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O vírus de Wuhan

Uma das maiores vítimas fatais dos lockdowns pode ser a Ciência

 

Fonte: The Federalist

Título Original: Wuhan virus: One of the lockdown´s greatest casualities could be science.

Link para a matéria original aqui!

18 de março de 2021

 

Por martin kulldorff & jay bHattacharya

 

Políticos, jornalistas e cientistas transferiram o ônus da doença para a classe trabalhadora. Eles também abalaram perigosamente a pesquisa científica.

 

A pandemia da COVID-19 e os lockdowns não só devastaram a sociedade, mas também causaram um efeito assustador na comunidade científica. Para que a ciência avance, ideias opostas devem ser debatidas aberta e vigorosamente, apoiadas ou contestadas com base no mérito científico.

Todavia, alguns políticos, jornalistas e (infelizmente) cientistas se engajaram num movimento feroz de difamação de cientistas dissidentes, espalhando teorias da conspiração perniciosas e até mesmo convocando abertamente a censura em vez do debate. Em muitos casos, eminentes vozes científicas foram silenciadas, quase sempre por meio de táticas de baixíssimo nível. As pessoas que se opõem aos lockdowns são acusadas de “ter sangue nas mãos”, seus cargos universitários são ameaçados, e muitos de nossos colegas preferem ficar quietos e não confrontar a “máfia”.

Contaremos aqui a história de cinco notáveis cientistas que enfrentaram a inquisição dos dias atuais.

Dr. Scott Atlas

O Dr. Scott Atlas atuou como assessor especial do presidente [N.T.: Donald J. Trump] na política da COVID, entre julho e novembro de 2020. Esse já seria um trabalho difícil em circunstâncias normais, quando a ciência já atingiu um certo grau de maturidade.

Com base em sua experiência em políticas de saúde pública, a orientação de Atlas enfatizou o equilíbrio entre os riscos impostos pela disseminação viral, e os danos colaterais dos lockdowns à saúde pública em um ambiente científico e político instável. Os cientistas que não compartilhavam de sua visão tiveram todas as oportunidades de, responsavelmente, reportar fatos e hipóteses científicas e interagir com as ideias dele.

Em vez disso, o Journal of the American Medical Association [Jornal da Associação Médica Americana] – o principal jornal da área médica dos Estados Unidos – publicou um artigo opinativo difamando o Dr. Atlas, sem considerar sua visão científica real. Os editores do jornal ainda se recusaram a publicar cartas de apoio a Atlas.

Contrariamente ao que disseram seus críticos, Atlas pegou o caminho certo da ciência. O mais alto risco de mortalidade da COVID-19 está entre os residentes de casas de idosos. Atlas trabalhou para garantir apoio federal para a realização rápida de testes frequentes em funcionários, internos e visitantes desses residenciais. Embora a ação não tenha sido implementada em todos os locais, a iniciativa por si só salvou incontáveis vidas.

Atlas trabalhou arduamente para disponibilizar máscaras nos residenciais de idosos. Atlas estava certo quando contradisse a falsa afirmação do ex-diretor dos Centros de Controle de Doenças, Dr.  Robert Redfield, de que máscaras são mais efetivas do que vacinas. Atlas defendeu aulas presenciais durante a pandemia, um posicionamento que, agora, até mesmos os epidemiologistas pró-lockdown endossam.

Dr. John Ioannidis

O Dr. John Ioannidis é um cientista mundialmente conhecido que, desde o início da pandemia, exigiu informações científicas de mais qualidade para fundamentar uma política de COVID-19. Seu trabalho, publicado no “Bulletin of the World Health Organization” [Boletim da Organização Mundial da Saúde], ajudou a estabelecer o grau real de letalidade do vírus – uma classe de magnitude mais baixa do que a sugerida pela narrativa convencional. Por causa do seu trabalho, a BuzzFeed o acusou falsamente de ter um viés político e conflito de interesse financeiro.

Em dois artigos publicados na Scientific American, dois respeitados jornalistas da área médica apresentaram evidências que desmontavam as falsas acusações feitas contra Ioannidis, ao mesmo tempo que lamentavam a substituição do debate científico pela difamação de cientistas. De maneira escandalosa, esses jornalistas foram atacados. A revista cedeu e publicou banalidades a título de “correções” aos artigos, sendo que nenhuma delas contradizia o que os jornalistas haviam relatado.

Uma das objeções citava um conflito de interesses dos jornalistas porque eles haviam mencionado um artigo de outro cientista sem declarar que tinham colaborado com ele anteriormente. A Springer Nature é proprietária da Scientific American. Se isso é conflito de interesses a ser declarado, a Springer deveria publicar “correções” semelhantes para a maioria dos milhões de artigos que já divulgou.

Dra. Sunetra Gupta

A professora Sunetra Gupta, da Universidade de Oxford, que é uma das epidemiologistas mais proeminentes do mundo em doenças infecciosas, foi alvo de ataques brutais de especialistas políticos e midiáticos cujo conhecimento é uma fração do conhecimento e da sabedoria da professora. Gupta defendeu, desde o começo da epidemia, que os vulneráveis fossem protegidos e que a doença fosse gerenciada, no restante da sociedade, por meio de restrições limitadas e dano mínimo.

O embasamento de suas ideias estava no seu profundo entendimento da ciência sobre epidemias, propagação viral e riscos de doenças. Suas ideias sensatas, tão contrárias às políticas de lockdown, foram descaracterizadas e atacadas pelo ministro da Saúde do governo britânico, Matt Hancock, no plenário do Parlamento. Membro do Parlamento, Neil O’Brien a acusou de espalhar “histórias inverossímeis”. Os jornalistas da grande mídia, no Reino Unido, a qualificaram como especialista “espúria” e a acusaram de fazer “declarações enganosas”, muito similares a teorias da conspiração.

Embora seus detratores tenham convenientemente se esquecido, Gupta defendeu repetidas vezes uma melhor proteção aos idosos, com sugestões específicas que poderiam ter salvado muitas vidas. No início de outubro, elaboramos, Gupta e nós, a Great Barrington Declaration [Declaração de Great Barrington], na esperança de evitar a repetição do desastre que fora o lockdown da primavera. A maioria dos governos sumariamente ignorou Gupta e os demais signatários, e, mais uma vez, não conseguimos proteger os vulneráveis.

Dr. Carl Heneghan

Outro epidemiologista, Professor Carl Heneghan, que chefia o Centre for Evidence-Based Medicine [Centro de Medicina Baseada em Evidências), na Universidade de Oxford, foi vítima de semelhante agressão. Embora tenha dedicado toda sua carreira à avaliação e interpretação de evidências científicas, para cientistas e público em geral, críticas desmedidas qualificaram sua literatura como “anticiência” por ter ousado chamar a atenção para o único estudo randomizado publicado sobre a eficácia de máscaras faciais que questionava sua efetividade contra a infecção COVID-19.

Heneghan sofreu ataques de autoridades governamentais do Reino Unido porque descobriu erros crassos nas estatísticas de COVID divulgadas pelo governo britânico. Entre os erros descobertos por Heneghan, há casos de fatalidades causadas por acidente de ônibus que foram colocadas na conta da COVID, além de pessoas que, meses depois de recuperadas da infecção, foram registradas como “mortes por COVID”. Sem dúvida, a disposição de Heneghan para contar as verdades inconvenientes dos cientistas do governo explica a hostilidade com que foi tratado.

Dr. Jonas Ludvigsson

O Dr. Jonas Ludvigsson, professor de epidemiologia do prestigioso Karolinska Institute, na Suécia, publicou um estudo revolucionário no New England Journal of Medicine [Jornal de Medicina da Nova Inglaterra] esclarecendo que era seguro, para professores e alunos, manter as escolas abertas durante a pandemia. Esse trabalho fundamentou a política de países no mundo todo e de estados como, por exemplo, a Flórida, nos Estados Unidos, os quais forneceram ensino presencial seguro para as crianças, apesar da grande quantidade de casos. Por causa desse trabalho, Ludvigsson foi agredido por cientistas e jornalistas suecos e internacionais, a tal ponto que ele decidiu mudar o foco de seu trabalho científico, afastando-se da COVID-19.

Sabemos que lockdowns não ajudam, mas eles continuam

O que esses cientistas têm em comum é que todos provaram que estavam certos. Com tantas mortes por COVID-19, agora já deveria ser óbvio para todo mundo que as estratégias de lockdown falharam em proteger os idosos.

Embora qualquer pessoa possa se infectar, há uma diferença que supera a casa dos milhares quanto ao risco de morte entre idosos e jovens. O fracasso da não avaliação adequada desse fato pertinente ao vírus levou a muitas mortes evitáveis e ao maior fiasco na história da saúde pública.

Lockdowns geraram enormes danos colaterais em todas as faixas etárias. Privar as crianças do ensino presencial não prejudicou somente a educação delas, mas também sua saúde física e mental. Outras consequências para a saúde pública incluem o cancelamento de exames e tratamentos de câncer, piora nos resultados de doenças cardiovasculares e deterioração da saúde mental, para citar apenas algumas. Muitos desses danos terão desdobramentos ao longo do tempo, e teremos que viver e morrer com eles por muitos anos no futuro.

Por causa de egos, os pobres sofrem

Ainda que desastrosos no nível da população, os lockdowns foram eficazes em proteger os profissionais jovens, de baixo risco e abastados que puderam trabalhar de suas casas, como políticos, jornalistas e cientistas. Eles transferiram o ônus da doença para os membros mais velhos e vulneráveis da classe trabalhadora, que mantiveram a sociedade em atividade.

Qualquer cientista ativo no Twitter, Facebook e outras redes sociais tem que lidar com alguns trolls anônimos e desagradáveis, mas isso é do jogo e não constitui problema. São os ataques de políticos, jornalistas e colegas cientistas que enviam, a outros cientistas e jornalistas, a mensagem assustadora para tomar cuidado com suas palavras e exercer a autocensura.

Isso, por sua vez, prejudica a confiança das pessoas na ciência e na saúde pública. O campo fica aberto apenas para os cientistas que concordam com o pensamento de manada gerado pela mídia. Falta ao debate de políticas um grupo mais amplo de cientistas que entendem que a saúde pública vai muito além do mero controle de infecções, e que os lockdowns podem mais prejudicar do que ajudar a saúde pública.

O que podemos fazer agora?

Como desconstruir esse ambiente científico tóxico e nocivo? Como garantir que a ciência avance por meio do debate aberto de múltiplas ideias e perspectivas? Como podemos retornar a um clima acadêmico que incentive o discurso científico e a liberdade acadêmica? Considerando o dano já causado pelas políticas equivocadas da pandemia, como podemos restaurar a confiança das pessoas na saúde pública?

A responsabilidade é de todos da comunidade científica, mas especialmente dos líderes científicos, como presidentes de universidades, reitores e decanos, editores de mídias científicas e diretores de grandes agências de financiamento da ciência, como os Institutos Nacionais de Saúde, o Instituto Nacional de Doenças Alérgicas e Infecciosas e o CDC. Esses líderes precisam defender e incentivar o debate científico aberto, com múltiplas perspectivas.

Na ciência, o debate científico vigoroso e profundo deve ser encorajado, mas a calúnia, a difamação, a politização e as teorias da conspiração que insinuam culpa por associação, isso precisa ser combatido e jamais tolerado. O futuro da ciência e da sociedade depende disso. Se falharmos, os 300 anos de uma era esclarecida chegarão ao fim. 

 

*Martin Kulldorf, PhD, é professor de medicina na Universidade de Harvard. Jay Bhattacharya, MD, PhD, é professor de medicina na Universidade de Stanford.

 

 

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