Quando nos deparamos com os problemas sociais modernos, tendemos a acreditar que eles são fenômenos recentes, que surgiram há um ou dois anos e que precisam de uma solução imediata, antes que se proliferem e causem mais danos do já causaram nesses supostos um ou dois anos. Esse fenômeno tem se alastrado com o aumento do fluxo da informação na sociedade moderna, uma vez que a internet e os dispositivos móveis deram voz a uma miríade de pessoas que antes participavam do processo de comunicação apenas como sujeitos passivos, isto é, apenas absorvendo o conteúdo que os grandes canais repassavam. Como dizem hoje em dia: “a internet transformou todo mundo em jornalista”.

Entretanto, muitos dos problemas sociais modernos não são novos, pelo contrário, têm uma longa estadia em nossa sociedade e, na maioria esmagadora das vezes, são importados de outros países, o que mostra que os sujeitos que juram ter o tal “raciocínio crítico” não o têm como dizem. Um desses problemas é o relativismo, que filosoficamente – e resumidamente – falando, é um ponto de vista que nega haver verdades universais, ainda que sejam evidentes, como o princípio da não contradição, a lógica, as leis econômicas, as imposições da biologia etc.

Como todos os problemas sociais são antigos, o relativismo não é diferente, contudo, é impossível falar dele sem falar de um de seus grandes expoentes: a antropóloga Margaret Mead. Pouco conhecida no Brasil, Mead foi uma intelectual americana que nos anos 1920 foi à ilha da Samoa fazer uma pesquisa para responder à seguinte questão: “a adolescência é um período conturbado por questões biológicas e inerentes ao sexo, ou devido a uma construção social?”. Nossa antropóloga era simpática à pauta da Revolução Sexual – o uso do sexo como meio de controle político –, logo, dá para imaginar qual foi a conclusão dela no final do estudo, mas apesar deste resultado, vamos conhecer neste artigo um pouco sobre esse trabalho feito por Mead, suas refutações e como ele foi um dos expoentes do relativismo.

Era 31 de agosto de 1925, há quase exatos 97 anos, a jovem Margaret Mead chegou a Pago Pago, na Samoa, uma ilha que fica no meio da Oceania, e que parecia perfeita para realizar a sua pesquisa sobre o amadurecimento durante a adolescência, já que a Ilha, justamente por estar no meio do nada, ainda contava, naquela época, com uma cultura indígena bem primitiva se comparada com o resto do mundo – principalmente do primeiro mundo. Uma vez na Samoa, Mead não perdeu tempo: disse ter entrevistado diversos adolescentes meninos e meninas para fazer o seu estudo, que gerou o livro Adolescência, Sexo e Cultura em Samoa, em 1928. Na obra, Margaret trouxe “revelações” surpreendentes sobre o amadurecimento na Samoa. Argumenta ela que esse período é de fácil transição naquela pequena porção de terra do planeta porque o sexo era livre: não havia esse negócio de fidelidade entre homem e mulher, era comum que ambos tivessem vários amantes; a castidade não era levada a sério; o divórcio era algo extremamente comum; as crianças eram criadas pela comunidade, e não pelas mães, menosprezando a ideia de família ocidental; a homossexualidade masculina e feminina era praticada normalmente etc. Em suma, Mead disse ter encontrado um paraíso sexual na ilha da Samoa e tratou de registrar como ele era em seu livro, que foi um best seller nos anos seguintes, alçando a antropóloga mestranda de Stanford a uma carreira intelectual promissora no mainstream da mídia americana, que já tinha influências liberais progressistas – não confundir com o progressismo brasileiro, que é socialismo em última instância.

Adolescência, Sexo e Cultura em Samoa teve tamanha influência que atraia a atenção dos críticos para além das décadas, tanto que, na década de 60, um desses críticos, John Derek Freeman, resolveu ir à Samoa para produzir seu próprio estudo também, com base naquilo que Mead havia dito. Desta forma, ele se preparou, aprendeu samoano a tal ponto que até uma certificação do idioma chegou a receber do governo da Ilha e foi fazer o seu estudo, mas ao começar, ele tomou um susto, pois descobre algumas incongruências no paraíso sexual descrito por Margaret Mead: a virgindade e a castidade das mulheres era ultra valorizada, muito mais do que nos Estados Unidos, pois os samoanos entendiam que esse era um dom que só se perdia uma vez; antes do casamento, as mulheres tinham que se submeter a um teste público de virgindade, porque segundo a cultura da Samoa, se uma mulher não se casa virgem, ela e o rapaz com que teve relação antes do matrimônio estão humilhando o marido; o adultério, que segundo Mead era normal, era punido com morte, com fratura do crânio ou com amputação da orelha na Samoa antes do cristianismo, após, passou a ser punido apenas com prisão e multa; a castidade valia inclusive para os homens: Freeman examinou arquivos policiais da ilha e descobriu casos de homens condenados por crimes sexuais, como um rapaz de 28 anos que tentou seduzir uma virgem, o que fez com que sua família e a da virgem, que fora a vítima, fossem multadas.

Como se pode ver, o estudo de Derek Freeman concluiu o extremo oposto do de Mead, o que nos leva a fazer duas perguntas: (1) se os dois estudos sobre um mesmo assunto estão dizendo coisas opostas, qual deles está certo e (2) por que o autor do estudo errado mentiu?

A resposta à primeira pergunta é que o estudo de Margaret Mead estava errado, o que pode ser demonstrado segundo a própria antropóloga, que em seu livro de memórias – Inverno das Amoreiras – admite que nunca aprendeu uma língua estrangeira, assim, se nunca aprendeu outro idioma, como pôde entrevistar os samoanos adolescentes que disse ter entrevistado em seu livro? Este ponto é confirmado por sua biógrafa, Jane Howard, que afirmou no livro que retrata a vida de Mead que “suas habilidades linguísticas nunca foram seu ponto forte”. Outra prova de que ela estava errada é que a própria assume, em suas Memórias, ter omitido o nome verdadeiro de cada entrevistada para preservar a sua privacidade, o que além de impedir uma auditoria também demonstra uma contradição, afinal, se o sexo era livre e desinibido, por que alguém naquela ilha se importaria em falar abertamente sobre? São pontos que não se encaixam.

Ademais, pode se demonstrar que Derek Freeman estava certo porque ele baseou seus estudos em arquivos policiais locais, que são públicos, e obteve certificação na língua samoana para produzir o livro Margaret Mead e a Samoa, no qual desmonta as narrativas feitas por sua colega. Todavia, o livro de Freeman, que era para ser um best seller aclamado e aplaudido por seus colegas antropólogos por ter desmontado um esquema de mentiras, foi criticado por dizer a verdade. Segue um exemplo de crítica, que foi feita pelo professor Collin Turnbull:

“Freeman merece ser criticado por prejudicar a antropologia e a antropologia humanística que Mead preferia à rivalidade acadêmica mesquinha. A Samoa que ela encontrou nos anos 20 era uma ilha na qual as pessoas aprendiam a amadurecer sem o stress que aflige os adolescentes do mundo ocidental, que é ainda mais intenso hoje em dia”.

No entanto, veja que essa crítica de Turnbull, feita na década de 80, é infundada: ele afirma que os adolescentes ocidentais e, portanto, os americanos, estão mais estressados na década de 80 do que na década de 20. Porém, os adolescentes da década de 80 têm muito mais liberdade sexual – coisa que Margaret Mead havia dito ser fundamental para o desenvolvimento adolescente sem stress – que os da década de 20, logo, a liberdade sexual causou o efeito oposto do prometido. O que o professor Collin Turnbull tenta fazer é transformar uma mentira em relativismo cultural, que, na visão de seus defensores, é um ponto de vista que diz que nenhuma cultura seja detentora da forma certa ou natural de fazer as coisas. Mas veja que isso não se sustenta: há culturas em que o sacrifício humano é considerado uma forma moral de sacrifício, algo que não pode ser tido como certo nem sob a ótica da teoria da evolução, que prega que o homem se adapta ao ambiente e para tal logicamente precisa estar vivo, e nem sob a ótica do judaísmo ou do cristianismo, que consideram o assassinato como pecado.

O fato é que o relativismo está errado de um jeito ou de outro: consideremos que, de fato, nenhuma cultura esteja certa ao negar ou proibir algo, como dizem os relativistas. Se isso é verdade, então por que Margaret Mead recomendou, conforme escritos de John Leo na revista Time, aos pais americanos que dessem mais liberdade sexual para seus filhos, para eles se estressarem menos, como na Samoa imaginária? Aliás, vamos supor ainda que realmente, mais liberdade sexual significasse menos stress para os adolescentes: por que Mead proporia isso aos americanos, já que nenhuma cultura está certa ou errada? O relativismo é a materialização da paralaxe cognitiva, isto é, o deslocamento entre o eixo da construção teórica e o eixo da experiência real do indivíduo que está fazendo esta construção.

Mas a segunda pergunta ainda não foi respondida: por que Mead mentiu? Para responder a esta questão, temos que conhecer um pouco de sua vida sexual: ela era casada com Luther Cressman em 1926, ao mesmo tempo que tinha um caso com o linguista Edward Sapir e com a antropóloga Ruth Benedict, 14 anos mais velha que ela, relação que durou até a morte de Ruth, em 1948. Na volta da Samoa, em 1928, ela conheceu o antropólogo neozelandês Reo Fortune e começou a ter um caso com ele. Para a infelicidade do Luther Cressman, o marido de Mead que a esperava, ela e Fortune foram os últimos a desembarcar do navio. Cressman, inclusive, pode ser considerado um dos primeiros homens feministas da história, já que aceitava os amantes da esposa e toda a sua promiscuidade, que não parou por aí: Mead se separou de Cressman e casou com o amante, Reo Fortune, que não demora muito para ser trocado por Gregory Bateson, coisa que deixou Fortune em profunda depressão, isso tudo enquanto ela ainda tinha um caso com Ruth.

Santo Agostinho diz, em Confissões: “Tua lei está escrita no coração dos homens, e não pode ser apagada pela iniquidade”. Ou seja, segundo Agostinho, os homens têm uma noção primitiva do que é certo e do que é errado e ainda que não tivessem, hoje saberiam, dada a difusão da informação. É sabido que adultério é errado, no entanto, diferente de Santo Agostinho, nem todos estão dispostos a confessar seus pecados, que uma vez praticados, dá ao indivíduo duas opções: adequar o pecado à verdade, ou a verdade ao pecado. No primeiro caso, gera-se o arrependimento e uma autoemancipação do indivíduo, já que o arrependimento nada mais é do que uma parte superior da sua personalidade reconhecendo que aquelas ações estavam erradas e, por isso, você não quer mais praticá-las. No segundo caso, o que se tem como resultado é a ideologia e o relativismo.

Desta forma, Margaret Mead mentiu porque tentou adequar seu pecado à verdade moral, pois sua mentira não passou de uma tentativa de tentar transformar a culpa gerada pelos seus adultérios em algo mais suave, para não ter que lidar com o erro, que neste caso é reconhecido novamente por duas forças: religião e ciência. Sob a ótica religiosa, o adultério é errado porque as escrituras o dizem; sob a ótica científica, é errado porque, ao se relacionar com diversas pessoas, maiores são as chances de se desenvolver doenças sexualmente transmissíveis, problema que tem se alastrado pelo mundo justamente devido a tentativa de humanos racionalizarem suas perversões sexuais.

 

 

El Mago, para Vida Destra, 29/08/2022

 

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WELTON REIS DOS SANTOS
1 mês atrás

Assim como socialistas relativizam a ideologia para esquecer as atrocidades praticadas pelos correligionários dessa maldita forma de governar, como também fazem jornalistas ativistas com eufemismos para defender os corruptos afetos do seu imaginário político. Parabéns pelo excelente artigo!