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Sam Harris, fundamentalista religioso

 

O anti-Trumpismo de terra arrasada propagado por Harris é tão insano quanto qualquer seita religiosa.

 

Fonte: Spiked online

Título original: Sam Harris, religious fundamentalist

Link para a matéria original: aqui!

Publicado em 22 de agosto de 2022

 

Autor: Brendan O’Neill

 

Durante anos, Sam Harris construiu sua autoimagem de um guerreiro ateu da razão. Ele é um dos ateus ocidentais mais famosos. Raramente perde a oportunidade de desprezar a religião e insistir que a investigação fria, racional e idealmente científica é sempre preferível à crença dogmática. Aparentemente, agora ele mudou de ideia. Não, ele não foi batizado na fé cristã nem jurou fidelidade ao Profeta Maomé. Mas surgiu como membro de um culto moderno que é tão rabugento quanto qualquer seita religiosa. Conheça o novo Sam Harris, devoto da doutrina fundamentalista do anti-Trumpismo.

Harris causou uma grande celeuma com os comentários que fez aos amigos da Spiked, no podcast Triggernometry. Ele disse aos perplexos [apresentadores] Konstantin Kisin e Francis Foster que era justificável o fato de a elite midiática ter suprimido a história do laptop de Hunter Biden, porque era preciso fazer de tudo para impedir a vitória de Trump em um segundo mandato. No sinistro cancelamento, pelas Big Techs, da história do New York Post sobre o laptop, em outubro de 2020 – quando usuários da mídia social foram impedidos de compartilhar a reportagem do Post e o próprio Post teve excluída sua conta no Twitter – Harris reconhece que muitos veem nisso uma “conspiração da esquerda para impedir a eleição presidencial de Donald Trump”. E foi, diz ele (“de fato, foi assim”), mas “acho que foi legítimo”. Por que? Porque Trump é “uma ameaça à existência da nossa democracia”, diz ele, e era necessário fazer de tudo para expulsá-lo da Casa Branca.

Ou seja, às vezes, a eliminação dogmática da livre investigação é aceitável. Harris ataca a religião com base no argumento de que ela é “prejudicial às normas do discurso civil“. E, no entanto, aqui está ele, o Sr. Novo Ateu, o Sr. Inquérito Racional, sendo prejudicial às normas do discurso civil. ‘O verdadeiro diálogo exige a predisposição para mudar as próprias crenças sobre a realidade, através da conversa”, disse Harris há alguns anos. Essa ‘investigação’ é ‘a própria antítese do dogmatismo’, afirmou. Que mudança! Agora ele comemora a total destruição da investigação, a proibição pela classe bilionária ao “verdadeiro diálogo” sobre o laptop de Hunter Biden, a fim de proteger o que equivale a uma crença dogmática: ou seja, que Trump é o diabo da era democrática.

Harris também parece ter abandonado seu antigo amor pela comprovação [de fatos]. Nenhuma descoberta, nenhuma revelação, nenhuma verdade exposta sobre o laptop de Hunter teria sido suficiente para demovê-lo de sua convicção doutrinária de que suprimir a história do laptop era justificável, diz ele. ‘Não dou a mínima para o que contém o laptop de Hunter Biden’, disse ao Triggernometry. E insistiu que ‘nada’ do que Hunter Biden pudesse ter feito seria capaz de mudar sua opinião sobre usar todos os meios necessários para remover Trump do poder. Mesmo que o laptop contivesse verdades sobre ‘o escopo da corrupção de Joe Biden’, ainda assim ele não teria desistido de sua crença – neste caso, sua crença de que Trump tinha que ser derrubado para salvar a democracia americana. Harris parece ter se tornado exatamente aquilo que odeia: alguém cujas crenças são imunes às verdades recém-descobertas. Até mesmo São Tomé foi receptivo a novas informações para dissipar suas dúvidas quanto à realidade carnal das chagas de Cristo ressuscitado. Não Sam Harris. O Sam Convicto parece ter muito pouco da disponibilidade do Tomé Incrédulo.

Em uma ironia extraordinária, Harris disse inclusive que ‘àquela altura [dos acontecimentos], Hunter Biden literalmente podia ter corpos de crianças no porão. Eu não me importaria’. Há, curiosamente, algo de Antigo Testamento nisto, algo quase abraâmico: sacrificar hipoteticamente crianças (ou pelo menos sacrificar a oportunidade de recuperar cadáveres de crianças) a uma grande causa moral, que tudo consome – realmente, Harris passou pela mais surpreendente das conversões! Do defender a razão para o submeter-se a uma cegueira similar à do Gênesis; do usar o debate e a ciência para desvendar a verdade para o esconder alegremente as verdades – mesmo que hipoteticamente sombrias e criminosas –, a fim de preservar sua cruzada moral. Todos aqueles Novos Ateus dos anos 2000 tagarelando sobre a santidade da investigação para, depois, renegarem tudo em nome da derrubada do Homem Laranja Malvado.

Há duas coisas realmente impressionantes na confissão de Harris de que ele apoiou a censura e o autoritarismo desencadeados contra a história do laptop de Hunter. A primeira é a ironia de os anti-Trump alegarem ser os defensores da democracia mesmo quando aderem à cruzada cada vez mais antidemocrática contra Trump. Liberdade de imprensa, liberdade de expressão e o direito de saber o máximo possível sobre as pessoas que se candidatam nas eleições são essenciais à democracia. Mesmo assim, Harris e outros detratores dogmáticos de Trump, incluindo os capitalistas partidários do Vale do Silício, ficaram felizes em ver essas coisas suspensas no período que antecedeu as eleições de 2020. Como Konstantin Kisin diz a Harris, ele está essencialmente apoiando uma trama para “destruir a democracia no processo de protegê-la”.

A segunda coisa é o quão tresloucado e destrutivo se tornou o anti-Trumpismo. Veja, você pode ser pró-Trump ou anti-Trump – e tudo bem! Ambos são posições inteiramente legítimas na vida pública americana. Mas agora há claramente um credo do anti-Trumpismo elitista que vai muito além do posicionamento normal e da argumentação inerentes ao processo democrático, e que, em vez disso, se tornou uma obsessão sectária com a suposta ameaça sem precedentes que o Homem Laranja representaria para a América e para o mundo. De fato, Harris compara um segundo mandato de Trump a um “asteroide que se precipita em direção à Terra”. Isto é, seria um evento destruidor do planeta, um apocalipse, uma questão de Fim dos Tempos. Alguns fundamentalistas religiosos preveem inundações e incêndios; esse Novo Ateu que odeia Trump se apavora por causa de um evento cataclísmico ao estilo de um asteroide. Quer Trump seja descrito como o novo Hitler, ou o pior presidente americano de todos os tempos, ou um asteroide feito de carne e osso – quanto mais a ameaça de Trump é apregoada e loucamente exagerada, mais se pode justificar qualquer medida para mantê-lo fora do cargo. Inclusive medidas intolerantes, antidemocráticas e dogmáticas, tais como aquelas que vimos implementadas em 2020.

Aqui está a verdade (se Harris e companhia ainda conseguem lidar com um pouco de verdade): a histeria anti-Trump, agora, representa uma ameaça muito maior à República Americana do que o Trumpismo. Considerando desde a louca teoria da conspiração do Russiagate até a invasão sem precedentes da casa de Trump, em Mar-a-Lago; desde o uso explícito da censura para defender Hunter e Joe Biden até o aparente abandono dos princípios da investigação democrática por parte dos detratores de Trump, como Sam Harris, a Trumpfobia está subvertendo os valores liberais e o debate político aberto. Todos precisam se acalmar. A democracia não pode ser sacrificada, ao estilo de Isaac, pelos pavores dogmáticos de esquerdistas perturbados.

 

*Brendan O’Neill é redator-chefe de política na Spiked e apresentador do podcast da Spiked, The Brendan O’Neill Show. Inscreva-se no podcast aqui.

 

 

Traduzido por Telma Regina Matheus, para Vida Destra, 27/08/2022.                                  Faça uma cotação e contrate meus trabalhos através do e-mail  [email protected] ou Twitter @TRMatheus

 

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WELTON REIS DOS SANTOS
30 dias atrás

Lá como cá! Por aqui a mais alta corte descondenou um político corrupto. O laptop das relações premiadas de nada serviram para a verdade. Enquanto houver tapume nos olhos de fanáticos não iremos a lugar algum.