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REPORTAGEM ESPECIAL DA REUTERS:

Sob o poder de Pequim

Título Original: Beholden to Beijing

A matéria original (em inglês) pode ser lida neste link!

Carrie Lam, liderança em Hong Kong, uma vez disse que seu papel a obrigava a servir a dois senhores – o governo de Pequim e o povo da sua cidade. Após a repressão à democracia, neste ano [2020], seus opositores disseram que, agora, ficou claro a quem ela é leal.

Por ANNE MARIE ROANTREE e JAMES POMFRET, em Hong Kong

Publicado em 28 de dezembro de 2020

 

Na sua posse como diretora-executiva de Hong Kong, em 2017, Carrie Lam prometeu unir a cidade que se mostrava cada dia mais descontente com as leis chinesas.

Lam ascendeu discretamente das fileiras do serviço civil britânico em Hong Kong, onde atuava pelo estado de direito e pelos direitos civis, para liderar sua cidade. Muita gente da cidade mais livre da China queria acreditar nela.

Em 2019, as ruas irromperam em violência quando Lam tentou, por meio de legislação, permitir extradições de supostos criminosos para a China continental, onde enfrentariam julgamento em tribunais controlados pelo Partido Comunista. Em última análise, o esforço fracassou, e a autoridade de Lam parecia estar destruída. Em 2020, porém, Lam manteve-se firme quando Pequim tentou impor mudanças bem mais drásticas – uma lei de segurança nacional que daria à China ainda mais poder para moldar a vida em Hong Kong.

O movimento de oposição a Lam, em grande parte, estava extinto. Centenas de ativistas pró-democracia fugiram para o exílio. Mais de 10.000 manifestantes tinham sido detidos. Legisladores democratas haviam sido afastados e alguns dos mais importantes ativistas da cidade estavam detidos ou presos.

Atualmente, Lam sofre ampla desaprovação de governos estrangeiros e enfrenta sanções dos Estados Unidos por sua participação no movimento de restringir liberdades políticas em Hong Kong. Ela diz que não pode sequer abrir uma conta bancária e, em entrevista recente, afirmou que é obrigada a guardar pilhas de dinheiro em casa.

Lam e o governo de Hong Kong não responderam aos questionamentos sobre a liderança de Lam. Os defensores de Lam disseram, anteriormente, que ela enfrentou bem uma situação delicada e desafiadora, restaurando a estabilidade nas ruas de Hong Kong. Em uma declaração, o governo disse, “É direito legítimo e dever de cada estado salvaguardar sua segurança nacional”. O estado de direito, afirmou, “é um valor central e a pedra angular do sucesso de Hong Kong”.

Lam resiste. Em Hong Kong, há quem acredite que ela voltou à ativa: ao superar as controvérsias relacionadas à extradição e às leis de segurança, dizem, ela pode ter preservado suficiente confiança da China, o que lhe garantirá um segundo mandato no comando da cidade, em 2022.

Esta história conta como Lam evoluiu de ativista social para líder determinada de uma cidade que está perdendo muito da autonomia que foi prometida pelo governo chinês.

 

OS PRIMEIROS ANOS

 

Ela sempre foi honesta, firmemente comprometida com seus princípios

Lee Wing-wun, freira que ensinou Lam na escola canossiana de São Francisco

 

Lam nasceu em 1957, na Hong Kong governada pelos britânicos. Filha de pai imigrante de Xangai e mãe natural de Hong Kong, que não tinha educação formal, ela era a quarta de cinco filhos. A família vivia em um pequeno apartamento em Wan Chai, um distrito comercial. O beliche de Lam também servia de escrivaninha; ela costumava se apoiar na cama de baixo e colocava os livros escolares na cama de cima. Lee Wing-wun, uma freira que ensinou Lam na Escola Canossiana de São Francisco, descreveu uma estudante direta, honesta e confiável. “Seu tom era sempre gentil”, disse Lee em biografia, no site do governo.

Lam, uma católica devota, estudou na Universidade de Hong Kong e planejava ser assistente social. Seu colega Lee Wing-tat se tornaria, mais tarde, membro do parlamento de Hong Kong. Ele se recorda de Lam como uma ativista intensamente interessada em ajudar os desfavorecidos.

Em 1979, à medida que a China se abria, estudantes de Hong Kong foram convidados a enviar uma delegação para Pequim. Ela estava entre os que viajaram. Um ponto alto da visita, de acordo com seu antigo colega Lee, foi um banquete em que estava presente um jornalista esquerdista. “Naquele tempo, Carrie não era uma conservadora. Era uma democrata, como eu”, disse Lee.

Em 1980, Lam juntou-se ao governo colonial de Hong Kong como funcionária administrativa, integrando uma elite de altos funcionários treinados em uma ampla variedade de funções e destinados a promoções. Ela concretizou sua ambição universitária em 2000, quando se tornou chefe do Departamento de Previdência Social, trabalhando com a população mais pobre da cidade. Essa conexão com a luta das pessoas comuns estava no centro do seu interesse precoce pela política.

“Meus três anos como Diretora de Previdência Social me permitiram obter um profundo conhecimento das vidas das pessoas do povo, e eu compreendo as necessidades dos desfavorecidos”, declarou Lam duas décadas depois, quando estava em campanha para assumir a liderança da cidade.

Chris Patten, o último governador britânico de Hong Kong (1992-1997), contou à Reuters que considerou que Lan seria “uma administradora muito competente”.

 

A DEVOLUÇÃO

 

A volta de Hong Kong à pátria é uma página brilhante nos anais da nação chinesa

Jiang Zemin, presidente chinês 1993-2003

 

Em uma cerimônia de despedida encharcada pela chuva, em 1º de julho de 1997, a Grã-Bretanha devolveu Hong Kong ao governo chinês, que se comprometeu a garantir as amplas liberdades, incluindo a liberdade de expressão e de reunião. Como os líderes chineses e britânicos haviam reunido 4.000 convidados em uma cerimônia requintada, uma força avançada de aproximadamente 500 soldados chineses cruzou por terra a fronteira em direção a Hong Kong. Forças da China comunista estavam, pela primeira vez, posicionadas no solo de Hong Kong.

 

A REVOLUÇÃO DOS GUARDA-CHUVAS

 

Esses problemas não foram criados pela Carrie. Ela os herdou de seus antecessores

Parlamentar Regina Ip, Hong Kong

 

A maior parte dos primeiros anos após a reincorporação foi de calmaria. Mas a cidade dava sinais de insatisfação com o governo de Pequim, como, por exemplo, a marcante manifestação pacífica que, em 2003, reuniu meio milhão de pessoas protestando contra as propostas de alteração das leis de segurança nacional.

A inquietação intensificou-se dramaticamente em 2014. Estudantes tomaram as ruas para exigir uma reforma democrática. Os guarda-chuvas, que foram usados pelos manifestantes para se protegerem de gás lacrimogêneo, rapidamente se transformaram em símbolo da causa.

A essa altura, Lam havia chegado ao segundo posto mais alto no território, Primeiro Secretário. Já de início, mostrou-se intransigente ao lidar com os manifestantes. Ela cancelou uma reunião com os líderes pró-democracia depois que eles conclamaram a intensificação da ação, caso o governo não fizesse concessões. Essa ameaça, disse ela, “estremeceu a confiança nos fundamentos de nossas tratativas e impossibilitou um diálogo construtivo”.

A Revolução dos Guarda-Chuvas fracassou em abrir caminho em Pequim.

Alguns ativistas, agora, acreditam que o fracasso ajudou a fomentar o ressentimento que explodiu nos protestos antigoverno, em 2019.

A parlamentar Regina Ip de Hong Kong, apoiadora de Pequim, tem uma visão diferente. Ela contou à Reuters que os anos de disparidade social na cidade e os preços elevados de propriedades ajudaram a alimentar a instabilidade.

 

A POSSE

 

Gradualmente, tudo começou a se mover do rosa para o vermelho durante todo o ano de 2018

Kurt Tong, cônsul-geral americano em Hong Kong, 2016-2019

 

Lam avançou no cenário global, em 2017, quando um comitê de 1.200 pessoas associadas aos legalistas de Pequim a selecionou para ser a Diretora Executiva de Hong Kong, a líder da cidade. Em um debate televisionado, antes de sua vitória, Lam prometeu: “Se a maioria da população em Hong Kong (achar) que não devo mais ser a Diretora Executiva, eu renunciarei”.

No devido tempo, pesquisas mostrariam que a maioria havia perdido a confiança nela durante os protestos de 2019 – mas Lam, com o apoio de Pequim, resistiu.

Na posse de Lam como Diretora Executiva, o presidente chinês Xi Jinping emitiu um duro aviso de que qualquer ameaça à segurança da China ou desafio ao poder do governo central “cruzaria a linha vermelha e não seria absolutamente permitido”.

Uma Lam radiante vestiu um capacete de proteção e caminhou com Xi para inspecionar a nova ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau, que liga Hong Kong à China continental, um símbolo de integração.

Em uma entrevista para a mídia local, em dezembro de 2017, Lam insistiu que não obedeceria cegamente às ordens dos líderes do Partido Comunista, em Pequim. “Ser responsável não significa ter que fazer tudo o que lhe é pedido”, declarou.

Nos meses seguintes, porém, ela enfatizou repetidamente a importância de uma maior aproximação de Hong Kong com a China, mesmo que muitos na cidade pressionassem contra a crescente influência de Pequim.

A Comissão de Assuntos Eleitorais de Hong Kong desqualificou candidatos críticos a Pequim, que não puderam concorrer na eleição para o conselho legislativo de Hong Kong. Um jornalista do Financial Times teve o visto negado depois de participar como apresentador em um evento com o líder do Partido Nacional de Hong Kong, que é pró-independência.

 

OS PROTESTOS

 

O espaço político do diretor executivo que … tem que servir a dois senhores … é muito, muito, muito limitado”

Carrie Lam, agosto de 2019

 

Apesar de apoiar a oposição local e internacionalmente, Lam tentou, no início de 2019, forçar a aceitação da lei que permitiria extradições para a China continental. Em 9 de junho, cerca de um milhão de pessoas foram às ruas protestar e, quando Lam se recusou a recuar, dois milhões estavam nas ruas em 16 de junho.

O confronto presenteou Pequim com a maior contestação popular desde os protestos de Tiananmen, em 1989. Era o começo de meses de distúrbios, alguns violentos, incluindo uma invasão do parlamento pelos manifestantes. Às vezes, o cintilante centro financeiro ficava paralisado. Hong Kong fora lançada no centro das atenções da mídia internacional e os líderes empresariais estavam preocupados.

O incentivo ao projeto de lei de extradição, que a Reuters divulgou em dezembro passado, veio originalmente de Pequim, por meio de uma poderosa entidade anti-corrupção do Partido Comunista. Lam, que insiste que o projeto de lei foi criação sua, o postergou indefinidamente em junho. Mas as manifestações continuaram com os ativistas exigindo sua retirada completa.

“Acho que o maior desafio dela era… esse incrível caminhar na corda bamba entre satisfazer Pequim e satisfazer a população de Hong Kong”, disse Kurt Tong, ex-cônsul geral americano em Hong Kong.

Em 18 de junho, Lam disse que tinha ouvido as pessoas “alto e claro”. Ainda assim, recusou-se a abandonar o projeto de lei.

Chris Patten, o último governador britânico de Hong Kong, disse que era evidente onde estava assentada a lealdade de Lam. “Ela obviamente olhava primeiro para o que lhe dizia Pequim, e não para as suas responsabilidades de assegurar o estado de direito, a separação de poderes e a autonomia de Hong Kong”, afirmou Patten. Os defensores de Lam disseram que ela era dedicada ao povo de Hong Kong.

A intensificação e a violência dos protestos cobraram um preço de Lam e de seus funcionários, contaram pessoas que a conheciam. Boa parte da raiva dos manifestantes foi direcionada para ela pessoalmente. Para muitos deles, ela havia se tornado uma pessoa desprezível em sua própria cidade.

“Era sabido que ela estava muito desgastada. Não somente ela, toda a equipe ministerial”, afirmou Ip, a parlamentar apoiada por Pequim. “Eles não eram experientes em gerenciamento de crises … e eles tinham um sério problema de comunicação com o público, com a comunidade internacional, com a mídia. Havia muitas disparidades”.

Em julho, no aniversário da devolução de Hong Kong para a China, centenas de manifestantes pilharam e destruíram os gabinetes do parlamento da cidade, pichando as paredes com grafites proclamando “anti-extradição” e exigindo que Lam renunciasse. Em agosto, cerca de 1.000 manifestantes, a maioria vestindo preto, entraram em conflito com a polícia no aeroporto internacional, levando a uma paralisação sem precedentes no terminal aeroviário.

“Dediquem um minuto para olhar para nossa cidade, nossa casa”, disse Lam, sua voz falhando, em uma coletiva de imprensa em um complexo governamental recém-fortificado. “Podemos suportar empurrá-la para o abismo e vê-la destruída?”

Um tumulto ocorreu no início de setembro de 2019, quando a Reuters divulgou que ela havia sido flagrada em áudio no mês anterior, desabafando para um grupo de empresários estrangeiros. Ela disse ao grupo que havia causado um caos “imperdoável” e que sairia, se pudesse, “fazendo um profundo pedido de desculpas”.

No dia 4 de setembro de 2019, ela retirou o projeto de lei de extradição.

 

A LEI DE SEGURANÇA NACIONAL

 

Ela faz o que Pequim manda … Ela atende o telefone. Essa é a triste realidade da vida em Hong Kong, agora

CHRIS PATTEN, ÚLTIMO GOVERNADOR DE HONG KONG

 

No início de 2020, houve uma diminuição dos protestos em Hong Kong. Em parte, devido às restrições impostas para refrear a disseminação da COVID-19. Nos bastidores, Pequim lutava para conseguir uma lei de segurança nacional para a cidade, que, dizia-se, visava restaurar a estabilidade.

Lam teve o cuidado de garantir aos investidores e ao público em geral que não havia motivos para preocupação. Ela admitiu, no entanto, não saber o que a lei exigia ou como seria aplicada. Pequim ainda não tinha revelado o texto importantíssimo do projeto de lei.

Quando a lei foi publicada no final de junho, seu alcance chocou a cidade. Os crimes de secessão, subversão do poder estatal, terrorismo e conspiração com países estrangeiros acarretavam penalidades que chegavam à prisão perpétua. Lam declarou que as medidas miravam apenas uma pequena minoria de “encrenqueiros” que ameaçavam a segurança nacional.

Folhas de papel em branco substituíram os slogans impressos, como um símbolo de resistência à lei, que foi condenada internacionalmente.

Milhares de manifestantes foram presos, incluindo os líderes ativistas Joshua Wong, Ivan Lam e Agnes Chow, por sua participação nos distúrbios de 2019.

Emissários ocidentais e asiáticos, em Hong Kong, dizem ter encontrado uma Lam cada vez mais “isolada”. Observadores mais antigos afirmam que ela ficou quase irreconhecível desde que chegou ao poder em 2017. Seu linguajar nas coletivas de imprensa e em conversações com diplomatas ocidentais está cada vez mais formal, similar a Pequim.

Uma antiga funcionária sênior do governo e colega disse que Lam tinha se distanciado. E acrescentou, “Acho que ninguém imaginou que ela ficaria assim”.

Lee, o antigo colega de classe, disse acreditar que Lam “não previu que o Partido Comunista Chinês fosse tão cruel ou totalitário”.

Uma profunda angústia agora envolve a cidade. O magnata da mídia Jimmy Lai está entre os que foram acusados com base na lei de segurança nacional. Lai foi libertado sob fiança em 23 de dezembro.

Embora as ruas de Hong Kong estejam superficialmente calmas, as divisões políticas e sociais são profundas.

Em uma entrevista para o South China Morning Post, publicada em 30 de novembro, Lam foi desafiadora. Ela disse não ter arrependimentos pelo que havia feito para restabelecer a ordem.

Um funcionário público de Pequim contou à Reuters, durante o verão, que a liderança chinesa vê poucas alternativas para Lam, no momento, como diretora executiva. Diplomatas que se encontraram com ela, nas últimas semanas, acreditam que, para Lam, o pior já passou. “Se eu fosse um homem de apostas, eu diria que há 70% de chance de ela se candidatar novamente à liderança”, afirmou um diplomata ocidental sênior.

 

Reportagem adicional de Katherine Cheng.

Sob o poder de Pequim

Por Anne Marie Roantree

Editado por Janet McBride

 

 

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