apoiada pelo governo federal.

Isto, porém, é só o começo. No ano passado, o Google anunciou ‘medidas enérgicas’ contra os céticos da mudança climática – incluindo cientistas renomados. A política foi rapidamente acolhida pela diretora da Agência de Proteção Ambiental, Gina McCarthy.

Hoje, o Google personifica uma versão transnacional do zaibatsu do Japão pré-guerra ou dos cartéis da Alemanha – ou seja, enormes conglomerados controlando a maior parte da economia e influenciando profundamente as questões políticas.

O mundo, e a América em particular, se beneficiou enormemente da notável criatividade do Vale do Silício. Todavia, a forma oligárquica dessas empresas, agora, representa uma barreira ao progresso tecnológico, asfixiando a inovação e a competição. Empresas de tecnologia deveriam estar capacitadas e ser incentivadas a desempenhar um papel essencial em áreas que pudessem ajudar no universo analógico. Elas poderiam ajudar a desenvolver equipamentos médicos, melhorar o transporte e a produção fabril, e tratar de temas acerca do clima, dos custos de energia e, no longo prazo, das viagens espaciais.

Mas, neste momento, não é isso que está acontecendo. O Google, em particular, se torna cada vez mais uma força direcionada não para o bem, mas para o mal.

 

Joel Kotkin é colunista na spiked, colaborador presidencial na área de futuros urbanos, na Chapman University, e diretor executivo do Urban Reform Institute. Seu último livro, The Coming of Neo-Feudalism [O surgimento do neo-feudalismo] já está em circulação.

 

 

Traduzido por Telma Regina Matheus, para Vida Destra, 23/07/2022.                                  Faça uma cotação e contrate meus trabalhos através do e-mail  [email protected] ou Twitter @TRMatheus

 

Receba de forma ágil todo o nosso conteúdo através do nosso canal no Telegram!

 

As informações e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade de seu(s) respectivo(s) autor(es), e não expressam necessariamente a opinião do Vida Destra. Para entrar em contato, envie um e-mail ao [email protected]
Acompanhe me
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments