No mesmo capítulo do evangelho de João em que Jesus disse “e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32), texto bíblico exaustivamente citado pelo Presidente Bolsonaro, ele também confrontou os mestres da lei fariseus dizendo que eles tinham por pai o próprio diabo. Ao descrever o comportamento de satanás, Jesus afirmou: “Quando ele profere mentira, fala do que lhe é próprio, porque é mentiroso e pai da mentira.” João 8:44

Se assumirmos como válida a premissa de que todos os homens são falhos e pecadores (inclusive mentirosos), tal qual ensina a doutrina cristã (Rm 3:23), por qual motivo acreditamos que a imprensa, que é uma instituição composta por pessoas tão falhas como nós, detém o monopólio da transmissão da verdade?

Johannes Gutenberg, no século XV, citado por muitos como o “pai da imprensa” criou o aparato tecnológico que acelerou a produção de livros, a famosa prensa de Gutenberg. Antes dela cada cidadão que quisesse contar uma verdade ou uma mentira, estaria limitado a um determinado espaço físico e a um determinado grupo de pessoas para transmitir sua informação. A partir da prensa de Gutenberg, criou-se uma forma de multiplicar a informação e romper essa barreira física. Os benefícios advindos da invenção foram inúmeros e com ela também veio a possibilidade de facilmente disseminar mentiras, bastando que o interessado tivesse os recursos necessários para impressão e divulgação. Nessa época o cidadão comum, tal qual na maior parte da história da humanidade, era pobre e analfabeto – se ele não tinha entendimento para ler, muito menos para imprimir e divulgar informações do seu interesse. Os afortunados, por outro lado, detinham todos os recursos necessários para impressão e divulgação da informação; tinham também consigo o poder. Não estou dizendo nada novo quando afirmo que as pessoas responsáveis por controlar a informação e o seu fluxo são donas do poder.

A imprensa, como a conhecemos hoje, cresceu e se fortaleceu ao longo do século XVIII, ultrapassando as fronteiras territoriais sempre com o avanço de novas tecnologias. Multiplicaram-se os panfletos e manifestos, depois os periódicos, depois os jornais impressos, surgiu o rádio, a televisão e a internet.

Passados mais de 500 anos da invenção da prensa de Gutenberg, chegamos em mais uma revolução tecnológica na comunicação: as redes sociais, os smartphones e os aplicativos de mensagens instantâneas. Eles entregaram a milhões de cidadãos comuns o poder de transmitir informação, via texto, vídeos e imagens em tempo real. Hoje cada pessoa do globo pode ter consigo sua própria “prensa de Gutenberg”, seu próprio rádio, sua câmera, seu gravador e sua televisão, todos adquiridos com custo relativamente baixo. Os meios de produção da imprensa foram democratizados num estalar de dedos, essa revolução chegou e nem percebemos totalmente os seus efeitos. O cidadão comum pode utilizar seus aparelhos smartphones para transmissão direta de informações sem passar pelo crivo da “imprensa tradicional”.

A imprensa, que antes assumia o papel centralizador de filtrar informações e repassar ao  público consumidor os fatos relevantes ocorridos no mundo, foi nocauteada pela tecnologia em poucos golpes. Além de perder substancial soma de dinheiro pela redução das vendas dos jornais impressos, aquela que era protagonista da “informação de qualidade” perdeu relevância, perdeu sua audiência cativa. Cada pessoa tem a liberdade de se conectar com a fonte de informação que acredita ser confiável. Além disso, é possível contrapor a versão transmitida pela imprensa tradicional e combatê-la nas redes sociais e nos canais de comunicação direta, expondo a mídia ao vexame quando há falsidade na informação. A grande imprensa que antes ocupava uma posição confortável e inatingível, só respondendo pelo conteúdo das reportagens produzidas em ações judiciais, passou enfrentada pelas pessoas comuns que discutem as versões dos fatos no mesmo dia em que eles são noticiados. Não há mais sossego e descanso para aqueles que detinham o controle da informação. No entanto, o maior “problema” da revolução tecnológica não é esse: o que realmente incomoda é a democratização do poder.

É nesse contexto que surge o debate em torno das “Fake News”, ou seja, das notícias falsas. Segundo a narrativa da imprensa, hoje não se sabe mais o que é verdade porque esses cidadãos “malignos e mentirosos” disseminam “notícias falsas” nas redes sociais e aplicativos de mensagens. Antes, porém, a grande imprensa vigiava em nosso favor, ela nos protegia com sinceridade e pureza de coração contra todas as mentiras. Foi justamente isso que aconteceu na eleição do Bolsonaro: a imprensa lutava com todas as forças pela transmissão da verdade, publicando as pesquisas de intenção de voto que mostravam que Bolsonaro perdia a eleição em todos os cenários possíveis; entretanto, os “cidadãos malignos” transmitiram tantas Fake News que conseguiram elegê-lo presidente da república. Segundo a premiada jornalista da Folha de São Paulo Patrícia Campos Mello, declaradamente de esquerda e petista assumida, essas Fake News mudaram o curso da História, mudaram o rumo das eleições de modo fraudulento. Veja: esse é o resumo daquilo que os donos do poder querem que você acredite. Se o PT ou o PSDB tivessem ganhado a eleição, como desejavam os burocratas e seus aliados, nada disso estaria em discussão.

Se hoje vemos em todos os canais da mídia grande preocupação contra as notícias falsas, é preciso saber que na verdade não há preocupação alguma no caráter das notícias, tão somente na retomada do poder; e o poder pode ser obtido pelo controle da informação e seu fluxo. Pouco importa se as informações são verdadeiras ou mentirosas, o que importa é o controle.

A CPMI das Fake News em andamento no Congresso Nacional, o inquérito inconstitucional movido pelo STF contra os supostos disseminadores de Fake News, as repetidas notícias trazidas pela imprensa tradicional contra o “gabinete do ódio”, tudo isso faz parte de um contexto maior que busca eliminar a liberdade de expressão, bem como a capacidade de o cidadão comum receber e transmitir informações sem controle externo. E de onde virá esse controle externo? Justamente daqueles setores que perderam o controle e buscam retomá-lo: imprensa e establishment, este último composto por milionários globalistas e grande número de políticos burocratas. Não surpreende o fato de as “agências de checagem” de notícias falsas serem todas integrantes da imprensa mainstream (Agência Lupa, Estadão Verifica, dentre outras). Não surpreende o fato de o Congresso Nacional estudar a aprovação do PL nº 2630 para conceder, ao próprio estamento burocrático, o poder de dizer o que é verdade e o que é mentira, punindo os dissidentes e “disseminadores de mentiras”. Mas quem são os autores das Fake News afinal? Todos aqueles que ousarem divergir da versão oficial da imprensa e do establishment. Na batalha travada pelo estamento burocrático não há verdade nem mentira, há apenas uma busca pelo poder ilimitado, ainda que seja necessário sacrificar os direitos mais elementares dos cidadãos governados.

Não é a toa que o livro 1984 previu a criação do Ministério da Verdade como um órgão essencial do aparato estatal. Não é a toa que o Ministério da Verdade dentro da obra de ficção de Orwell era aquele encarregado de alterar os eventos passados e disseminar a mentira. Nunca pudemos presenciar, de maneira tão evidente, o desespero do establishment e da grande imprensa pela retomada do controle da informação. Estamos muito próximos de ações concretas que poderão fundir a ficção com a realidade, transformando o Brasil numa versão tupiniquim de 1984. Lembrem-se que no mesmo capítulo em que Cristo assume ser a mais pura VERDADE, Ele também denuncia que satanás é o pai da MENTIRA. Em qual deles você vai acreditar?

Leonardo F. Leib, para Vida Destra, 31/7/2020.
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Leonardo F. Leib
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Nunes
Admin
11 dias atrás

Excelente. Chega a dar arrepios da semelhança com o livro 1984

Sander Souza
Sander Souza
11 dias atrás

Excelente artigo, Leonardo! Lido e compartilhado!