Hoje eu cheguei ao meu limite: abri a geladeira, e só havia um ovo, mas acho que nem estava bom; abri os armários, e nada, vazios. Conclusão: tenho que ir ao mercado.
Coloquei a minha armadura e saí para mais uma aventura, digna do cavaleiro Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura.

Do mercadinho à minha casa, deve haver um quilômetro inteirinho, de uma calçada larga, e, nestes tempos, completamente vazia, nem os costumeiros ciclistas se arriscam.
Mas sou o cavaleiro louco, leitor assíduo das novelas de cavalarias, não perco uma aventura. Além disso, a minha companheira pança está vazia.

Portanto, lá ia eu, distraído, curtindo um banho de sol, raro nestes dias, quando um gritinho de sirene me dá um baita susto. A viatura da polícia encosta ao meu lado:

– Aonde o senhor pensa que vai? Pergunta o policial sentado no banco do carona.

– Bom dia, policial, no meu pensar, eu vou ao mercadinho, aquele logo ali, o senhor vê? Apontei com o indicador.

– Vejo que o senhor é um irresponsável! Na sua idade perambulando por aí? O senhor sabia que estamos no meio da maior pandemia da história da humanidade?

– Como? Não, policial, não sou irresponsável, não. E não estamos na maior pandemia da história de ninguém. Pelo contrário, a humanidade já passou por coisas muito piores, e, na minha opinião, saiu-se muito bem. Uns exageros aqui e ali, mas, no total, estamos aqui, não estamos? Agora, quanto à minha idade…

– O senhor não ouviu falar que esta pandemia é pior que as grandes guerras?

– Não. Como assim? Não é possível que alguém tenha dito tal coisa, quero dizer… Bem… Espero que não tenha sido alguma autoridade… Porque, veja bem, tanto na primeira, quanto na segunda grande guerra, o saldo de mortes foi imenso, milhões. Sem contar a fome, doenças, torturas, estupros, inclusive de crianças. O senhor é capaz de imaginar bombas caindo em hospitais, nas casas, nas ruas, nas cabeças das pessoas? E, até mesmo após o término oficial da guerra: fome, miséria, a dura reconstrução. Pessoas que perderam tudo e todos que amavam; órfãos aos milhares; viúvas aos montes; mães chorando por seus filhos mortos, soldados de 16 anos. Muitos se suicidaram, outros tantos enlouqueceram. Não, não é possível que alguém tenha tido a coragem de fazer tal comparação. É, inclusive, um tremendo desrespeito ao sofrimento de milhões de judeus e outros prisioneiros dos campos de concentração. Vítimas de uma crueldade sem limites, que usava seres humanos como cobaias de laboratório. Francamente! Temos que ter consciência de nossas falas. Temos que considerar inclusive a inteligência de quem nos está ouvindo, não podemos, simplesmente, sair por aí…

– Ok, ok, ok, senhor! Não posso passar o dia filosofando com o senhor, nem com ninguém! O senhor não pode ficar na rua e pronto! É a ordem! Então, volte pra casa e mande um jovem ao mercado.

– O problema é que moro só; meu carro está quebrado; não há mecânico trabalhando; e estou com fome, preciso comprar comida.

– Por que o senhor não pede para o mercado entregar, como as outras pessoas estão fazendo? Isso é o certo!

– Pra mim o perigo não diminui em nada: no mercado outros vão retirar o produto da prateleira, para colocar na minha sacola; outras mãos pegarão nesses produtos para embalar, para entregar, etc. Terei contato com o entregador. Enfim, talvez eu seja mais cuidadoso do que o pessoal do mercado, talvez…

– Mas que velho teimoso! Tudo bem! Vai e volta rápido! Agora, espero que outro policial não pare o senhor. Já que o senhor falou tanto em TALVEZ, talvez ele não seja tão bonzinho e aplique a lei na íntegra.

– Eu agradeço, policial. Que Deus abençoe o senhor e a sua família! Eu vou e volto bem rapidinho. Até mais, vai com Deus, bom trabalho!

Eles se foram, e eu fiquei pensando cá com os meus botões: Mas que raio de lei será essa?

Gogol, para Vida Destra, 01/04/2.020.

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Celeste Calabrez
Celeste Calabrez
2 meses atrás

Parabéns!
Uma situação corriqueira, leva a questionar valores, posturas e informação.

Ana Melo
Ana Melo
2 meses atrás

Fiquei encantada com a leitura. Consegui ver a cena em sua amplitude. Muito bom. Parabéns !!!!

Claudio Laurini
Claudio Laurini
2 meses atrás

Parabéns pelo ótimo texto acima. O trabalho de vcs vão colaborar em muito para o esclarecimento dos acontecimentos no mundo.

Eliana
Eliana
2 meses atrás

Pois é Gogol, mesmo não tendo sido abordada passei um baita susto na 2ª feira (28) ao sair de casa para me vacinar. Já, ao sair do prédio, me deparei com pelo menos uns 4 policiais, segui viagem, no metrô, foram vários, achei que iria em cana, mas acabei mesmo no posto de vacinação. Desde então não saio de casa, prefiro não me arriscar, o governador do meu estado é doido. Mas e agora? Estou vacinada contra a influenza, mas não contra a fome.

Luiz Antonio de Santa Ritta
2 meses atrás

Divertidíssimo artigo Gogol que nos traz Dom Quixote de La Mancha na sua briga incessante contra os Moinhos de Vento, que no presente caso são os policiais do pulha do Agripino, para simplesmente vencer a batalha até o mercadinho.

Robson Leite
2 meses atrás

Que show Gogol!
Que texto leve, com um toque de humor, mas trazendo uma crítica a um problema extremamente sério.
Uma didática impecável!!!
Se me permite vou divulgar em minha rede no LinkedIn, este texto merece o máximo de alcance.
Te admiro cada vez mais!
Continue nos brindando com seus textos geniais!
Forte abraço!

Angelo
2 meses atrás

Texto leve e brilhante! Parabéns, Gogol!
Já divulguei no Twitter.