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O inferno do ‘Covid Zero’

 

Fonte: SPIKED online

Título Original: The hell of ‘Zero Covid’

Link para a matéria original original: aqui!

Publicado em 4 de janeiro de 2022

 

Autor: Brendan O’Neil, redator-chefe de Política

 

 

A China mostra como o fanatismo pela saúde pública pode se tornar muito perigoso.

 

Imagine um país em tal estado de angústia que seus cidadãos se veem reduzidos à condição de fazer escambo para obter comida. Uma nação em que homens e mulheres estejam tão desesperados por alguma coisa para cozinhar e comer que começam a trocar papel higiênico por vegetais. Um país no qual as famílias estão tão famintas que trocariam cigarros por repolho. Esse país na verdade existe. E não é um dos pobres, às vezes famintos países do Sul global. É a China. Mais especificamente, é a China sob a política do ‘Covid Zero’. Se quiser testemunhar o inferno do Covid Zero, o desarranjo distópico de subordinar cada faceta da vida à cruzada contra o coronavírus, você não precisa procurar em outro lugar a não ser no país onde o vírus apareceu primeiro.

A permuta por comida e outros suprimentos básicos está acontecendo na cidade de Xi’an, no noroeste da China, neste exato momento. Houve um pico comunitário de infecções por Covid em Xi’an e as autoridades responderam com um autoritarismo feroz. Treze milhões de pessoas estão confinadas em suas casas desde 23 de dezembro [2021]. Inicialmente, tinham permissão para sair a cada dois dias para comprar comida, mas, mesmo esse infinitesimal resquício de liberdade foi retirado em 27 de dezembro. Desde então, as pessoas de Xi’an estão literalmente em prisão domiciliar. Não têm permissão para deixar a residência por nenhum motivo, nem mesmo para comprar comida. Sim, nos últimos nove dias, 13 milhões de pessoas estão trancadas em suas próprias casas; se derem um passo fora de casa, estão arriscadas a serem presas.

Para contornar a questão mais importante, de que as pessoas ficarão gravemente doentes se não tiverem alimentos, as autoridades de Xi’an montaram um esquema de entrega de produtos essenciais em domicílio. Não é surpresa saber que isso não ocorreu de maneira totalmente calma. Os residentes reclamaram que não estavam recebendo o suficiente para comer. Outros dizem não ter recebido qualquer ajuda. Os cidadãos começaram a compartilhar imagens e vídeos, no Weibo, das trocas por comida que estão fazendo. Em um vídeo, um homem desesperado oferece um console de Nintendo por um pouco de macarrão instantâneo e pãezinhos cozidos. Outro troca detergente de louça por maçãs. As pessoas ‘não têm mais comida suficiente para se alimentarem’, disse um residente de Xi’an à Radio Free Asia. Outro disse que Xi’an está testemunhando um ‘retorno à sociedade primitiva’.

Não é somente Xi’an que está sofrendo com o lema de Covid Zero. Esta semana, 1,2 milhão de residentes da cidade de Yuzhou, na província de Henan, foram colocados em lockdown após a descoberta de três casos de infecção por Covid. E infecções assintomáticas, além de tudo. As regras são severas. Todo transporte público foi suspenso. Dirigir está proibido. Todas as escolas, lojas e locais de lazer foram fechados. Misericordiosamente, e diferentemente dos cidadãos presos de Xi’an, os residentes de Yuzhou têm permissão para ir às lojas que vendem ‘suprimentos para a vida diária’. Ou seja, têm permissão para comprar comida. E isso é tudo. Com a política de Covid Zero, você tem permissão para comer e nada mais. Você pode dar sustento ao seu corpo, porém, todas as demais necessidades humanas – educação, relacionamentos, lazer, trabalho, protestos – lhe são negadas. Tudo está implacavelmente subordinado à saúde pública. A vida é desnudada de todas as coisas que a fazem valer a pena; só é permitida a preservação corporal.

E ai dos cidadãos da China que se manifestam contra a tirania do Covid Zero. Em um horripilante eco da era Mao, a exposição à vergonha pública voltou. Há poucos dias, veiculou-se uma imagem da polícia de Jingxi, cidade no sul da China, exibindo supostos criminosos da Covid pelas ruas. Quatro pessoas em roupas de proteção contra materiais perigosos e usando máscaras faciais tiveram que caminhar, conduzidas por policiais, por uma área da cidade, enquanto outras pessoas olhavam. Todas elas tinham placas penduradas no pescoço, mostrando seus nomes e as fotos de seus rostos. A suposta ofensa era que teriam ajudado pessoas a cruzar a fronteira para a China – a mais grave ofensa em um país sob Covid Zero. O objetivo desse espetáculo maoísta de exposição à vergonha, em nome da saúde pública, nas palavras da CNN, era aumentar a consciência sobre ‘crimes relacionados à fronteira’ e estimular ‘a conformidade do público com a prevenção da epidemia e medidas de controle’. Será que, em breve, em Xi’an, será permitido sair para participar da manifestação de Dois Minutos de Ódio contra criminosos da Covid? Qualquer tipo de alívio dos nove dias escuros em que ficaram trancados em suas casas será, sem dúvida, bem recebido.

De certa maneira, essas indesculpáveis e misantrópicas restrições só acontecem na China. É claro, a China é um país autoritário – a maioria dos seus legisladores tem poucas dúvidas sobre privar as pessoas de suas liberdades mais básicas. Além disso, o PCC (Partido Comunista Chinês) tem sua reputação política a zelar. Como relata o Guardian, nos últimos 20 estranhos meses, a mídia na China reforçou a mensagem de que a disseminação de Covid em outros países deve-se à ‘fraca liderança e péssima tomada de decisão’. Abandonar a política de Covid Zero agora e permitir a infecção da comunidade ameaçaria a solidez do Presidente Xi e sua administração. O mais preocupante de tudo, precisamente como resultado de suas políticas de Covid Zero – e também devido ao fato de que suas vacinas não são tão eficazes quanto as produzidas no Ocidente – é que a população chinesa tem baixos níveis de imunidade contra a Covid. Esta é a armadilha do Covid Zero, como descobriram Austrália e Nova Zelândia: no processo de proteger os cidadãos contra a infecção, que é a justificativa para essas políticas intoleráveis, impede-se a capacidade biológica das pessoas de lidar com a Covid, quando ela inevitavelmente chega.

Contudo, em outro sentido muito importante, o Covid Zero não é apenas uma ‘coisa chinesa’. Não. Aqui, no supostamente livre Ocidente, também inúmeros especialistas e observadores defenderam, abertamente, as políticas de Covid Zero, propondo a subjugação da liberdade e das alegrias da vida a um programa que garantisse a extinção da Covid em nossa sociedade. ‘Covid Zero’, no último ano, tornou-se um pouco como o slogan da campanha ‘Pare de investir na polícia’, no sentido de que as pessoas que impulsionaram essa política agora negam que seja o que realmente querem. Da mesma forma que os apoiadores midiáticos do BLM dizem ‘Não queríamos realmente tirar o investimento da polícia, você não entende as nuances da nossa posição’, assim o lobby do Covid Zero, no Reino Unido e em outros lugares, insiste que, na verdade, a intenção não era impor restrições tão severas ao ponto de zerar os casos de Covid. Mas a verdade é que eles queriam, sim.

De fato, vale a pena lembrar que diversos especialistas britânicos elogiaram a reação medonha da China à Covid. O professor Neil Ferguson, do Imperial [College], disse que ele e seus colegas nunca pensaram que poderiam ‘escapar’ do tipo de política brutal que a China estava impondo no início de 2020. ‘[E] então a Itália o fez. E percebemos que nós podíamos’. A fatalista e onipresente professora Christina Pagel ficou extasiada porque a China estava ‘cuidando do problema da Covid com muita seriedade’, quando revelou-se que os chineses haviam construído um centro de quarentena com 5 mil quartos, para acomodar quem chegasse do exterior. ‘A China tem um sistema socialista, coletivo… não é uma sociedade individualista, voltada para o consumo e guiada pelo lucro, gravemente prejudicada por 20 anos [sic] de políticas econômicas neoliberais’, tuitou a professora Susan Michie, em março de 2020. Para direcionar a mensagem ao seu próprio país, ela incluiu a hashtag #LearnLessons [aprendam as lições]. Ou seja, o Reino Unido devia aprender com a China. Michie é uma das conselheiras do SAGE para o governo do Reino Unido. Quem ainda duvida de que a liberdade está em condições precárias na moderna Inglaterra deve considerar apenas este fato: uma fã do ‘sistema’ da China vem aconselhando o governo durante toda esta maldita pandemia.

Esta é a verdade: se tivéssemos seguido o conselho dos fanáticos do Covid Zero da própria Inglaterra, estaríamos agora em posição semelhante à da China. Teríamos aceitado que nada é mais importante do que prevenir infecções desse coronavírus. Teríamos reorganizado a sociedade de tal maneira que a saúde seria preservada, mas à custa da vida – à custa da educação, da interação humana, do direito de caminhar na calçada em frente de casa. Fizemos isso por alguns períodos, claro, durante os vários lockdowns. E as futuras gerações certamente olharão para trás e perguntarão por que nós, no suposto Ocidente liberal, copiamos, como confessou Ferguson, as políticas do PCC. Mas, por enquanto, à medida que lemos sobre a situação de desespero a que estão submetidas as boas pessoas de Xi’an, vamos lembrar que temos nossos próprios déspotas do Covid Zero, e que suas políticas tresloucadas nos teriam empurrado para uma situação distópica similar. Isso me amedronta mais do que a própria Covid. A restauração da liberdade ao seu devido lugar – como o atributo mais importante de nossa sociedade – será a missão principal de 2022.

 

 

Traduzido por Telma Regina Matheus, para Vida Destra, 08/01/2022.                                  Faça uma cotação e contrate meus trabalhos através do e-mail  mtelmaregina@gmail.com ou Twitter @TRMatheus

 

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