Prezado rapaz.

Certamente tenho idade para ser sua mãe, e se a fosse, estaria muito preocupada agora e me perguntando “onde foi que errei?”

Seu artigo sobre as Tias do Zap causou bastante alvoroço e eu, que raramente o leio, à exceção de algumas postagens suas no Twitter, me senti na obrigação de saber o quê, afinal, você tinha a dizer sobre essas “velhinhas” que usam redes sociais. Confesso que, depois, tive vontade de “desler, mas aí já era tarde.

O texto diz muito mais sobre o autor do que sobre os personagens que tenta “analisar”. O interessante é que você não está só. Outros jovens fazem coro consigo, em microfones e linhas escritas. Esse fato, porém, esconde um fenômeno irrelevante e que não vale qualquer análise. Simplesmente passará, sem deixar rastros.

Mas, já que li tal coletânea de palavras, chavões e deduções bem preconceituosas sobre pessoas como eu, tenho o direito de responder aos seus argumentos.

Além de nos aglutinar no que chamou de “patota”, você diz que, por definição, os idosos deveriam ser mais prudentes e cautelosos, numa sutil insinuação de que nosso lugar é em casa, quietos e mansos.

“Por definição” de quem, cara-pálida? Sua?

Medimos o mundo pela régua da nossa história de vida. Minha mãe tem 90 anos, é uma mulher lúcida e inteligente, tem pouquíssimos cabelos brancos e, com certeza, levaria você a nocaute em uma discussão sobre política, comportamento, religião e fatos históricos. Com um detalhe importante: não é nenhuma erudita. Sempre foi mãe, esposa, dona de casa e autodidata. Minha avó não era diferente. Esse é o meu “background” e é por ele que meço o mundo. Portanto, no meu universo, por definição, os idosos dos séculos 20 e 21 são pessoas antenadas, informadas, com opinião própria e fundamentada, independentes e muito ciosas de valores e princípios.

Por definição, principalmente as senhoras que, até hoje (estejam vivas ou mortas), me ensinam, orientam e alimentam o meu imaginário não admitem limitar suas vidas aos cuidados com netinhos, tricôs, crochês, “fofoca” com os padres da paróquia (algo que nunca fizeram), bingos e tardes de carteado. Menos ainda a novelas, programas televisivos emburrecedores ou leituras “água com açúcar”. Na última visita que fiz à minha mãe, ela estava lendo “O Piloto de Hitler”. E não, esse cenário não se restringe a familiares. Você há de convir que minha mãe não teria amizades diametralmente opostas a ela. O círculo de senhoras que não se encaixam na sua descrição canhestra de “velhos” é bem mais amplo do que você gostaria.

Na sequência, você questiona se não deveríamos “usar toda a experiência dos nossos cabelos brancos para rechaçar soluções mágicas, apressadas, utópicas, revolucionárias”.

Mas é exatamente isso que estamos fazendo. Estamos usando nossa experiência de vida para lutar e rechaçar soluções mágicas, apressadas, utópicas, revolucionárias. Não as queremos mais! Assistimos a décadas de promessas salvadoras e só vimos a Nação afundar em subdesenvolvimento, roubalheira, corrupção, crimes, desemprego, confisco do nosso dinheiro, baixíssima qualidade de ensino, precariedade máxima na saúde pública, redução drástica de oportunidades.

É a nossa prudência e cautela, rapaz, que nos leva às ruas e nos mantém no ativismo em rede social. A única verdade da sua narrativa é que hoje temos as redes sociais como instrumento e ferramenta. E a menos que você apoie as manobras de amordaçamento e contribua para nos calar, estaremos presentes nas redes sociais ainda por muito tempo. Nas ruas também.

Sim, muitos de nós estavam nas fileiras da juventude “revolucionária” dos anos 1960, e é graças a nós que você vive no mundo como ele é hoje. Sim, fomos autores de muitas das mudanças que fomentaram o avanço em diversas esferas da vida em sociedade, mas também cometemos erros. E os assumimos; alguns, estamos tentando corrigir.

Dizer que éramos rebeldes sem causa e que trouxemos, para a maturidade, o vácuo de valores é, além de leviano e desrespeitoso, demonstração da mais absoluta falta de conhecimento. Se não percebeu, olhe de novo e, em vez de ver, tente enxergar: são valores que hoje nos levam às ruas (assim como foram valores e princípios que nos motivaram na juventude revolucionária). São valores que continuarão nos levando às ruas quantas vezes forem necessárias. Se há vácuo, não está em nós.

Para ser justa, devo agradecer sua enorme condescendência em nos permitir o sentimento de indignação com todas as tentativas (já feitas e em curso) para asfixiar a Lava-Jato e desqualificar Sérgio Moro. Ao menos isso, você considerou que podemos sentir. Então, obrigada por ser tão bonzinho.

De tudo o que você escreveu no seu artigo, inclusive dando a si mesmo o beneplácito de ser injusto ao generalizar – afinal, toda análise sociológica é uma generalização –, há dois aspectos que considero os mais graves em termos de leviandade e desrespeito (claro, insinuar que quem não cabe na sua análise é exceção, e por isso compõe um número inexpressivo de indivíduos, é tão pernóstico quanto considerar que seu artigo tem o peso de uma análise sociológica, mas não, isso é vergonha sua, apenas).

Um dos aspectos mais perniciosos está neste trecho: “em muitos casos, se trata da busca por um sentido para a vida“. Deixe-me esclarecer o escárnio da sua narrativa. Você nos condena – a todos nós que temos mais de 60 anos – ao ostracismo da espera pela morte. Nossa vida já não tem um sentido, estamos vazios e à procura de “adrenalina pura”. Não somos mais produtivos. Não temos sonhos, nem metas, nem planos. Não temos mais vaidade, alegria e/ou paixões. Somos meros recipientes (foscos e murchos) de alguma sabedoria trazida pelos anos vividos, mas que talvez nem seja muito relevante. Somos tão somente um corpo que olha e inveja a vitalidade e a vivacidade dos mais jovens. Somos seres depressivos, e talvez um tanto dementes pela senilidade, que se infantilizam ao agir como mocinhas e ao se recusar a permanecer em estado contemplativo na cadeira de balanço.

Tenho 61 anos. Sou jornalista por formação acadêmica e experiência prática, hoje aposentada. Sou tradutora técnica e literária em 3 idiomas de origem (inglês, espanhol, francês). Iniciei, há dois anos, um empreendimento de marketing digital, e nele trabalho diariamente. Adoro viajar. Leio muito, e não só livros de ficção, mas também. Nunca parei de estudar, nunca. Meu lazer diário é assistir a filmes ou documentários. TV aberta, não mais. Gosto de música e de dançar. Amo conversar com meus afilhados, cuja cultura e “background” de valores ajudei a formar, e eles me orgulham. São seres pensantes que se recusam a ser bichinhos de presépio. Tenho amigos, não muitos. Seletiva por natureza, prezo mais a qualidade do que a quantidade. Conhecidos não contam, são apenas isso.. conhecidos. Faço ativismo político nas redes sociais e fora delas. Tenho plena consciência da ideologia que defendo e pela qual luto. Defino meu posicionamento político, hoje, como apoiadora de um Presidente da República que não é perfeito, mas que está tentando fazer o que NENHUM tentou. E saiba que o apoio não porque penso como ele – “just the other way around”, é porque ele pensa como eu. Sou vaidosa, sim, mas com as vantagens que a sabedoria traz. Ah! e uso batom vermelho. Adoro!

Em resumo: o único lugar em que você NÃO me encontrará é na cadeira de balanço, à espera da morte.

De novo, não estou sozinha. Não sou um caso isolado. Você há de convir que eu não teria amizades diametralmente opostas a mim.

O segundo aspecto mais espúrio do seu artigo é o reducionismo com claras pretensões desqualificadoras. Suas pretensões seriam irrelevantes, não fosse o grave prejuízo (proposital, na intenção) que causa aos desavisados. Ouça suas próprias palavras: “Talvez frequentar os bingos seja uma alternativa melhor mesmo, do ponto de vista hedonista; sem falar de passar mais tempo com os netinhos e com Deus, a verdadeira solução conservadora”…

Leviano, sim, mas ignorante você não é. Inculto talvez seja a qualificação mais adequada. Do ponto de vista hedonista, garanto que, para mim e para a grande maioria das Tias do Zap, bingos jamais seriam uma solução. E insinuar que netinhos e Deus resumem a verdadeira solução conservadora é patético. Família e Deus são, sim, parte indissolúvel do conservadorismo, mas isso não o reduz a vovós carolas. Usar parte da verdade para desqualificá-la no todo, só canalhas o fazem.

Com muito orgulho e determinação, e plena de sentido na minha vida, assino.

Tia do Zap

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44 Comentários

  1. Sensacional! Não conseguiria escrever com tanta profundidade! Compartilho da indignação do texto do Constatino, pois sou tb Tia do Zap e politicamente incorreta!

    • Parabéns …com certeza o jovem não leu…e se por acaso tenha lido deveria tomar vergonha na cara é pedir no mínimo desculpas..não é da índole dele ler e pedir desculpas.

    • A amiga Terezinha disse que foi tapa de pelica.
      Pra mim foi um soco no estômago e um chute no saco. Amei cada consideração.

  2. Maravilhoso!Tenho 65 anos,feitos hoje,sou aposentada,trabalho,emprego formal à noite e produzo doces muito bons que garantem mais uma pequena renda,Não perco manifestação,desde 2012!

  3. Nem precisa de comentários, assino embaixo, deu-me um orgulho imenso ler e “sentir” nos dedos o q penso e sinto como se tivesse sido eu a digitar , parabéns, quanto a esse rapaz a algum tempo me choca suas “mensagens” então prefiro não lê-las parabéns tia do ZAP, me integro ao grupo bjo no 💓

  4. eu faço parte desta TIARADA, em cima e bem montado nos meus 68 anos, faço minhas as palavras de minha agora amicíssima Tia do Zap, faço questão de procurar no leito do texto o local onde possa assinar em apoio incondicional. Fico feliz de pertencer a esta geração, Esta que está formando contra corrente do Politicamente correto, outra geração consciente. Parabéns a nós. J.Torquato O Alagoano

  5. Ótima resposta ao Rodrigo Constantino por seu deprimente, desrespeitoso e ignorante artigo sobre as tias do ZAP e concluo afirmando que esse artigo, que jamais deveria ter sido publicado, reforça o apelido que lhe foi dado pelo querido professor Olavo de Carvalho.
    Outra titia do zap

  6. Ótima resposta ao Rodrigo Constantino por seu deprimente, desrespeitoso e ignorante artigo sobre as tias do ZAP, e concluo afirmando que esse artigo que jamais deveria ter sido publicado reforça o apelido que lhe foi dado pelo querido professor Olavo de Carvalho.

  7. Parabéns pelo texto Tia do Zap!
    O maior ignorante é a pessoa que supõe, que detém a verdade sobre o outro, quando na verdade não o conhece, afinal a sua capacidade imaginária sobre o outro, se restringe e é delimitada pela sua própria realidade e leitura de mundo, a qual foi mal e porcamente representada no tal texto escrito por ele.
    Apenas mais um analfabeto funcional, que ao falar palavras rebuscadas acredita que impressiona, ainda que com falácias.

  8. Como sou uma das tias do ZAP dificilmente encontraria uma defensora a altura. O BRASIL hoje tem outra cara só não vê quem tem dificuldades de lavar a sua. Viva as tias do ZAP.

  9. Tia, sou 3 anos mais velha que você, mas igualzinha. Parabéns! Constantino acha que não há diferença entre zero à direita ou à esquerda. Será que ele vai entender Isso?

  10. Parabéns a tia do SAP vc nos representa ,disse tudo que gostaríamos de dizer 👏👏👏👏👏👏👏💪💪💪

  11. Maravilhoso. Colocou o ex formador de opinião no seu devido lugar. Na insignificância e relevância que merece. Viva as tias do zap, que deixaram de ser doutrinadas por “intelectuais” da tv e palpiteiros da mídia jornalística.

  12. Que prazer imenso ler sua resposta! Parabéns pela capacidade incrível de ser objetiva, direta, refinada e deliciosamente irônica…tratamento que esse garoto merece… Não li o tal do Constantino, nem pretendo ler. Mas agradeço muito a ele por ter construído a ocasião para inspirá-la e estimulá-la a fazer essa apresentação das tias do zap. Parece que sou a mais velha por aqui…com as pontas dos pés nos 70. Continuo viva, dinâmica, estudo, pesquiso, produzo conhecimento, socializo, acompanho a história sócio-político-econômica de nosso país, e dos demais também..assim como sou fascinada por observar e compreender, sócio-historicamente, as semelhanças e diferenças entre seres humanos (e também, porque não, entre os desumanos) nas diferentes culturas. Desde os 18 anos viajo muito e busco sempre a compreensão crítica da configuração das diferentes organizações sociais, modelos políticos, relações interpessoais… tudo isso nos livros, estudos E em observações “in loco”…sou mãe de três filhos, avó de três netas…desculpe-me, mas que ingenuidade supor que “as tias do zap” deveriam contemplar a vida somente da cadeira de balanço (embora esse momento seja também muito prazeroso, especialmente com uma deliciosa taça de Amarone e um bom papo, ou ainda mesmo num delicioso momento de solitude, sim). Há muita vida para se viver, tarefas a desempenhar, contribuições a dar, meu filho! Tente evitar fazer a leitura da realidade por parâmetros pobres e limitados…Talvez um dia você possa ser beneficiado pela vida e possa também experimentar um pouco da paz e do centramento que embala a complexa e rica vida de “tios do zap”!

  13. Sensacional. Estou perto dos 60 anos, me sinto representada pelas palavras da Tia do Zap, aliás, me vi nelas.
    Constantino meu filho, cresça e apareça!!!

  14. Olhe, caminho para os 72 anos, micro empresário estafado de lutas contra o Brasil, vovô de 3 netos lindos, esse senhor “constantino” me parece ser da mesma linha “tio rei”, “veragralha”, “prof.pasquale”, e tantos outros isentões q em nada contribuem para o aperfeiçoamento político querem nos colocar de pijamas defronte a uma TV assistindo as mentiras do “jornal nacional”, da “globonews” e lendo folha,estadão (já fui leitor em outra situação)…o mundo mudou, nós os idosos mudamos e eles continuam subjugados pelos bancos das faculdades deles…abraço a voce. (nem vou comentar do conhecimento técnico q a maioria dos idosos tem…esse moço é um leviano)

  15. Parabéns!!!! Foi muito bem tia do zap!!! Esta é uma nova geração de senhoras como eu que estão fazendo muito diferente, e com a experiência adquirida com as vivências, fazendo e construindo valores e um mundo melhor!!! Viva as tias do zap.!!!

  16. Parabens çela respista este desavusado. Que não sabe e não tem o que escrever e falar. Deverua estudar mais. E aprender fom as tias do zap

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