Hoje o golpe de Estado que derrubou o imperador Dom Pedro II, e o expulsou do Brasil, assim como sua família, está completando 130 anos. Eu realmente não vejo motivos para comemoração. E nem é pelo fato de ser monarquista. Eu não nasci  monarquista, aderi à causa a apenas um ano! E foi justamente por causa da minha insatisfação com a república e com as consequências dos seus desastrosos governos, que acabei finalmente compreendendo que este modelo fracassou no Brasil.

Muitas pessoas torcem o nariz quando ouvem falar em monarquia. Eu tenho a vantagem de viver a vários anos numa monarquia constitucional parlamentarista, e de poder viver na prática esta forma de governo. Vim ao Japão em 1996, durante o primeiro mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso e desde então o Brasil teve cinco presidentes diferentes: além de FHC, Lula, Dilma, Temer e agora Bolsonaro. Enquanto isso aqui no Japão tivemos 11 primeiros-ministros no mesmo período. Longe de parecer um sistema de governo instável, o chefe de Estado japonês permaneceu o mesmo nos últimos 30 anos, só tendo mudado recentemente com a abdicação do imperador Akihito e a ascensão de seu filho, o atual imperador Naruhito. Não houve nenhuma espécie de tumulto ou de bagunça, o governo e seus órgãos permaneceram funcionando normalmente apesar das várias trocas dos chefes de governo e do Gabinete (ministério).

Não é preciso ser um historiador profissional para saber que durante o período imperial  brasileiro tivemos problemas, mas também tivemos grandes êxitos. Basta uma pesquisa simples sobre o assunto para constatar isto. Infelizmente, a república fez um trabalho forte para apagar todos os símbolos do antigo regime, mudando tudo, desde o hino nacional e a bandeira, até a constituição, e perseguiram e prenderam todos aqueles que se manifestassem favoráveis à monarquia e/ou leais ao imperador. A monarquia, seus feitos, todo o seu legado, tudo foi meticulosamente jogado para debaixo do tapete da História.

O novo regime, que veio sob o manto da modernidade, carregava em si o pior que qualquer regime pode apresentar. Ao invés de ampliar a liberdade dos cidadãos, acabou com a já existente liberdade de imprensa, perseguindo e lançando na prisão qualquer jornalista que ousasse criticar o novo regime e os seus membros. Dom Pedro II costumava dizer que “imprensa se combate com imprensa“, e a liberdade de expressão durante o império pode ser comprovada através das charges sobre o imperador que eram publicadas nos jornais da época. Nem bem o novo regime ascendeu ao poder, logo o Brasil estava vivendo sob uma ditadura militar.

A monarquia brasileira, considerada simples e modesta ao extremo, quando comparada às demais monarquias, foi substituída por um regime que veio para garantir seus próprios interesses e não para garantir o bem do povo e do país. Prova disso é que uma das primeiras medidas do novo governo foi reajustar o salário do presidente da república! Dom Pedro II recebia um salário do Estado, e era com este salário que ele mantinha sua família, as  suas propriedades e ainda financiava os estudos de vários brasileiros virtuosos de seu tempo, como o compositor campineiro Carlos Gomes. Durante os 49 anos de seu reinado, Dom Pedro II recebeu o mesmo salário! Nunca aceitou reajustes e era extremamente austero com os gastos pessoais e com o uso dos recursos públicos.”Despesa inútil é furto à nação!“, costumava dizer!

O Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, onde a família imperial residia, era um palácio simples, sem a suntuosidade encontrada em outros palácios imperiais ou reais mundo afora. E a família imperial residia neste mesmo local desde que Dom João VI o recebeu como doação. O Paço Imperial, local de trabalho do imperador, também carecia de qualquer suntuosidade. Infelizmente já não é possível conhecer o palácio de São Cristóvão, hoje Museu Nacional, que foi destruído por um incêndio no ano passado. Mas é possível conhecer o Paço Imperial, no Rio de Janeiro. A simplicidade e a falta de glamour da monarquia brasileira era tão grande, que a recém instaurada república não quis usar o palácio de São Cristóvão e nem o Paço Imperial, preferindo um lugar mais luxuoso: o Palácio do Catete, hoje Museu da República, que também pode ser visitado para se comparar o estilo de vida dos líderes no período imperial e no período republicano. Outro lugar onde a simplicidade da família imperial e da monarquia brasileira pode ser facilmente constatada é o Palácio de Petrópolis, residencia de verão da família imperial, hoje Museu Imperial.

Por que estou citando a simplicidade da monarquia e em especial, da família imperial brasileira? Porque a maioria das pessoas tem em mente que uma monarquia é perdulária e que seus membros vivem de forma extravagante às custas dos impostos pagos pelo povo. E pelo menos no caso brasileiro, esta é uma grande e estrondosa mentira! As pessoas contrárias à restauração da monarquia brasileira usam como argumento o fato que teríamos que sustentar uma família por toda a vida. Mas se esquecem que já fazemos isso hoje, pagando seguranças, assessores e motoristas, a todos os nossos ex-presidentes, de forma vitalícia. Estas pessoas também se esquecem que o aparato presidencial brasileiro chega a custar mais caro que a manutenção de um monarca!

Mas para mim, o grande diferencial entre a monarquia e a república nem está na questão financeira! Para mim, está na questão moral e ética. Todos sabemos que numa monarquia, os príncipes herdeiros são criados e preparados desde a infância para exercer a função de Chefe de Estado. Não é como na república, onde até pessoas semi analfabetas e sem nenhum preparo chegam ao poder. Os monarcas são preparados para conduzir o país com estabilidade, sempre pensando no longo prazo, ao passo que presidentes tem quatro anos para fazer algo que permita a sua reeleição ou de um de seus aliados políticos. Dom Pedro II exercia a função de Chefe de Estado e exercia o Poder Moderador, hoje inexistente. E é nesse ponto que mais vejo motivos para admirar a monarquia brasileira, e em especial o imperador Dom Pedro II. Um dos apoiadores da república, Rui Barbosa exprime bem o que quero dizer:

“(… ) de tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a ter vergonha de ser honesto. Essa é a obra da república nos últimos anos. No outro regime(a monarquia) o homem que tinha certa nódoa em sua vida era um homem perdido para todo o sempre, as carreiras políticas lhe estavam fechadas. Havia uma sentinela vigilante, de cuja severidade todos se temiam a que, acesa no alto, guardava a redondeza, como um farol que não se apaga, em proveito da honra, da justiça e da moralidade gerais

Rui Barbosa se referia a Dom Pedro II, que possuía um caderno preto onde anotava os nomes de todos aqueles que tivessem algo que os desabonassem e os impedissem de exercer qualquer função pública. Todo aspirante à vida pública temia ter o seu nome incluído neste caderno. O imperador era o farol moral da nação e mantinha os demais poderes funcionando com liberdade, porém sempre dentro da ética, da moral e da honra.

Hoje o povo brasileiro clama por alguém que coloque ordem na política e combata os desmandos, a falta de ética, a desonra, a desonestidade, a falta de escrúpulos e a falta de defesa do interesse público. Todos estamos cansados de ver a corrupção, o compadrio, a defesa de interesses próprios se sobreporem às necessidades e anseios da população. Quando olhamos para Brasília, sentimos revolta e nojo, e a política se tornou algo tão negativo que afastou todas as pessoas de bom caráter, tornando-se uma atividade quase que exclusivamente exercida por gente que não presta. Em nossa busca por socorro, na falta de alguém que interceda e coloque ordem na casa, acabamos desejando uma intervenção militar que restaure a ordem. Não apoio tal intervenção por vários motivos, e o principal é que foi justamente uma intervenção militar acontecida há 130 anos atrás, que nos trouxe ao ponto em que nos encontramos hoje.

Ao invés de uma intervenção militar, precisamos de uma intervenção moral, de alguém honrado, que sirva de exemplo e que coloque os interesses nacionais acima de quaisquer outros. O que queremos, na verdade, é alguém capaz de impedir os excessos cometidos pelos Poderes, colocando-os na linha. Inconscientemente clamamos por um Poder Moderador. Já o tivemos, mas infelizmente expulsamos o sentinela e o farol moral se apagou.

Hoje realmente não vejo motivo para comemorações. Há 130 anos a elite tomou o poder para si, e permanece até hoje no poder, procurando usar a estrutura de Estado e os recursos públicos em benefício próprio. Há 130 anos os grupos políticos se revezam no poder, sempre pensando nas próximas eleições, desprezando as próximas gerações.

Monarquia Constitucional Parlamentarista. Já estivemos sob este regime, e considero que foi o que mais produziu homens de bem, grandes homens públicos, estadistas, que faziam a Política com “P” maiúsculo. Termino este artigo com outra frase de Rui Barbosa, tão atual que nos mostra que em 130 anos de república, nada mudou na política brasileira:

o parlamento no Império era uma escola de estadistas, na república uma praça de negócios

 

 

Sander Souza
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