Em todos os países do mundo, sempre há uma filtragem muito grande de informações, que são retidas até chegar na população, sendo a imprensa a grande responsável por isso na maioria esmagadora das vezes. Os fatores que explicam esse fenômeno são vários, mas certamente os principais são os interesses jornalísticos ou ideológicos por trás e a disponibilidade da informação, sendo este último para nós, no Ocidente, um problema quando se trata do Oriente, dominado por ditaduras e por democracias falsificadas.

Desta forma, então, é que quase nunca ouvimos falar do que acontece na Rússia e nem de suas teorias políticas, como a Quarta Teoria Política e a Multipolaridade, teses do cientista político e guru do presidente da Rússia Aleksandr Dugin, cujo objetivo é oferecer uma nova perspectiva política para se compreender o mundo. Vamos, neste artigo, buscar ter uma compreensão sobre estas teorias políticas e entender como elas influenciam e influenciarão o mundo ao longo dos anos.

O estudo de Dugin foca em buscar na filosofia de Martin Heidegger, um filósofo nazista, como o patriotismo russo pôde rivalizar com os Estados Unidos e como a Rússia pode voltar a ter um grande protagonismo no mundo. Para tal, ele vai elaborar a Quarta Teoria Política e a tese da Multipolaridade com base na ideia de ser-existente de Heidegger, também conhecida como dasein, que diz que, como seres humanos, nós não somos independentes de nossa existência, e ela não é independente de nós.

Por isso, não podemos enxergar o mundo acima de nós, já que estamos submetidos à condição de ser humano para interpretá-lo. Com isso, somos a última instância a que podemos recorrer, o que torna impossível para nós acessar qualquer objeto metafísico que nos transcenda, já que estamos limitados a interpretar apenas a existência que vivemos como seres humanos.

Em outras palavras, o dasein é a ideia de fundamento da pessoa em si, antes dela se tornar um sujeito em essência com suas características físicas, emoções e consciência. É o que Heidegger chamava de “a raiz do nosso ser”. Para existirmos como pessoas, no entanto, não basta haver apenas o fundamento da existência, precisamos também da ideia de ser construído, que são nossas características físicas, emoções e consciência. A partir da junção dessas duas entidades passamos a existir como pessoas, logo, esta dialética dos dois seres gera algo novo, a saber, a pessoa em sua essência.

Sob a ótica do dasein, Dugin vai elaborar a tese da multipolaridade: diz ele que na época da Guerra Fria, o mundo vivia uma bipolaridade entre EUA e União Soviética (URSS), em que um moldava o outro e vice-versa, o que faz sentido se observarmos eventos como a corrida armamentista, em que os EUA, pautados pela URSS, corria atrás de armas para superá-la, à medida em que a extinta União das Repúblicas Socialistas Soviéticas fazia o mesmo, já que estava pautada pelos EUA. A conclusão que Dugin vai chegar sobre esta ideia de polos é que um país molda o outro e, como a Guerra Fria acabou, agora é necessário que haja a multipolaridade, pois, desta forma, não há só os EUA pautando a Rússia, mas sim vários países, o que pode ser benéfico para ela.

Exemplo: é interessante para a Rússia o terrorismo climático que a União Europeia faz, porque isso aumentou a dependência do gás que ela fornece para a Europa, que entregou boa parte da matriz energética europeia para um país ditatorial, cujo presidente já deixou claro que, diferente do que os ecoterroristas da União Europeia pensam, a mudança climática não é uma ameaça à paz e à segurança mundial. É interessante para a Rússia que os Estados Unidos continuem nesta situação de decadência moral, com pessoas “sem gênero” e a propagação de teorias gramscistas, como a “critical race theory”, que diz que todos os males dos EUA são culpa dos brancos, porque isto enfraquece o que já foi o maior adversário do país do Putin.

A ideia dialética do dasein entra na relação da Rússia com os EUA, da Rússia com a Europa e assim por diante e destas relações, algo novo surge, sendo este algo geralmente benéfico para a Rússia, como no caso da relação com a Europa, dos ecoterroristas que entregaram a matriz energética do continente para o Putin, que pode subir o preço do gás a seu bel prazer, ou no caso da decadência moral dos Estados Unidos, que ninguém sabe onde vai dar, ao passo que a Rússia preserva seus valores, ou, ainda, com as alianças chinesas, das quais a Rússia se beneficia em certa medida também.

A tese da multipolaridade associada ao dasein vai, finalmente, culminar na Quarta Teoria Política, que basicamente diz que as 3 grandes ideologias ocidentais, a saber, liberalismo, comunismo e fascismo, fracassaram e estão sumindo do mundo por causa disso: o fascismo acabou em 1945, com a derrota do nazismo, o comunismo tradicional, embora ainda exista em Cuba e Coreia do Norte, está morrendo aos poucos, e o liberalismo, embora seja o que mais perdurou dentre as 3, está passando por uma crise. A ideia da quarta teoria política é oferecer um novo modelo que vai além destas ideologias ao mesmo tempo que, de forma dialética, é influenciada por elas, com a eliminação da ideia de que a ideologia em si vai trazer necessariamente um progresso humano, como acreditavam essas ideologias ocidentais, por isso, o foco dela não é no indivíduo, como acreditam os liberais, nem nas classes, como acreditam os comunistas, nem no Estado ou na raça, como acreditavam os nazi-fascistas, mas sim no dasein, que é o ser existente, que para Heidegger é o fundamento da existência humana, a raiz do nosso ser, que uma vez combinada com o ser construído, dá origem aos indivíduos concretos. Note que não se trata de uma ideologia como o liberalismo, que foca no indivíduo, que é o ser concreto, mas sim na concepção pré-indivíduo.

Segundo Dugin, a quarta teoria é uma resposta contra a desumanização do mundo que vem sendo promovida ao longo dos anos pelas ideologias ocidentais. O liberalismo torna os indivíduos fúteis ao enxergá-los apenas sob a ótica da propriedade e das relações econômicas, esquecendo-se da essência humana, conduzindo a uma concepção meramente materialista da humanidade; o comunismo e o fascismo prometeram o paraíso na terra, mas conseguiram ser piores do que o liberalismo nesta busca, pois aceleraram o processo de destruição em massa da humanidade e ao invés do paraíso, entregaram uma pilha de corpos, novamente esquecendo-se da essência humana, sem contar as crises geradas por fome, miséria, perseguição política, dentre outros problemas. Assim, surge a Quarta Teoria, para tentar buscar um caminho diferente dessas ideologias e verificar um modo de restaurar a humanidade.

Dentre as pautas desta teoria proposta pelo filósofo russo, que já debateu ela com Olavo de Carvalho, estão o apoio à reforma agrária, oposição à privatização de empresas estatais (as consideradas “estratégicas”), críticas ao domínio econômico dos Estados Unidos e da União Europeia, crítica ao ateísmo, crítica ao materialismo marxista, ao racismo, etc.

Além disso, ela prega o fim da dicotomia esquerda-direita, que já está ultrapassada, para unir forças contra o liberalismo, a qual entende como a ideologia mais perversa, e contra o mundo ocidental em si. Há quem acredite que esta teoria foi pensada por um filósofo russo para ser aplicada na Rússia, logo, temos que entender o contexto que este país sempre viveu para compreendermos a quarta teoria de fato.

Nunca em sua história a Rússia teve uma experiência democrática, pois quando a monarquia absolutista caiu, instaurou-se o governo comunista, que perdurou por praticamente 70 anos e não tinha nada de democrático, embora alguns teóricos comunistas tentem nos fazer acreditar que isso seja mentira. Logo após o comunismo, o que se vê surgir é um estado russo oligárquico, comandado de 1991 a 1999 por Boris Iéltsin e depois disso, até hoje, por Vladmir Putin, que é quem realmente manda no país apesar do parlamento.

Ademais, a quarta teoria política pode parecer um meio eficaz ao reagir contra os males do liberalismo, comunismo e fascismo, no entanto, ela tem um grande problema: segundo a ideia de dasein, nós não somos independentes, como seres humanos, da nossa existência e a existência também não é independente de nós, isto é, o ser-existente e o ser construído são dependentes um do outro. Pelo fato de o ser construído ser dependente apenas do ser existente e o ser existente ser dependente apenas do ser construído, você não pode enxergar o mundo que está acima de si mesmo, fazendo com que você esteja sempre submetido à condição de ser humano para interpretar a realidade em que vive, que não passa de uma mera interpretação sua. Ou seja, você é um subconjunto da existência e não consegue interpretá-la em sua totalidade, já que ela é um conjunto que está acima de você, o que te impede de alcançar certas virtudes, como a moral e a justiça, que deixam de ser objetivas e passam a ser de interpretação dos homens, além, é claro, de impedir a ligação com Deus, já que, segundo o dasein, estamos limitados à nossa realidade e a realidade de Deus, logicamente, está em outro plano.

A título de conclusão, podemos entender a Quarta Teoria Política como uma tentativa de superar de fato as ideologias desastrosas do Ocidente, no entanto, o que parecem flores, pode se converter em espinhos, visto que sabemos os limites do liberalismo, do fascismo e do comunismo, mas não sabemos os da quarta teoria, que por ignorar aspectos metafísicos, é um grande risco para o Ocidente, que tem entre suas bases fundadoras a ideia de Deus. Também não podemos dizer que a Rússia segue 100% a quarta teoria devido aos conflitos com a Ucrânia, já que a tese do Dugin é necessariamente anti-imperialista.

Por outro lado, podemos perceber que a tese da Multipolaridade já é uma realidade na Rússia, no entanto raramente vemos este tema nas capas dos jornais ou nas aulas de Ciência Política nas Universidades. Válido mencionar que, embora sejam formas de compreender o mundo, é sempre necessário tomar cuidado com a aderência a ideologias desconhecidas, pois elas podem deixar marcas eternas numa sociedade, como ocorreu em Cuba e na Coreia do Norte, exemplos de países devastados pela pior das ideologias do Ocidente: o comunismo.

 

 

Vinicius Mariano, para Vida Destra, 24/01/2022.
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