Todos nós sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, este dia chegaria. Por mais que às vezes parecesse um dia ainda distante. Nesta quinta-feira, 8 de setembro de 2022, Sua Majestade a Rainha Elizabeth II faleceu no Castelo de Balmoral, na Escócia, um dos seus lugares de veraneio favoritos. A rainha estava com 96 anos de idade e estava no trono do Reino Unido há 70 anos, sendo o seu reinado o mais longevo da história britânica.

Fiquei consternado quando recebi a notícia do falecimento da rainha. Sei que muitos brasileiros, apesar do respeito à rainha, não conseguem entender o porquê de alguém como eu ficar tão impactado com tal notícia.

Sempre nutri um respeito natural pelos monarcas, a começar pelos nossos imperadores. Sempre gostei de estudar a nossa história e sempre respeitei o período monárquico brasileiro e seus personagens. Apesar disso, até alguns anos atrás eu ainda considerava a monarquia como algo ultrapassado, um regime antiquado que não tinha mais espaço no mundo moderno.

Vivi metade dos meus 48 anos em uma monarquia constitucional parlamentarista, no caso o Japão. A vivência diária num país com esse regime, aliada à minha paixão por história e somada ao meu respeito natural pelos personagens históricos da nossa própria monarquia me levaram a ver com outros olhos este regime. A estabilidade, o senso de dever e uma vida a serviço de uma nação são algumas das características que me chamaram a atenção em nossos imperadores e em monarcas como a rainha Elizabeth II.

Muita gente sem conhecimento do assunto tece críticas pesadas à monarquia mesmo tendo um conhecimento superficial sobre o tema. Eu até entendo quem faz estas críticas, pois a maioria não teve, como eu, a oportunidade de viver num país sob este regime e conhecer na prática as suas características para ter condições de comparar com a nossa república presidencialista.

Muitos veem as famílias reais como um bando de sanguessugas de recursos públicos e muitos nem imaginam como estas famílias se tornaram as famílias reais de seus países. Muitas pessoas desconhecem o fato de que muitas delas já possuíam patrimônio próprio quando chegaram ao trono de seus países. E muitas pessoas desconhecem também o fato destas famílias terem responsabilidades muito maiores que as dos cidadãos comuns. Um soberano como a rainha Elizabeth não possui vida própria e dedica toda a sua existência ao cumprimento de um dever, que é o de servir ao seu povo e ao seu país. É necessária muita preparação e muito desprendimento para conseguir cumprir com este papel de forma exitosa.

Um monarca deve encarnar a alma do seu povo e representar a sua nação aos olhos do mundo. Deve ser um guardião da cultura e da história do seu povo, bem como dos seus valores e princípios morais. Desta forma, um monarca serve como um guia a apontar a direção e, ao mesmo tempo, serve como um referencial para a identidade da sua nação, impedindo que a sociedade se desvie demais dos seus princípios, dos seus valores e impede que a sua cultura se contamine com o que vem de fora, evitando a perda da identidade nacional.

Do ponto de vista político, um monarca representa estabilidade e continuidade na condução dos assuntos de Estado. Na maioria das monarquias modernas, os monarcas não detém poder político, não pertencendo a nenhum partido político e não participando das decisões diárias da administração pública, que é exercida pelo chefe de governo. Mas mesmo não tendo um papel político direto, a simples existência de um monarca já funciona como um fator estabilizador, garantindo que as instituições de estado funcionem como mandam as leis e servindo de elemento de contenção para se evitar que rupturas políticas prejudiquem o país.

Aliás, as monarquias têm as melhores condições para se evitar rupturas, que em sua maioria causam grandes danos às nações e possuem poucos (ou nenhum) ganhos que as justifiquem.

Ao longo de seus 70 anos de reinado, a rainha Elizabeth enfrentou diversas crises e sempre soube como conduzir as coisas, como chefe de Estado, respeitando os líderes políticos mas ao mesmo tempo atenta para que os problemas não interferissem com o bom funcionamento das instituições britânicas.

Eu costumo comparar um monarca com o timoneiro de um navio. Embora haja outras pessoas responsáveis pelas questões operacionais que garantem o funcionamento do navio, é o timoneiro quem o conduz por águas calmas ou turbulentas. E, durante uma tempestade, é a experiência e conhecimento do timoneiro que garante que o navio enfrente uma grande tempestade e saia dela com o mínimo de danos e com todos os seus tripulantes a salvo.

Neste sentido creio que a rainha Elizabeth II foi bem sucedida na condução do seu reino e no cumprimento do seu dever. Nesta semana em que comemoramos o bicentenário da nossa independência, nossa história monárquica ficou em evidência. Relembrar a nossa história, resgatar os personagens que tiveram papéis importantíssimos em nossa história e dar a eles o devido valor fez com que o meu patriotismo ficasse ainda mais forte, e o meu respeito à nossa monarquia em especial, e às monarquias em geral, ficasse ainda mais vivo.

E foi nesse contexto que recebi a notícia do falecimento da monarca inglesa. Por isso no meu caso o impacto foi grande. No momento em que revisitei a nossa história monárquica e mantive viva em meu coração brasileiro a memória destes grandes homens e mulheres, receber uma notícia como esta foi um verdadeiro baque mas, ao mesmo tempo, serviu para reafirmar ainda mais o meu respeito pela monarquia e por aqueles que dedicam as suas vidas para encarnar os mais elevados valores de suas nações e preservar as suas culturas. Não é uma tarefa fácil e requer desprendimento, muito preparo e principalmente, renúncia de seus objetivos e projetos pessoais. Aqueles que fazem parte de famílias reais e estão na linha de sucessão, são educados desde a mais tenra infância para que estejam preparados para assumir as suas responsabilidades como chefes de Estado.

Neste momento de luto, gostaria de registrar estas breves palavras em homenagem à rainha e à sua memória, reconhecendo o seu esforço em ser um exemplo para o seu povo e para cumprir com isenção e imparcialidade o seu papel como Chefe de Estado, evitando se imiscuir em questões políticas e sem tomar partido nas questões cotidianas.

Que possamos refletir acerca do legado que a rainha Elizabeth II nos deixa e que possamos aprender com sua experiência e trabalho. E que Deus abençoe o novo rei Charles III para que possa prosseguir com o enorme legado que recebeu de sua antecessora. Uma era se encerrou e uma nova era se inicia para o povo britânico. Que seja uma era ainda mais vitoriosa e que todos nós possamos continuar aprendendo com este regime que muito pode ensinar e oferecer ao nosso povo.

 

 

Sander Souza (Conexão Japão), para Vida Destra, 09/09/2022.
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Sirlene
Sirlene
20 dias atrás

O legado da rainha Elizabeth II é um marco incontestável na história mundial e seu posicionamento de vida refletiu profundos ensinamentos. Com
certeza, sua morte sinaliza uma nova era. Parabéns pela matéria!!!

Abner de Oliveira
Abner de Oliveira
20 dias atrás

Excelente texto. O brasileiro que afirma que a monarquia é algo antiquado, deve estar contente em sustentar a 2º república mais cara do mundo!

WELTON REIS DOS SANTOS
20 dias atrás

Me too! Não tenho nenhuma expressão smais apropriada para o momento. Forte abraço!

Nunes
Admin
18 dias atrás

A rainha fará falta no mundo ! Ótimo artigo, Sander.