Amigos leitores, atualmente estou finalizando a leitura do livro de Michael Walsh, “Escola de Frankfurt – O Palácio de Prazer do Demônio – O Oculto da Teoria Crítica e Subversão do Ocidente”, tradução publicada no Brasil pela Vide Editorial.

Tal livro repleto, de referências, visa justamente explicitar o estrago feito por esses “pensadores” alemães no seio da sociedade ocidental.

Em determinado trecho, o autor indica um artigo publicado no The Wall Street Journal no ano de 2001, então fui lá conferir.  Após tal leitura, encantado com a qualidade do texto, achei que seria interessante fazer uma tradução para os amigos leitores da revista Vida Destra.

Tal artigo remete a uma análise do capítulo “Schism of the soul” da monumental obra do escritor Arnold J. Toynbee “A Study of Story” .

É fundamental buscarmos origem da degradação que chegou aos tempos atuais, isso facilita – penso eu – buscarmos o antídoto de maneira análoga a um médico faz que uma anamnese de seu paciente, visando posteriormente prescrever o remédio para a cura da doença identificada.

Quem acompanha o autor Theodore Dalrymple tem um pouco mais nítida essa degradação (seria impossível não fazer paralelo) pois o tal texto me lembrou muito de seus escritos.

Espero que apreciem, desejo a todos ótima leitura, desta tradução livre.

MODELOS DA PROLE

Por Charles Murray, membro do American Enterprise Institute.

Não se discute muito que a vida americana se tornou bastante rude nas últimas décadas, mas a natureza da besta ainda está em questão.  Gertrude Himmelfarb vê isso como uma luta entre elites rivais, na qual a esquerda originou uma contracultura que a direita não conseguiu conter.  Daniel Patrick Moynihan nos deu a frase “definir o desvio para baixo”, para descrever um processo no qual mudamos o significado de moral para se adequar ao que estamos fazendo de qualquer maneira.  Desejo adicionar uma terceira voz à mistura, a do falecido historiador Arnold Toynbee, que não consideraria nenhum mistério em nossa história recente: Estamos testemunhando a proletarização da minoria dominante.

‘Cisma na Alma’

A linguagem e o pensamento foram extraídos de um capítulo de “A Study of History”, intitulado “Schism in the Soul”, no qual Toynbee discute a desintegração das civilizações.  Ele observa que um dos sintomas consistentes de desintegração é que as elites – a “minoria dominante” de Toynbee – começam a imitar as que estão na base da sociedade.  Seu argumento é assim:

A fase de crescimento de uma civilização é liderada por uma minoria criativa com um senso forte e autoconfiante de estilo, virtude e propósito.  A maioria não-criativa segue junto com a mimese, “uma imitação mecânica e superficial dos grandes e inspirados originais”.  Em uma civilização em desintegração, a minoria criativa degenerou em elites que não são mais confiantes, não dão mais o exemplo.  Entre outras reações estão um “lapso na evasão” (uma rejeição, com efeito, das obrigações da cidadania) e uma “rendição a um senso de promiscuidade” (vulgarizações de maneiras, artes e linguagem) que “são capazes de  aparecer primeiro nas fileiras do proletariado e daí se espalhar para as fileiras da minoria dominante, que geralmente sucumbe à doença da ‘proletarização’ ”.

Isso soa muito parecido com o que tem acontecido nos EUA. A provocação e a promiscuidade, no sentido de Toynbee, não são novidades na América.  Mas, até algumas décadas atrás, eles eram desprezados publicamente e em grande parte confinados à camada inferior do proletariado de Toynbee – o grupo que costumávamos chamar de “classe baixa”, e que agora chamamos de subclasse.  Hoje, esses comportamentos foram transmutados em um código que as elites às vezes imitam, às vezes apaziguam e temem desafiar.  Enquanto isso, eles não têm mais um código próprio no qual confiam.

Um pequeno exemplo ilustrará o fenômeno mais amplo.  Em 1960, palavras de quatro letras (“fu..”) ainda eram desconhecidas no discurso público.  Entre as elites, eles eram usados ​​com moderação, mesmo em privado.  O uso gratuito de linguagem vulgar entre adultos foi deliberadamente declarado.  Agora mude para o outono de 2000 e um artigo da Sports Illustrated sobre os Oakland Raiders, no qual o autor expõe a razão do sucesso do novo treinador citando a antevisão de um dos craques do Oakland: “Ele não aceita f… – e ele conhece sua f…. ”

Um aspecto significativo da escolha editorial de publicar a citação é que os editores da Sports Illustrated, uma revista sofisticada e brilhante, não tinham motivos para pensar que ofenderiam seus leitores.  Todo mundo faz isso – como de fato todo mundo faz.  Outro aspecto significativo é que os editores puderam deixar a gramática intacta, sem se preocuparem em serem acusados ​​de condescendência com o jogador que foi a fonte identificada da citação.

O mais impressionante de tudo é que a observação do jogador foi citada com aprovação.  O escritor vê tais palavras como “enérgicas” e “elegantes”.  Se a precisão e o estilo são os únicos critérios para selecionar o que publicar, o escritor e os editores não são culpados de qualquer lapso de julgamento.  O domínio técnico da arte não está em questão aqui, assim como não está em questão para “South Park” ou o vídeo médio da MTV.  O que está em questão é o significado cultural de escolher aprovar o vulgar e o analfabeto, que costumavam ser indicadores clássicos da subclasse.

Respeito e imitação do comportamento da classe inferior estendem-se a outros sinais clássicos que antes costumavam distinguir pessoas de bem da ralé.  Aparência?  A aparência da prostituta na moda, tatuagens e “piercings” são evidências óbvias, embora Tonybee provavelmente veria tanta importância em usar jeans para ir à igreja.  Acho que o elemento intrigante aqui é o respeito estendido à aparência de classe baixa.  Ninguém aos olhos do público chama mais qualquer tipo de vestido de “barato” ou “desprezível”.

Comportamento sexual?  Em 1960, dormir com um namorado ainda era uma coisa de pessoas desregradas.  Exceto em alguns círculos sofisticados, um casal da classe média ou das elites até o fazia, mas furtivamente, e geralmente com a pessoa com quem esperava se casar.  O comportamento que agora é considerado absolutamente normal era considerado uma “vadiagem” em 1960.

Família?  A taxa de divórcio em 1960 era apenas um degrau mais alta do que tinha sido nos primeiros números registrados em 1920. Isso acontecia entre membros da minoria dominante, mas raramente e com extrema relutância.  Quanto a viver junto sem ser casado e ter filhos sem se casar, a linguagem por si só transmite sua mudança de status das práticas ao longo dos anos: no início do século, “viviam em pecado”, um pouco mais tarde, as pessoas costumavam morar juntas; depois elas coabitavam e hoje vivem em união estável.  À mulher, isso era mais pesado: antes, o filho fora do casamento era espúrio (sem direitos); depois, um “bastardo”, mais tarde um filho ilegítimo. Agora ela tem um nascimento fora do casamento: foi-se “normalizando” e inclusive “normatizando” as práticas, e sendo extinto o conceito original de “família” para o que se chama hoje, em alguns livros de sociologia ou de direito, de “mosaico familiar”.

Linguagem, aparência, sexo: cada um dos sinais pelos quais costumávamos reconhecer um membro da subclasse falha hoje.  Mas a proletarização da minoria dominante tem implicações mais amplas do que mudanças nas normas sociais.  O que estamos testemunhando é o resultado de um colapso da escala de valores das elites, criando um vácuo no qual o comportamento da classe mais baixa assume os elementos de um código geral.

Por código, quero dizer seu parâmetro interno para rastrear como você está de acordo com um padrão que é aceito por aqueles cuja aprovação você busca.

Vou me concentrar aqui no código do cavalheiro como ele evoluiu neste país, onde não tinha nada a ver com ser rico ou “bem-nascido”.  Ser um cavalheiro significava ser corajoso, leal e verdadeiro.  Quando alguém estava errado, admitia e recebia o castigo com hombridade.  Não se tirava vantagem das mulheres, muito menos de crianças.  Era gentil na vitória e um bom esportista na derrota.  O aperto de mão de alguém era mais vinculativo do que qualquer documento legal.  Quando um navio afundava, colocavam-se as mulheres e crianças nos botes salva-vidas e acenavam para se despedir com um sorriso.

Ser cavalheiro costumava ser regra, agora isso virou motivos de piada.  Alguns homens ainda vivem por eles – há muita “virtude furtiva” circulando – mas eles têm vergonha de dizer o que estão fazendo.  O código do cavalheirismo entrou em colapso, assim como o código paralelo da senhora de respeito entrou em colapso.

O colapso de códigos de condutas antigos deixou um vácuo que devia ser preenchido.  Dentro das elites, a substituição tem sido princípios amplamente aceitos por pessoas em todo o espectro político, que nos dizem para tratar as pessoas com igualdade, independentemente de gênero, raça ou preferência sexual; ser contra a pobreza e a guerra; ser contra a destruição ambiental e ser justo e diverso.  Essas não são coisas ruins de maneira geral, respectivamente, mas o novo código – que chamarei de “gentileza ecumênica” – tem uma falha crucial: é inviável, na prática. Não é possível viver de acordo com esse “politicamente correto” atual, e hoje vemos as “patrulhas” que disso decorrem, ansiosas por “linchamentos de reputação”, ou linchamentos mesmo.

O código das elites deveria estabelecer o padrão para a sociedade, mas a simpatia ecumênica tem efeito apenas sobre aquelas pessoas a quem as elites estão dispostas a julgar – ou seja, umas às outras.  Um dos principais princípios da gentileza ecumênica é, então, não julgar a classe baixa.

Na subclasse, o vácuo foi preenchido por um código distinto e separado.  Chame isso de “código de bandido”: pegue o que quiser, responda violentamente a qualquer um que o hostilize, seja violento, vanglorie-se quando vencer, fuja e depois se vingue quando perder, despreze a cortesia como fraqueza, trate as mulheres como receptáculos, orgulhe-se de trair, enganar ou explorar os outros com sucesso.  O mundo do hip-hop é onde o código é abertamente aceito.  Mas o hip-hop e do rap é apenas uma expressão do código, não sua fonte.  Isso equivale aos “valores” até então desarticulados dos homens da classe baixa desde tempos imemoriais, e se tornaram agora valores articulados com a colaboração de alguns dos melhores talentos criativos e mercadológicos da América.

O estilo de vida delinquente é adotado ativamente por uma pequena minoria da população, e provavelmente até mesmo por muitas das crianças que amam hip-hop e rap.  Mas é vital, ser celebrado com confiança por seus adeptos de maneira convincente.  E não pode haver contrapeso de uma elite que perdeu a confiança para dizer: “Não vamos aceitar isso.”

Se você duvida da impotência da amabilidade ecumênica, considere as recentes reações ao rapper branco Eminem.  Sua misoginia e homofobia são um desafio direto aos elementos mais centrais da atual “gentileza” ecumênica, lançados dentro de uma indústria que condena veementemente qualquer indício de discriminação contra mulheres ou gays quando feito por um colega.  Se a minoria dominante ainda possuísse um código cultural com espinha e “élan”, Eminem não teria mais chance de gravar suas letras do que uma palavra de quatro letras teria de entrar na revista Sports Illustrated em 1960.

Toynbee intitulou sua discussão como “Cisma na Alma” porque a desintegração de uma civilização não é um processo monolítico.  Conforme a cultura de elite começa a imitar a cultura proletária, os remanescentes das elites se tornam utópicos, ou ascetas, ou tentam reinvocar velhas normas (a saber, as palavras que você está lendo).  Para reconhecer uma civilização em desintegração, Toynbee diz:  “procure uma cultura dividida – ou seja ,  dividida como nossa cultura é hoje”.

Para cada exemplo de violência e obtusidade moral vindo de Hollywood, pode-se citar filmes, muitas vezes representações fiéis de romances clássicos, expressando uma sensibilidade moral requintada.  Na televisão, o paradoxo do pior e do melhor dos tempos pode ser englobado no mesmo programa – “Os Sopranos”, “Ally McBeal” e “Os Simpsons” vêm à mente.  Na vida social, há sinais de que a família na metade superior da sociedade americana está começando a se reconectar, ao mesmo tempo que continua se desintegrando na metade inferior.  A religião parece ser levada mais a sério pelas elites de hoje do que há 20 anos.

Eu costumava pensar que essas tendências contrastantes prenunciaram uma América bimodal, com as elites indo bem e a classe baixa crescendo.  Agora ouço Toynbee murmurando “Remanescentes” em meu ouvido e não tenho tanta certeza.

Trajetória Histórica

Se ele estiver certo, a “contagem de grãos” não funciona no caso atual.  Se uma cultura produz ou não pedaços do admirável, isso é irrelevante para entender em que ponto ela se encontra na trajetória da história. Se a questão é se as elites da América estão sendo proletarizadas, a resposta é encontrada identificando as coisas que não são mais tidas como certas. Pode ser um sinal positivo onde vozes importantes tenham novamente começado a falar sobre virtude, mas o fato saliente é que elas devem começar defendendo a proposição de que virtude e vício são conceitos válidos. Vozes importantes estão falando sobre o “endurecimento” da vida americana, mas o fato saliente é que elas não podem mais apelar para um entendimento comum da vulgaridade e um apreço comum pelo vulgar.  Nesse sentido, as elites já se proletarizaram e apenas os remanescentes protestam.

Olhar a história através de um único prisma, mesmo o de Toynbee, pode levar alguém ao erro em alguns aspectos – ninguém é tão bom em compreender a história.  Ainda assim, a validade fundamental de seu argumento é persuasiva, e não apenas para a América. As elites, em todo o Ocidente, estão se torcendo em desculpas possíveis de inventar por cada falha, rejeitando o que há de melhor em suas culturas, repercutindo e imitando o que é pior. Mas nós, na América, temos um motivo especial para nos preocupar com o quão longe foi essa revelação.

Esperei para deixar o ponto óbvio até este fim, para não perder muitos de meus leitores até agora. E insisto em que a seguinte declaração não seja, no fundo, partidária: a presidência de Bill Clinton, tanto em sua conduta quanto nas reações a essa conduta, foi um exemplo paradigmático de como as elites foram infectadas “pela doença da proletarização”. A sobrevivência de nossa cultura requer que, de alguma forma, consigamos melhorar.

 

Semana Caravana, para Vida Destra, 9/11/2020.
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Artigo original em:

https://www.wsj.com/articles/SB981425270730616433

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Nunes
Admin
2 meses atrás

Simplesmente excelente.

Caravana
Caravana
Reply to  Nunes
2 meses atrás

Obrigado pela leitura .

Angelo Lorenzo
2 meses atrás

Grande trabalho, Caravana!
Parabéns! 👏👏👏👏

Caravana
Caravana
Reply to  Angelo Lorenzo
2 meses atrás

Grato pelas palavras Angelo!

Luiz Antonio
2 meses atrás

No magnífico artigo de @semana_caravana sobre as consequência de uma ideologia, veio à mente o filme Juventude Transviada com James Dean, que foi um padrão de mimetização pela fileira do proletariado.

Caravana
Caravana
Reply to  Luiz Antonio
2 meses atrás

Luiz Antonio, exatamente! Todos os que poderiam dar exemplos atualmente acabam incorporando comportamentos danosos para toda a sociedade, numa espiral de decadência.

Simone Lisboa da Costa
Simone Lisboa da Costa
Reply to  Caravana
2 meses atrás

Pontuou e resumiu o belo texto com uma frase q é o retrato da sociedade atual.

Sander Souza
Editor
2 meses atrás

Excelente artigo!
Muito obrigado por compartilhar conosco estas valiosas reflexões!

Caravana
Caravana
Reply to  Sander Souza
2 meses atrás

Grato, por sua leitura @Sander! Sempre um prazer poder compartilhar!

Simone Lisboa da Costa
Simone Lisboa da Costa
2 meses atrás

Muito pra ser considerado e refletido nesse texto q certamente deu trabalho pra ser traduzido.
Parabéns!