O escritor austro húngaro Frank Kafka é mundialmente conhecido por seu estilo  de realismo fantástico, ou realismo mágico, em suas obras de ficção. A mais famosa delas é A Metamorfose. É um livro relativamente pequeno, com pouco mais de 100 páginas, mas que marcou época devido ao enredo totalmente inusitado  e inovador.

Nesta novela se conta a estória de Gregor Samsa, um caixeiro viajante que tinha como a maior preocupação da sua vida o seu emprego, pois era o único que trabalhava em sua casa. Sua família, composta por um pai com problemas de coluna, sua mãe e uma irmã mais nova, dependia de Gregor para sobreviver. O surrealismo da obra já começa com a famosa frase de abertura:

 Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.

 Assim, sem maiores explicações ou detalhes, Kafka introduz o enredo do livro. Não se mostra o porquê de tão surpreendente metamorfose do personagem principal, Gregor Samsa. Não há referências, em parte alguma da obra, sobre como o protagonista, um homem comum, que trabalhava como caixeiro viajante, cuja maior preocupação na vida era sustentar sua família, acorda, em um dia qualquer, transformado em um inseto gigante.

A narração subsequente mostra como Samsa, apesar do espanto e do desconforto no início, mais do que justificados, por aquela mudança súbita e grotesca de aparência, não se incomoda tanto com isso. A sua ansiedade essencial decorre do fato de que vai chegar atrasado ao trabalho. Como se fosse normal, comum e banal alguém poder sofrer uma metamorfose inexplicável ao acordar e ir trabalhar transformado em um inseto gigante. Apesar dos esforços, o homem-inseto não consegue se levantar da cama para ir ao trabalho, pois está virado de costas, em sua cama, com patas de inseto viradas para cima. Era um funcionário que prezava pela pontualidade.  Como superar aquela limitação tão repentina?

Samsa tenta de tudo para contornar a situação, busca se adaptar à sua nova condição de inseto gigante. Mas como explicar o que ocorreu com ele à sua família? Fica trancado no quarto por causa disso.  Os familiares começam a ficar preocupados por ele não sair do aposento. No emprego sentem sua ausência. A situação chega no limite. O chefe de Samsa vai à sua casa saber os motivos do seu não comparecimento ao trabalho. Nisto, Samsa resolve sair do quarto para tentar explicar o que está acontecendo. Ao ver aquele inseto gigante, sua família leva um choque terrível e o chefe de Samsa também. O homem transformado em inseto não está tão aflito por causa de sua estranha aparência, mas angustiado em dizer algo ao seu chefe para justificar suas faltas no trabalho. Não consegue, porque virou um inseto. Tudo que emitia a partir de então eram ruídos. Não havia mais voz, não havia mais sons compreensíveis.

No restante do livro Kafka narra como todos na família tentam, cada um ao seu modo, se adaptar à nova e  estranha situação de conviver com um integrante que virou um monstro. Chegam a retirar os móveis do quarto para Samsa ter mais liberdade de se movimentar pelas paredes e pelo teto, já que se tornou um inseto. Apenas sua irmã mostra compaixão por ele. Seu pai não quer saber de vê-lo. Sua mãe tem repugnância pela aparência do personagem, mas continua o amando porque é seu filho. A metamorfose de Samsa não se tornou a principal preocupação da família, mas como eles iriam se sustentar. Então, por força das circunstâncias, todos procuram um emprego.  No final do livro, após sucessivas tentativas de convivência com o estranho ser, depois de muitas idas e vindas, os familiares decidem que é hora de se livrar de Gregor. Mas antes que isso ocorra, ele falece por inanição.

Esta é uma estranha novela, com um insólito personagem, que fez e ainda faz muito sucesso, devido ao estilo ricamente imaginativo de Kafka. Mesmo sendo genial, não sei se o celebrado escritor, apesar de todo o talento, seria suficientemente criativo ao ponto de conceber fatos tão surreais e bizarros que ocorrem na cena nacional de nosso país. Talvez nem Kafka pudesse conceber uma novela em que um senador da república, Cid Gomes, do Ceará, irrompesse, repentinamente, nas ruas de uma cidade do interior deste estado, Sobral, dirigindo uma retroescavadeira, tentando atropelar uma multidão, amotinada  em um quartel, incluindo mulheres e crianças. O objetivo do senador seria, por meio deste ato brutal dar um fim a uma greve ilegal de policiais militares. Alguns deles teriam atirado em direção à retroescavadeira, em legítima defesa, acertando Cid Gomes, que foi socorrido e passa bem.  O senador agiu com desequilíbrio extremo. Sua irresponsabilidade, brutalidade e violência poderiam ter provocado algo muito trágico. Deveria responder a processo e perder o mandato pelo que fez. Ele cometeu vários crimes, incluindo ameaça e tentativa de homicídio.

Se vivo estivesse hoje, e fosse se inspirar no que houve ontem em Sobral, Kafka talvez usasse, para abrir uma obra ficcional, uma paráfrase do seu tão famoso parágrafo de abertura, citado anteriormente. Seria algo mais ou menos assim:

Quando certa manhã o senador cearense Cid Gomes acordou de sonhos intranquilos, resolveu terminar a greve ilegal de policiais militares, em Sobral, cometendo outra ilegalidade infinitamente maior. Isto é, tomou a direção de uma retroescavadeira e tentou atropelar os militares e seus familiares, incluindo crianças, amotinados no quartel da PM da cidade. O senador fez isso porque imaginou que todos ali tinham se transformado em insetos monstruosos que precisavam ser esmagados a qualquer custo. Houve surpresa no fato de que alguns militares reagiram atirando e o senador teria sido ferido.

O Brasil é um país em que, em muitos casos, a realidade supera a mais surreal das ficções e o mais inusitado ou absurdo dos realismos fantásticos. Aqui, Franz Kafka se sentiria muito à vontade em viver e escrever. Dificilmente encontraria tantas fontes de inspiração em outro lugar, pois aqui, em terras tropicais, teria matéria prima de sobra, incluindo o caso de Sobral, para escrever suas obras.

Lívio Oliveira, para Vida Destra, 20/02/2.020.

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Livio Oliveira
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EDITE Vicente
EDITE Vicente
3 meses atrás

Parabéns. Texto fantástico. Mas creio que nem Kafka em sua metamorfose conseguiria conceber o acontecido. Forte abraço.

Olimpia Brito Cabrini
Olimpia Brito Cabrini
3 meses atrás

Meu Amigo… Sensacional! O fato ocorrido, é alguma coisa próxima a ficção, ao bom estilo Kafka! Parabéns!

Frederico Navarrete
Frederico Navarrete
3 meses atrás

Parabéns pela inteligente co-relação do fato grotesco ocorrido na terra dos coronéis e o conteúdo do livro A Metamorfose de Franz Kafka. Não pude deixar de pensar no monstrengo que “se tornou” (ou será que desde sempre já era assim?) a esquerda caviar brasileira. Algo que “só pensa” em fazer O QUE FAZIA ANTES, ou seja, ter poder e dinheiro à vontade e para isso não se importa, de maneira alguma, de que forma fará para conseguí-lo. É claro que estando a mídia (gêmea siameza da esquerda) no mesmo contexto, seria demais imaginar que ao inves de dar ênfase no… Read more »

SOLANGE ALBUQUERQUE XAVIER
SOLANGE ALBUQUERQUE XAVIER
3 meses atrás

Realmente um artigo merecedor de APLAUSOS DE PÉ!!!! Perfeita narrativa! E agora tenho a certeza que o atirador SALVOU CID GOMES de uma tragédia pior. Hoje poderia ser um dia de luto em Sobral, por morte de grevistas e muitos inocentes. Graças ao atirador, HOJE CID virou apenas um reles motivo de piadas. Porém, ANTES SER O BOBO, O PALHAÇO DA CORTE DO QUE ASSASSINO DE INOCENTES!