Quando o Nunes me convidou para ser colaboradora da revista Vida Destra,  perguntei sobre o que escreveria. “Sobre o que você quiser”, ele respondeu. Aceitei o desafio e decidi abordar temas ligados à deficiência porque é sobre isso que me sinto mais bem capacitada para escrever. Além disso, a ideia é apresentar esse assunto para pessoas que não o conhecem porque cansei de pregar para convertidos.

Porém, neste artigo vou fugir do que me propus inicialmente porque, como tantos de nós, também entendo que o próximo Sete de Setembro nos colocará diante de um ponto de decisão,  enquanto nação. Como se isso não bastasse, o mais recente ataque de loucura do ex-historiador e atual canalha metido a jornalista, Marco Antonio Villa, sugerindo ao povo brasileiro abandonar o verde-amarelo e adotar a suástica, me deixou muito irritada e me  fez rememorar um experimento cívico-social que fiz mais ou menos em 1985.

Eu trabalhava no finado Notícias Populares (NP), jornal popular esnobado, mas que — hoje sabemos — tinha mais caráter do que os então considerados “jornais sérios” da velha imprensa. Na época, eu andava e, num Sete de Setembro, decidi amarrar uma fita verde-amarela na minha bengala canadense. Os olhares atravessados, surpresos, chocados e quase enojados que recebi dos colegas de Redação e de todos que encontrei nos elevadores, no refeitório, enfim, em toda parte, no prédio onde, além do NP, funcionavam Folha de S. Paulo e Folha da Tarde, me deixaram confusa. Como assim? Não era o Dia da Pátria? Não era dia de todo mundo  usar verde e amarelo?

Segundo me explicou um dentre aqueles colegas que me olharam como se eu estivesse usando uma suástica, o “regime militar e o Exército” tinham se “apropriado” do verde-amarelo e, por isso, “usar essas cores era sinônimo de apoiar a ditadura”. Ou seja, quem estava me recriminando por usar as cores da Pátria eram aqueles que admiravam Cuba e endeusavam Castro, “defensores da democracia” tão genuínos quanto os atuais que optam pela cor vermelha, endeusam Maduro e Lula, defendem o Talibã e, claro, continuam admirando Cuba.

Em 1964,  tinha 10 anos. Eu me lembro bem da atmosfera daquele 31 de março. No rádio, não importava a estação, tocava sem parar a mesma marcha militar: tam tantam taram tantam [1]… Apesar disso, naquele dia, o Grupo Escolar Municipal José Liberatti, de Osasco, funcionou normalmente. As crianças estavam com medo de que houvesse uma “guerra”, ainda mais porque sabiam que, próximo dali, no bairro Quitaúna, havia um quartel do Exército [2]. Talvez, seja em virtude dessa tensão quase palpável, que me lembro até hoje do meu estranhamento ao ouvir a professora dizer, durante a aula de Geografia, que o Brasil era “um país rural”. A frase não fez o menor sentido para mim que só conhecia a cidade.  Enfim, a “guerra” não aconteceu, a programação das rádios e a vida em si voltaram ao normal (ou era o que parecia).

No grupo escolar, claro, hasteávamos a Bandeira Nacional todos os dias. Nas aulas de música, aprendíamos a cantar o Hino Nacional, o da Independência e o à Bandeira, cujas letras, impressas nas capas dos cadernos, eram esmiuçadas nas aulas de Português. No Sete de Setembro, as escolas faziam um desfile cívico na avenida principal da cidade.

Não posso dizer que, na época do ginásio e do colégio, eu tivesse clareza do que era o regime militar. Não tinha tido interesse em me aprofundar nesse que me parecia um  assunto distante. Excetuando uma ou outra conversa, a meia voz, entre meus pais e meus irmãos mais velhos, sobre um colega deles que havia “tido problemas” com a polícia, até a faculdade, o fato de haver ou não um regime militar não fazia a menor diferença para mim. Boa aluna, com apoio de meus pais, estava concentrada em estudar, pois, sendo deficiente, eu sabia que essa era minha única alternativa para ter uma vida independente. Queria ser arqueóloga  e acabei jornalista, vejam vocês.

A vida na minha casa era como a de qualquer família honesta e trabalhadora da época. Minha mãe era dona de casa e meu pai, ferroviário. Ao longo da vida adulta, ele tinha trabalhado em vários empregos simultaneamente para conseguir sustentar mulher e cinco filhos (dois deles com deficiência). Graças ao chamado “Milagre Econômico”[3], meu pai, finalmente, estava prosperando, acreditem se quiser, vendendo pipoca na antiga rodoviária Júlio Prestes, no centro de São Paulo.

Há alguns dias, meu amigo André Mello se surpreendeu quando eu disse que nunca tinha sido simpatizante da esquerda. Brincando (mas, não muito), disse a ele que creditava isso ao fato de ter lido muita revista Seleções do Reader’s Digest. Além disso, creio ter sido determinante  para minha ojeriza ao comunismo, a leitura, na adolescência e juventude, dos livros  “Um dia na vida de Ivan Deníssovitch”[4] e “Arquipélago Gulag”[5], ambos de Aleksandr Soljenítsin, que falam da opressão, das injustiças e dos desmandos a que os opositores do regime eram submetidos e das condições subumanas das prisões comunistas.

“Mas, nem mesmo durante a faculdade, entre 1974 e 1978?”, meu amigo insistiu. Na verdade, nos dois primeiros anos, eu me sentia uma mosca branca entre os colegas, todos de esquerda, claro, que chegavam à Fundação Armando Alvares Penteado (FAAP) em seus carrões, alguns dirigidos por motoristas particulares. Na época, eu não dirigia e, como todos os ônibus eram inacessíveis, dependia de meu pai para frequentar a faculdade. Era comum ele se atrasar para me buscar porque, coitado, nem sempre podia deixar o trabalho no horário em que eu saia. Enquanto esperava por ele,  conversava com os pedreiros que comiam sua boia fria, antes de voltarem à labuta de construir o prédio novo da escola. Quando disse a eles que iria para outra faculdade porque minha classe, no próximo ano, ficaria dois andares acima e não havia elevadores, meus amigos pedreiros se ofereceram para me carregar escadas acima. Claro que, apesar da boa vontade deles, isso era impossível e acabei me transferindo  para a Cásper Líbero, pela qual me formei. Não é preciso dizer que meus colegas de classe da FAAP nem percebiam a existência desses homens com os quais cruzavam todos os dias. Então, não, o comunismo nunca fez a minha cabeça, nem mesmo e, talvez, especialmente, durante a faculdade.

Como bem sabemos hoje, os tais antigos “defensores da democracia” que escolheram o vermelho do comunismo e queriam substituir a ditadura de direita por uma de esquerda, ditavam as regras e, por muito tempo, o uso da bandeira e das cores do Brasil parecia ser socialmente aceito apenas durante as Copas do Mundo. Isso sempre me pareceu esquisito.

Os atuais “defensores da democracia” que, no dizer do grande Guilherme Fiuza,  combatem o “fascismo imaginário”, já não são a única voz que se faz ouvir, mas ainda buscam uma ditadura para chamar de sua. Empaticamente, para “salvar a democracia”, agridem a democracia e querem  barrar um suposto golpe de Bolsonaro dando um golpe em Bolsonaro. Segundo a matéria “A perseguição”, da Revista Oeste  (27-8-21), o STF tomou, nos últimos dois anos, “124 manifestações hostis” ao governo Bolsonaro, ou seja, “uma a cada sete dias”. Os golpistas conspiram à luz do dia, sem o menor pudor, e só fazem isso porque sua cúmplice inspiradora, a velha mídia, os apoia e incentiva, caso contrário, nem mesmo a atual cepa de ministros que ocupa o Supremo Tribunal Federal e que nos assola diariamente teria tanta coragem.

É quase insuportável ver minha outrora honrosa profissão transformada nesse Ministério da Propaganda e da Verdade que faria Getúlio Vargas e Joseph Goebbels aplaudirem de pé. O desgosto é imenso quando lembro que há apenas dois anos ainda assinava o Estadão. Quando me diziam “cancela essa droga”, fiando-me na história de luta pela liberdade do diário de quase 150 anos, eu dizia: “Não cancelo. Se o Estadão acabar, o Brasil acaba”. Pois é, doce ilusão! Não poderia estar mais enganada. Hoje, estou certa de que o futuro do País passa pelo fim do Esquerdão. Cancelei minha assinatura quando o vetusto pasquim defendeu em editorial o Inquérito do Fim do Mundo, aquela estrovenga inconstitucional e secreta até mesmo para os acusados de crimes futuros pelo Supremo Talibã Federal [6]. Mudou o Estadão ou mudei eu? Às vezes, me pergunto: “Por que a velha mídia desistiu de fazer jornalismo? O que essa gente está vendo que não estou conseguindo enxergar? Estarei maluca?”.  É nessa hora que agradeço aos velhos mestres J. R. Guzzo, Augusto Nunes e Alexandre Garcia por me salvarem desse mundo invertido.

A cada vez que milhões de jovens, adultos, crianças, bebês de colo, idosos, cadeirantes, brancos, negros, asiáticos e indígenas tingem pacificamente as ruas e as cidades de verde-amarelo, esses que renegam nossa bandeira e as cores da Pátria perdem terreno e são empurrados de volta para sua toca sombria. Embora ainda sejam hegemônicos na velha mídia, dominem a cultura e sejam donos da educação, muitos já intuem que isso é um tiro no pé. Sabem que o povo comum, aquele que levanta de madrugada para ganhar o pão (como fez meu pai a maior parte da sua vida), não tem nenhum respeito por eles e, cada vez mais, terá menos. Eventualmente, tentam esconder o vermelho e pegar carona nas cores do Brasil. Assim, o vermelho desaparece do santinho do candidato e a capa do pasquim mentiroso é adornada com uma tarja amarela, numa tentativa patética de evocar o tempo das Diretas Já, quando a velha imprensa tinha credibilidade porque falava sozinha e as raposas felpudas da política nos enganavam como patos.

Nenhum desses subterfúgios deu ou dará resultado. Então, por ódio a Bolsonaro e amor a Lula (ou Lúcifer, tanto faz), tentam nos desautorizar e nos tachar de antidemocráticos. Como não desistimos e jamais o faremos, agora, negam que nós sejamos o povo e querem nos roubar, de novo, nosso direito inalienável de usar o verde-amarelo. Não conseguirão! O desespero deles é nítido. A cada vez que dobram a aposta, mais um naco é retirado do véu (ou máscara) que cobre a carranca deles. Em verdade, já estão nus.

“Quando estiver atravessando o inferno, não pare”, ensinou Winston Churchill. É o nosso caso agora. Não há alternativa. Temos de seguir em frente, sem olhar para trás e, muito menos, parar.  No Sete de Setembro, mais uma vez, vamos mostrar ao mundo a fotografia da nossa alma, da nossa coragem e resiliência para conquistar o destino que almejamos como nação. Os milhões que estarão nas ruas representarão o dobro, o triplo, o quádruplo, o quíntuplo, só Deus sabe, dos que, por um motivo ou outro, com o coração partido, mas a alma lavada, não poderão estar lá presentes. Não se enganem, traidores da Pátria. Somos essa brava gente brasileira que de novo e de novo, uma vez mais e quantas outras forem necessárias, manda para longe o temor servil e clama: “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós!”[7]

Diante da pior  ameaça ao futuro do nosso país, parafraseando o mítico primeiro-ministro britânico, neste Sete de Setembro histórico, seremos milhões e cumpriremos o nosso dever de tal maneira que, mesmo que a verdadeira democracia, aquela na qual o povo é o supremo, perdure por mil anos em nossa nação, todos dirão que este foi o nosso melhor momento.[8]

 

Notas:

[1] A propósito, se mais alguém se lembrar e conhecer essa música,  ficaria grata se me informasse o nome dela.

[2] O quartel de Quitaúna, conhecido como Regimento Raposo Tavares, ocupa terras que pertenceram ao bandeirante Raposo Tavares. Foi de lá que o Capitão de Infantaria Carlos Lamarca desertou do Exército Brasileiro e roubou uma viatura e fuzis para se juntar aos guerrilheiros que queriam implantar a ditadura do proletariado. Foi também nesse quartel que morreu o soldado Mário Kozel Filho, assassinado por essa mesma guerrilha. Fonte neste link.

[3] O milagre econômico brasileiro ocorreu entre 1969 e 1973, quando a taxa média anual de expansão do Produto Interno Bruto (PIB) chegou a 10,2%.

[4] Publicado em 1962, o livro relata a história fictícia do russo Ivan Denisovich, acusado injustamente de ter espionado a favor dos alemães e descreve as condições subumanas da prisão e do sistema prisional soviético. Fonte neste link.

[5] O livro narra a experiência do autor como prisioneiro, durante onze anos, em num dos campos de concentração e trabalho forçado, da antiga União Soviética, nos tempos de Josef Stálin. Escrito entre 1958 e 1967, a obra foi publicada no ocidente no ano de 1973 e circulou clandestinamente na União Soviética, numa versão minúscula, escondida, até à sua publicação oficial no ano de 1989. Fonte neste link.

[6] Artigo Supremo Talibã Federal, de J. R. Guzzo, publicado na Revista Oeste.

[7] Evocando as belas palavras do Hino da Independência e do Hino da Proclamação da República.

[8] Em 18 de junho de 1940, o primeiro-ministro, estadista, escritor, jornalista, orador e historiador, considerado o britânico mais importante de todos os tempos, Winston Churchill, ante a ameaça de invasão vinda do território francês ocupado pelos nazistas, fez o histórico discurso encerrado pelas palavras: “Preparemo-nos, assim, para cumprir os nossos deveres, e de tal maneira que, se o império e a Commonwealth britânicos durarem mil anos, as pessoas continuem a dizer que ‘aquele foi o seu maior momento'”. Leia mais aqui.

 

 

Lia Crespo, para Vida Destra, 01/09/2021.                                                              Sigam-me no Twitter, vamos debater o meu artigo! @liacrespo

 

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