Em países abalados por crises políticas que ocorrem pela disputa da manutenção do poder nas mãos de antigos burocratas do sistema é um tanto quanto normal ouvir as pessoas pedindo por Regime Militar, ainda mais se for um país em que os militares governaram por 21 anos e, apesar de terem cometido alguns erros, administraram bem a coisa pública durante esse período. No entanto, nos dias atuais, diferentemente de 1964, há um cenário político internacional e nacional completamente diferente do que havia antes, pois não há mais uma guerra fria, nem uma ameaça socialista tão forte e autoritária como a antiga União Soviética, que introjetou agentes comunistas em diversos países da américa latina, dentre eles, Cuba, Brasil, Venezuela e todos os outros. Por este principal motivo não devemos mais pedir por intervenção militar ou AI 5, mas sim nos organizarmos nas ruas, como ocorreu no dia 15 de março, e cobrarmos os poderes para que passem a funcionar corretamente, sem chantagens políticas, favoritismos e pautas bombas que ora ou outra o Congresso aprova.

O primeiro grande motivo para não pedirmos Intervenção Militar é que chegamos ao poder, finalmente, pela democracia: temos nosso primeiro governo militar eleito por vias democráticas desde Eurico Gaspar Dutra, que foi eleito em 1946. No Brasil, não há apenas conservadores, liberais e esquerdistas, há também uma parcela imensa da população que não se dedica à política como nós que seguimos uma dessas ideologias, o que significa que, caso peçamos intervenção militar, algo que muitas dessas pessoas não gostam, podemos perder votos nas próximas eleições, visto que muitos entendem a intervenção como uma ditadura, o que tiraria a chance de deputados, senadores, vereadores, prefeitos, governadores e até futuros presidentes de direita de governarem, dado que boa parcela da população que não é simpática à ideia de um novo regime militar não votaria na direita novamente porque quer democracia e apenas ela.

Há também o fato de que um Regime Militar concentraria poderes apenas em um poder, que no caso seria o Executivo. Com Bolsonaro, sabemos que podemos ficar tranquilos, pois o homem tem se mostrado mais democrata que qualquer Presidente que já tivemos na Nova República que se assentava à mesa com ditadores socialistas, porém, temos de lembrar alguns aspectos: o primeiro deles é que Bolsonaro não governaria sozinho e um dia teria que sair e, na teoria, esse dia seria um ou dois anos depois que fosse feita uma completa limpeza no Legislativo e no Judiciário. Porém haveria o risco de Oficiais das Forças Armadas demandarem o poder e não permitirem a abertura democrática, exatamente como aconteceu em 64, com o Presidente Castelo Branco, que com seu regime saneador, demoliu boa parte dos esquemas comunistas da época, porém, a linha dura do Exército não permitiu que Castelo reabrisse o país à democracia, o que culminou em 21 anos de Regime Militar, o qual cometeu abusos contra inocentes – bem poucos, é verdade, mas ocorreram. Essa parte de nossa história valida a lição que o filósofo Lord Acton ensinara: “o poder tende a corromper e o poder absoluto, tende a corromper de forma absoluta”. Se hoje ocorrer uma intervenção militar liderada pelo presidente, o que aconteceu no passado pode acontecer de novo, o que nos faria perder o Presidente Bolsonaro além de ficarmos queimados, como ideologia política, no futuro, podendo ter novamente 30 anos de esquerda no poder, a mesma esquerda que jogou o Brasil na crise econômica, cultural, ética e moral que vivemos hoje.

Ademais, o Exército brasileiro possui uma mentalidade completamente estatizante e anti mercado, que é o pensamento econômico hegemônico que vigorou no Brasil desde Getúlio Vargas, que se resume em criar empresas estatais (que favorecem a corrupção), criar regulações que impedem novas empresas de virem para o Brasil, formando oligopólios; criar uma grande quantidade de impostos que o povo não aguenta mais pagar para financiar o estado etc. Todas essas políticas vão na contramão do que Bolsonaro e Guedes têm feito com a economia de mercado, que é a favor das privatizações, pois, assim, as empresas estatais passam a ser mais bem geridas e quando dão prejuízos o povo não paga; diminuição da burocracia, como a MP da liberdade econômica, que desburocratizou bastante a forma de fazer negócios no Brasil para pequenas e micro empresas; redução de impostos, pois o indivíduo sabe como gastar seu dinheiro melhor que o estado etc. Foram essas as políticas econômicas que fizeram sucesso no Chile, quando Augusto Pinochet governou e, por este motivo, o Chile iria ganhar o status de único país de primeiro mundo da América Latina, algo que pode não acontecer desde que a esquerda começou a fazer baderna no país.

Ao pedir intervenção militar, transferimos nossa responsabilidade como cidadãos, de realizar o controle político, ficando mais uma vez refém do estado, nos esquecendo que o poder emana de nós e somente de nós não só porque a Constituição diz em seu artigo primeiro, mas também porque há a questão da servidão voluntária proposta pelo filósofo francês Étienne de La Boétie, a qual já expliquei numa outra oportunidade, mas que basicamente levanta a questão: “da onde vem o poder de poucos sobre muitos?” e ele mesmo responde que esse poder vem de uma “servidão voluntária”, isto é, nós, os homens, nos deixamos nos dominar pelos governantes, mesmo não gostando da maioria deles, pois entendemos que a democracia é algo bom que deve ser mantido. No entanto, a servidão voluntária não é absoluta e tem limites: uma vez que ela começa a ser provocada pelas autoridades que praticam abuso de poder, ela tende a se manifestar negativamente, se rebelando, e é isso que o povo brasileiro precisa fazer: as manifestações do dia 15 foram um sucesso, pois em plena pandemia de corona vírus, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra os desmandos do Congresso e do Supremo Tribunal Federal, para lembra-los que eles é que estão subordinados a nós e não nós a eles. Provocar a rebelião da servidão voluntária levou a diversas mudanças profundas no mundo inteiro, como a Revolução Francesa, Revolução Gloriosa (na Inglaterra), Independência dos Estados Unidos, Primavera Árabe no Oriente etc. Com isso, fica refutada aquela falácia muito ouvida nas redes sociais que diz que “não adianta irmos às ruas, eles não vão ouvir a gente”. Se você acha que eles, deputados e ministros do STF, não irão te ouvir, grite mais alto. Se todos fizermos isso, uma hora eles irão ter que escutar e atender aos nossos anseios, pois políticos gostam do status quo, isto é, gostam de estarem onde estão, com as mordomias, sem o povo encher o saco. Uma vez que o povo comece a perturbá-los, eles tenderão a ouvir-nos para que não tomemos atitudes bárbaras que ameacem o status deles.

Pode-se, ainda, argumentar que “o Brasil não aguenta mais 2 anos de Maia, Alcolumbre e STF”. Mentira, até porque esse argumento não é embasado em nada além de carga emocional. O Brasil nada mais é do que o território delimitado com um conjunto de leis. Essa é a definição de estado, logo, quem sofre não é “o Brasil”, mas sim quem mora nele, isto é, os brasileiros, que são os donos do poder e que devem exercer o direito de pedir o poder de volta àqueles que não estão representando os. E os brasileiros aguentaram, até agora, 8 anos de Lula, 8 anos de FHC, 5 anos de José Sarney, quase 20 anos de Getúlio Vargas, 2 anos de João Goulart e, claro, 6 anos e meio da “mulher sapiens”, Dilma Rousseff. Um povo que sobrevive às situações criadas por pessoas com a mentalidade desses homens e mulher aguenta qualquer coisa, porém, se não acreditar em seu compromisso patriótico, de nada adiantará. Por isso que a Constituição diz que o poder emana do povo, não do Exército. O Exército que tem de lutar agora, em 2020, contra as tiranias, não são os militares fardados, pois eles já deram a sua contribuição no passado e se fizerem agora, além das consequências apresentadas acima, teremos um problema de desemprego, visto que será gerada mais insegurança jurídica por concentrar todo o poder político capaz de oprimir o poder econômico do mercado nas mãos de uma única instituição que poderá corrompe-lo. Por isso, o Exército de agora, que é o povo, deve carregar consigo o dever patriótico e a esperança de um futuro melhor para nós, nossos filhos e nossos netos, pois já dizia (não nesse contexto, mas adaptando) o apóstolo Paulo: agora, pois, mantenham a fé, a esperança e o amor. A fé de que temos poder para mudar as coisas. A esperança de que vamos conseguir mudar. E o amor pela Pátria a qual vivemos.

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Maria Souza
Maria Souza
1 ano atrás

EXCELENTE.

Solange
Solange
1 ano atrás

Puxa! Parabéns! Sábias palavras… ?????????????????

Moisés
Moisés(@junimosart)
1 ano atrás

Muito bom!!! Só a parte que vc diz que o exercito cometeu abusos contra inocentes que não concordo. Mas em todo caso, o texto é excelente.

João Carlos Sainz
João Carlos Sainz
1 ano atrás

Tudo muito coerente e até irreprimível, ainda que um tanto utópico e para o longo prazo , supondo que tenhamos mais um mandato de Bolsonaro e que ele faça seu sucessor para 2.027 também para 02 mandatos.
A verdade é que com a atual Constituição em vigor o saneamento das Instituições é utópica .
Os Poderes estão putrefatos com perpetuações criminosas de grande parte das pessoas que se encastelaram na máquina deste mecanismo agigantado