No mundo moderno, tendemos a não questionar certos dogmas por acharmos que são coisas boas por si mesmas, ou porque uma invenção trouxe consigo um suposto avanço civilizacional. Contudo, às vezes, o buraco é um pouco mais embaixo. Trabalho, família, política, notícias, Copa do Mundo são alguns temas que são prioridades em nossas vidas – o que não está errado – e acabam sugando todo o nosso tempo, de modo que não conseguimos obter o entendimento sobre tudo o que nos norteia. É por isso que hoje o nosso artigo vai contar a história de Margaret Sanger, uma feminista eugenista americana, responsável pela criação de uma das maiores máquinas de morte ao redor do mundo – a Planned Parenthood –, com o objetivo de controlar a população negra sob a desculpa do “planejamento familiar”, um eufemismo para controle populacional.

Para contar a história do controle de natalidade, vamos voltar um pouco no tempo, por volta de 1797, quando surgiu o debate entre o pastor Thomas Malthus e o revolucionário sexual William Godwin. Este, junto com o debate de Mary Wollstonecraft e Edmund Burke, foi um dos debates responsáveis por criar a noção de direita e esquerda como entendemos hoje, com Malthus representando a direita e Godwin representando a esquerda. A posição da esquerda e de Godwin é a de que o ser humano era perfeitamente maleável em todos os aspectos; a posição da direita e de Malthus era de que o homem só havia chegado a este nível de civilização devido às leis imutáveis de sua natureza. William Godwin defendia o sexo libertino e Malthus, seu adversário intelectual, dizia que o sexo libertino era prejudicial, pois faria com que uma grande fome viesse, uma vez que a população supostamente cresceria em progressão geométrica, ao passo que os alimentos eram produzidos em progressão aritmética.

A previsão de Malthus – chamada de “armadilha malthusiana” – não sobreviveu ao crivo da história e foi refutada, tanto que, hoje, apesar de ainda haver fome em alguns países do mundo, é fato que, em outros países, há comida em abundância, de modo que o desperdício é evidente. Como diz o professor Yuval Harari: “hoje, diferente de outras épocas, há pessoas morrendo por excesso de comida ao invés da falta”.

Entretanto, a teoria malthusiana adquiriu novas proporções a ponto de fazer, em 1911, oposição aos marxistas, que criticavam a contracepção e encorajavam os proletários a ter muitos filhos. Foi neste ano que John Reed, Carlo Tresca e Emma Goldmann, simpáticos ao “neomalthusianismo”, introduziram Margaret e William Sanger – seu marido – ao círculo intelectual de Greenwich Village, o bairro da esquerda caviar que fica no distrito de Manhattan, na cidade de Nova York. O círculo parecia perfeito para o casal de socialistas americanos, visto que alguns intelectuais tinham inclusive boas intenções, caso do próprio William Sanger, que descobriu posteriormente que se juntar a esta gente não foi lá uma boa ideia. O motivo é que esse grupo de intelectuais que se reuniam no salão Mabel Dodge não tinha apenas aspirações socialistas, mas sobretudo libertinas: o movimento dialético da política conseguiu criar uma geração de socialistas que beberam tanto da fonte da Revolução Sexual, de William Godwin, como do controle populacional, de Thomas Malthus.

No entanto, William Sanger descobriu esse elemento a mais um tanto quanto tarde – e da pior forma: Margaret mergulhou de cabeça no neomalthusianismo da Village, de modo que começou a viajar para Boston – que fica a 350 km de Nova York – para fazer pesquisas na biblioteca da cidade sobre contracepção. Longe de casa, ela começou a ter um caso com Walter Roberts, um editor de revistas, além de se entregar às drogas e começar a deixar sua família de lado, o que levou sua filha Peggy a adquirir pólio. Dada a situação fora de controle, William decidiu tomar as rédeas da família e mandar Margaret para Paris, para que ela “pesquisasse métodos contraceptivos parisienses”, posto que a contracepção havia se tornado uma obsessão para sua esposa, ainda mais após o contato com o círculo de Greenwich Village. Contudo, Margaret não pesquisou nada, se entregou à libertinagem da Cidade Luz e logo tratou de voltar a Nova York, desta vez, morando em uma casa diferente do marido e da filha doente.

Mas Margaret Sanger adquiriu fama nacional mesmo após o chamado Massacre de Ludlow, que ocorrera no Colorado: neste episódio da história americana de 1913, cerca de 8.000 trabalhadores das minas de Ludlow, uma cidade que era praticamente propriedade da família Rockefeller, estavam insatisfeitos com as condições e convocaram uma greve, porém, as reinvindicações não foram atendidas e o que foi pior: a resposta aos trabalhadores veio em abril de 1914, quando a família Rockefeller e o governador do Estado contrataram uma espécie de milícia que, junto com a Guarda Nacional do Colorado, entraram na cidade e abriram fogo contra todos os trabalhadores, matando inclusive mulheres e crianças.

Sanger ficou sabendo desta história e com razão ficou revoltada, de maneira que foi a público pedir o assassinato de John Rockefeller Jr. Soma-se ao fato de pedir o assassinato de pessoas em público os livros subversivos sobre contracepção que Margaret publicava – tema que era proibido nos Estados Unidos, naquela época –, e ela foi obrigada a deixar os Estados Unidos e fugir para a Inglaterra, onde teve contato com a eugenia e se tornou oficialmente membro da Sociedade Eugenista Americana.

Em paralelo a toda essa confusão, por volta de 1913, John Rockefeller fundou o Escritório de Higiene Social, cujo objetivo era investigar as causas da prostituição, doenças venéreas, pobreza e outras mazelas sociais. O escritório de Rockefeller fez demasiados estudos, até que descobriu o que os socialistas da Greenwich Village já haviam descoberto: que a “solução” para as mazelas sociais estava na contracepção, defendida por Margaret Sanger, que passou a ser financiada pela Fundação Rockefeller em 1924.

Mas Margaret não estava apenas preocupada com a reprodução em si, como eugenista e darwinista social; havia um segmento da sociedade que a incomodava mais do que os outros. Pense um pouco: estamos falando dos Estados Unidos, um país extremamente racista, no começo do século XX, que possui até hoje bairros de negros e bairros de brancos. Não é preciso ser muito inteligente para entender que a situação dos negros na América era, naquela época, muito pior do que hoje em relação aos brancos, logo, na cabeça doentia de Margaret Sanger, as políticas de controle de natalidade deveriam estar focadas justamente nos bairros dos negros. Na obra “O Eixo da Civilização”, Sanger chega a dizer: “O problema mais urgente de hoje é como limitar e desencorajar a hiper fertilidade dos mentais e fisicamente inferiores”, em alusão aos pobres e aos negros. Uma vez, em discurso à Ku Klux Klan, o grupo racista americano, ela disse: “os fracos, os pobres e os negros são apenas ervas daninhas que precisam ser arrancadas ou esterilizadas para o bem da humanidade”.

E por este motivo – para controlar a população negra e pobre – ela fundou a Planned Parenthood, em Brownsville, um bairro de Nova York habitado majoritariamente pela população negra em 1916, com o objetivo de promover a contracepção através de panfletos, naquele momento. Certo dia, Sanger distribuiu um panfleto para um policial à paisana e foi presa por violar a Lei Comstock, que proibia a divulgação de material sobre pornografia, obscenidade, contracepção e abortivos. Entretanto, já em 1917, o Judiciário nova-iorquino modificou a lei para permitir que Margaret deixasse a prisão.

Uma vez fora da prisão, a obsessão de Margaret Sanger pela ideia da contracepção não terminou, ainda mais após a morte de sua filha, Peggy, que ela havia abandonado para viver uma vida entregue aos prazeres e à militância sexual. A morte de Peggy mexeu muito com a cabeça de Margaret, de modo que ela sequer conseguia encarar uma mulher com sua filha sem ter crises de choro, devido à culpa de ter abandonado sua família. Mas foi em 1952 que ela realizou seu grande feito: junto com Katharine McCormick, Gregory Pincus e John Rock, ela conseguiu financiamento para uma pesquisa que, posteriormente, daria origem à pílula anticoncepcional como conhecemos hoje.

A criação do anticoncepcional, no entanto, não foi bem vista. Em 1968, uma encíclica assinada pelo Papa Paulo VI dizia: “É ainda de recear que o homem, habituando-se ao uso das práticas anticoncepcionais, acabe por perder o respeito pela mulher e, sem se preocupar mais com o equilíbrio físico e psicológico dela, chegue a considerá-la como simples instrumento de prazer egoísta, e não mais como a sua companheira, respeitada e amada. Considerem o caminho amplo e fácil que tais métodos abririam à infidelidade conjugal e à degradação da moralidade”.

A preocupação do Papa era válida, até porque não era nova: no século XVIII, antes da Revolução Francesa, o filósofo francês La Mettrie desenvolveu a tese de que o homem era como uma máquina, ou seja, a espécie humana se limitava a reagir apenas a impulsos elétricos. Como consequência disso, o homem não possuía mais um valor ontológico e, portanto, poderia ser tratado de qualquer jeito. Foi o suficiente para o Marques de Sade, outro revolucionário sexual e pornógrafo mil vezes pior do que William Godwin, escrever os romances Justine e 120 dias de Sodoma, panfletos pornográficos que contam a história de pessoas que são sequestradas e abusadas sexualmente, servindo apenas como mecanismo de prazer para outros homens, como verdadeiras máquinas, em consonância com a filosofia de La Mettrie.

Já na América, nas décadas de 1950 e 1960, os estados membros começaram a passar leis que dificultavam o acesso ao anticoncepcional, justamente para evitar a “maquinização” do homem, alertada mais tarde pelo Papa e cujas consequências já eram conhecidas desde a Revolução Francesa. Foi então que, em 1965, o caso foi parar na Suprema Corte, no famoso julgamento Griswold v. Connecticut. Neste processo, o diretor da filial da Planned Parenthood de Connecticut, Estelle Griswold, e um médico foram presos com base na lei de Comstock, que proibia o uso e a difusão de métodos contraceptivos. Eles apelaram e perderam em todas as instâncias, até que o caso chegou à Suprema Corte. No Tribunal Maior, eles alegaram que lei de Comstock seria inconstitucional, uma vez que a Constituição americana protege o direito fundamental de privacidade das pessoas usarem qualquer medicamento, artigo medicinal ou instrumento. A alegação foi aceita por 7 dos 9 ministros, a Planned Parenthood obteve vitória e os estados, a partir de então, não puderam mais limitar o acesso ao anticoncepcional na América. Entretanto, na decisão que derrubou o Roe v. Wade em 2022, o ministro Clarence Thomas, o decano conservador da Suprema Corte americana, afirmou em seu voto que o Tribunal deveria rever, além do Roe v. Wade, a decisão Griswold v. Connecticut.

Mas, e a Planned Parenthood? Bom, embora na época que surgiu ela não fizesse aborto, hoje essa organização é a responsável por pelo menos metade dos abortos que acontecem nos Estados Unidos. Além disso, ela possui militância ativa na América do Sul e hoje investe muito em “transição de gênero” também. Ou seja, a organização é uma das grandes responsáveis pela difusão da ideologia de gênero no mundo. E não para por aí: em 2015, a ex-presidente da organização, Deborah Nucatola, foi flagrada vendendo partes de fetos. Além disso, em 2019, a ONG foi uma das responsáveis pela militância pró aborto que levou à aprovação da prática na Argentina, com jornalistas pagos por ela para criar a “lista negra” dos conservadores, a fim de perseguir aqueles que eram contra o aborto no país.

Por fim, após o público descobrir que Margaret Sanger, a fundadora da Planned Parenthood, era racista e eugenista, a organização resolveu retirar seu nome do hall de presidentes. Porém, isso não muda a história de que a organização surgiu para controlar a população negra. Retirar o nome da sua fundadora do hall de presidentes é como retirar o nome de Stalin da lista de presidentes da Rússia. Ademais, a ONG também recebe dinheiro público: em 2021, o governo Biden destinou coisa de 386 bilhões de dólares para esta indústria, fatia da qual a máquina da morte de Margaret Sanger recebeu uma parte por meio de suas filiais estaduais. Algo parecido ocorreu na Argentina sob a gestão Fernandez, mas a Argentina está cada vez mais falida e, agora, com Lula na presidência, é muito provável que a farra do BNDES volte. Em outras palavras: você, conservador, esteja preparado para financiar o aborto na América Latina.

 

 

Vinicius Mariano, para Vida Destra, 29/12/2022.
Vamos debater meu artigo! Sigam-me no Twitter: @viniciussexto e                         Parler : @viniciusmariano

 

Receba de forma ágil todo o nosso conteúdo através do nosso canal no Telegram!

 

As informações e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade de seu(s) respectivo(s) autor(es), e não expressam necessariamente a opinião do Vida Destra. Para entrar em contato, envie um e-mail ao contato@vidadestra.org
Subscribe
Notify of
guest
1 Comentário
mais antigos
mais novos mais votados
Inline Feedbacks
View all comments
WELTON REIS DOS SANTOS
1 mês atrás

Não existe almoço grátis! Como estudante e profissional da saúde já li muitos artigos ligados a contracepção e suas consequências individuais e nunca sobre o verdadeiro objetivo, a eugenia. Na política estamos vivendo um embate entre os poderosos do setor financeiro e do agronegócio. Um dia a casa cai! Excelente artigo, parabéns!