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Transumanistas se reúnem na Espanha para planejar a transformação global

 

 

Fonte: The Federalist

Título Rriginal: Transhumanists gather in Spain to plan global transformation.

Link para a matéria original: aqui!

Publicado em 15 de outubro de 2021

 

Autor: Joe Allen

 

A TransVision 2021 mostrou tecnólogos impondo suas visões radicais para o nosso futuro. Aparentemente, o público [que não tem a menor noção disso] deve ser submetido à propaganda – e não consultado.

 

Transumanismo é uma religião futurística que exalta a tecnologia como o poder maior. A meta do movimento é mesclar o homem com a máquina. Suas profecias mais extravagantes, em um primeiro momento, parecem ridículas. Isso até você levar em consideração os vertiginosos avanços em biônica, robótica, neuroprostética, realidade virtual, inteligência artificial e engenharia genética.

Figuras proeminentes se reuniram na conferência TransVision 2021, em Madri, durante o fim de semana. Ao acompanhar os eventos online, ouvi uma ampla gama de estratégias que se somam. No palco, não havia nenhum ludita [aquele que se opõe ao avanço tecnológico] ou Amish [integrante de seita religiosa que faz uso restrito da tecnologia], mas, claro, a Espanha é um percurso longo para os antiquados. Além disso, nenhum não vacinado pode cruzar legalmente a fronteira espanhola.

Os transumanistas alegam que a condição humana de ignorância, solidão, tristeza, doença, velhice e morte pode ser transcendida por meio do aperfeiçoamento de parafernálias. Muitos acreditam que o tribalismo também deva ser eliminado – talvez através de implantes cerebrais – mas essa panelinha elitista tende a ser tão convicta que os seres humanos nada terão a dizer sobre o assunto.

Suas ideias radicais não são exatamente marginais. Os mais prósperos tecnólogos do mundo aderiram implicitamente aos valores transumanos. Considere a pressão exercida por Bill Gates sobre as vacinas universais, a busca de Jeff Bezos pela “extensão da vida”, os implantes cerebrais propostos por Elon Musk, as ofensivas de Mark Zuckerberg no metaverso [realidade virtual + realidade aumentada + Internet] e os planos de Eric Schmidt para uma tecnocracia americana competindo com a China.

Se as Big Techs são a igreja estabelecida, os transumanistas são os Padres do Deserto.

O culto à singularidade

Naturalmente, o tom dominante na TransVision foi definido pelos transumanistas mais radicais: Max e Natasha More, José Cordeiro, David Wood, Jerome Glenn, Phillipe van Nedervelde, Ben Goertzel, Aubrey de Grey, Bill Faloon e, mesmo ausente, Ray Kurzweil, principal diretor de P&D do Google e fundador da Singularity University. Cada proponente tinha seu próprio ângulo, mas todos convergiam em um mito compartilhado.

Com algumas variações, os transumanistas admitem que não há nenhum Deus, somente o futuro Deus Computador. Eles acreditam que a neuroprostética permitirá a comunhão com essa divindade artificial. Acreditam que acompanhantes robotizados deverão ser normalizados. Acreditam que a tecnologia da longevidade resultará na quase imortalidade. Acreditam que a realidade virtual proporcionará uma vida que valha a pena viver. Acima de tudo, eles acreditam que a singularidade está próxima.

Segundo o Culto à Singularidade e seu profeta, Ray Kurzweil, teremos a inteligência artificial geral em 2029. Diferentemente dos algoritmos limitados que executam tarefas específicas, a AGI [artificial general intelligence] será uma cognição robusta concretizada por redes neurais muito mais rápidas do que qualquer cérebro humano.

Até 2045 (ou 2049), seremos atingidos pela singularidade – quando superinteligências artificiais superarão o intelecto humano a tal ponto que não poderemos compreender sua potência. Seres humanos puramente orgânicos serão deixados na poeira inteligente. Nossa única chance de sobrevivência no longo prazo será fundir nossas mentes e nossos corpos à Máquina Toda Poderosa – para nos tornarmos uma nova espécie pós-humana.

Nosso propósito de vida, portanto, seria garantir, enquanto ainda temos tempo, que o futuro Deus Computador seja benevolente. (Na maior parte das vezes, “benevolente” é sinônimo de “globalista esquerdista”). Os atuais sistemas de aprendizagem por máquina são desenvolvidos por programadores; depois, [os sistemas são] treinados com a nossa linguagem e comportamento por meio da extração de dados em massa.

À medida que os computadores avançarem em direção à superinteligência, a história mostra, seus produtos se inclinarão em direção à bússola moral da humanidade. Ao final, essa divindade digital poderá colonizar galáxias distantes – transformando toda a matéria utilizável em uma mente computadorizada. Portanto, as nossas ações de hoje podem determinar o destino de todo o universo.

Lembrei-me dos mutantes subterrâneos que veneravam a bomba atômica em “De volta ao planeta dos macacos”. Muitos mamíferos usam ferramentas para sobreviver, mas até mesmo um chimpanzé sabe que não dá para erguer uma vara e chamá-la de “Deus”.

Tecnocracia e seus desafetos

De volta à Terra, a fase inicial desse esquema está longe do paraíso. Assim como a TV manteve os americanos pacificados e grudados em seus sofás, a revolução digital produz profundos efeitos desmoralizantes e desumanizantes.

Em seu favor, [é preciso dizer que] a TransVision convidou um punhado de críticos, a fim de que fizessem seus alertas. Sara Lumbreras, especialista em Ética, discutiu o impacto devastador dos smartphones e das mídias sociais na capacidade de concentração, memória e autocontrole. “Se você pode simplesmente usar o Google para obter informações, por que isso importaria?” – perguntou Sara. “Porque lembrar-se de coisas é a única maneira de podermos usar essas informações para os pensamentos crítico e criativo.”

Transumanistas e luditas entendem que a dependência de smartphones em tempo integral é a fase inicial de nossa simbiose com as máquinas. Devido a todas as vantagens obtidas, muitos professores temem que a transição para plataformas digitais esteja gerando crianças antissociais e funcionalmente analfabetas. Toda uma geração está sendo perdida para o autoprazer.

O mito do wireheading

O filósofo Anders Sandberg, de Oxford, debateu um experimento de neuroprostética, de 1954. Usando eletroestimulação, o cientista James Olds descobriu o centro do prazer no cérebro de um rato. Ele uniu vários ratos com eletrodos, permitindo que eles se estimulassem pressionando uma alavanca. Esses roedores não fizeram mais nada a não ser pressionar a alavanca. Um a um, os ratos morreram sorrindo.

Videogames e opioides corporativos nos colocam em situação semelhante. Já na era vitoriana, Sandberg explicou, os intelectuais questionavam se os humanos não estavam se tornando parasitas nas máquinas. “Eles [os intelectuais] associavam isso às descobertas biológicas de que os parasitas, quase sempre, parecem ser formas simplificadas de espécies mais antigas e [eles pensavam que] poderíamos nos tornar um tipo de craca aderida à infraestrutura tecnológica, extinguindo lentamente nossos cérebros”.

Daí o “mito do wireheading” – a narrativa de que a civilização poderia colapsar devido ao tecno-hedonismo. Sandberg insistiu que, embora essa narrativa não seja completamente falsa, também não é inevitável. “A criação de uma felicidade real é algo verdadeiramente complexo, mas sabemos que podemos aumentá-la.”

Para concluir, ele questionou: “Podemos usar a ambição transumana para dizer… ‘quero ser mais feliz, quero que todas as sociedades sejam mais felizes… quero minhas inteligências artificiais para buscar a verdade e o bem daimônico?”

Do Atari ao Alpha Centauri

Sandberg é um otimista, mas com reservas. Ele refletiu, com rigor, sobre os perigos da superinteligência artificial. Essa entidade digital seria totalmente imprevisível para as mentes humanas simples e, talvez, incontrolável. Na realidade, a IA avançada é comparável ao desenvolvimento de ogivas termonucleares.

Uma hipótese cômica é um sistema de IA que faz clipes de papel. E se ele [o sistema de IA] ficar confuso e transformar tudo o que existe na Terra em clipes de papel, nós incluídos? De modo mais realista, e se uma IA avançada for programada para resolver a mudança climática e, então, concluir simplesmente que a raça humana deve ser exterminada?

Sandberg leva seriamente em consideração tais riscos existenciais, mas, no fim, está disposto a aceitá-los.

Um ciborgue mais amável e gentil

O termo “transumanismo” evoca tamanha repulsa que as pessoas normais imediatamente recuam. Por isso, o transumanista alfa Max More – uma liderança do laboratório de criogenia Alcor – instou a audiência a abandonar palavras capciosas como “imortalidade”, substituindo-a por “extensão da vida”. Enquanto isso, 184 clientes falecidos permanecem congelados em suas [do laboratório] instalações, algumas ao preço de US$ 200.000, à espera da ressurreição.

Nós, mortais, temos preocupações mais prementes. Ao discutir a substituição de pessoas reais por robôs e inteligência artificial, Jerome Glenn do Projeto Millennium enfatizou que “artistas, magnatas da mídia e comediantes” deveriam preparar psicologicamente o público para aceitar a obsolescência econômica.

O alarme mais barulhento foi acionado por Nell Watson, especialista em Ética em Tecnologia, que é consultora da Apple e presidente do IEEE. “A crise de saúde global está sendo usada como desculpa para um maior autoritarismo”, disse ela, surpreendendo todos que estavam acordados. “Isso pode acabar como um Cavalo de Troia para algum tipo de sistema similar ao monitoramento de crédito social”.

“Hoje, são as terapias imunológicas”, alertou Watson, “mas, em 10 ou 15 anos, isso poderá incluir as pessoas que rejeitam qualquer tipo de interface cérebro-computador …ou uma tecnologia financeira vinculada à biométrica.” A preocupação dela é que os transumanistas se tornem o bode expiatório de políticas opressoras, pelas quais não são responsáveis.

Em resposta, Anders Sandberg foi ao Twitter defender a obrigatoriedade da vacina nos locais de trabalho. A conferência foi retomada apressadamente.

O futuro já chegou

Como uma ideologia abrangente, o transumanismo é tão relevante para o século 21 quanto o foi o comunismo para o século 20. Na metade dos anos 1800, Karl Marx e sua turma eram meros intelectuais socialistas. Em 1923, os bolcheviques tomaram o poder na Rússia. Em 1949, Mao tomou o poder na China. Em nosso tempo de tecnologia que tudo permeia, sociedades inteiras são radicalmente modificadas antes que qualquer pessoa possa perceber a mudança.

Os futuristas que se reuniram em Madri, no último fim de semana – juntamente com aqueles que pregam a tecnocracia no Fórum Econômico Mundial – estão estabelecendo as bases intelectuais de uma ordem social totalmente digitalizada. Hoje, é a Quarta Revolução Industrial – um paradigma global de total transformação – apoiada por Microsoft, Alibaba, Sony, General Motors, Mozilla e Salesforce, entre muitas outras empresas. Amanhã, os fiéis proclamam, será a superinteligência artificial, os implantes cerebrais e os drones assassinos incontroláveis.

Os rótulos são irrelevantes. À medida que o Vale do Silício, o setor tecnológico chinês e as diversas startups excêntricas convergem para uma meta central – que é mesclar seres humanos com dispositivos digitais – é possível dizer que o transumanismo já é uma ideologia dominante. Basta tirar os olhos deste texto e focar na tela cintilante para ver suas fantasias se tornarem realidade.

 

*Joe Allen é um amigo primata que se pergunta por que, um dia, descemos das árvores. Por anos, ele trabalhou como técnico em várias turnês musicais. Nos intervalos entre os espetáculos, estudou religião e ciências na UTK e na Universidade de Boston.

 

 

Traduzido por Telma Regina Matheus, para Vida Destra, 23/10/2021.                                  Faça uma cotação e contrate meus trabalhos através do e-mail  mtelmaregina@gmail.com ou Twitter @TRMatheus

 

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