*Imagem de capa: Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (OSESP), na Sala São Paulo.

 

“Domingo é dia que normalmente falo sobre o concerto de sábado. Hoje será diferente, vou falar sobre o desastre de sábado. Mal começara o concerto, iniciaram-se os gritos de uma criança nos camarotes superiores, dois andares acima da plateia onde eu estava e exatamente sobre a minha cabeça. Todos esperamos que uma mãe ou um pai controlasse a situação. Em vão. Os gritos da criança continuaram. Primeira peça, pausa. Segunda peça, um concerto barroco para trompete. A criança continuava. No segundo movimento, um adágio, o solista interrompe o concerto e se põe a tocar uma canção de ninar, na direção da criança. O público ri, desconforto geral.”

Esse é o início do relato postado no Facebook por Jairo José da Silva, professor aposentado do Departamento de Matemática da Unesp, de Rio Claro, sobre a situação que vivenciou durante o concerto da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp), na Sala São Paulo, no dia 2 de abril – não por acaso, como veremos, o Dia Mundial da Conscientização sobre o Autismo.

Como nenhum dos responsáveis pelo evento tomasse providências para solucionar o problema, o professor Jairo disse ter se aproximado do palco e tentado em vão “chamar a atenção do diretor artístico, no camarote vip, para pedir alguma ação”. Nesse momento, duas violinistas aproveitaram para pedir-lhe que chamasse alguém, porque “os integrantes da orquestra estavam bem nervosos com o incidente”. Segundo o professor, “várias outras pessoas” procuraram “os funcionários pedindo providências” e foram informadas de que aquela era uma ação “inclusiva”, promovida pela Osesp. Um homem até lhe mostrou no celular uma mensagem do diretor da Orquestra, na qual dizia: “Se eu tiro essa criança da sala, amanhã, o Ministério Público (MP) está na minha porta”.

Nesse ponto do relato, o professor Jairo questiona se seria “correto fazer a iniciação musical de crianças arruinando o espetáculo para mais de 1.000 pessoas que pagaram até R$ 200 pelo ingresso. Sem avisar! Várias pessoas irritadas e o pessoal da Sala não apenas se dizendo impotente, mas defendendo a mãe e sua atitude. Inclusão, diziam, como se a inclusão de um pudesse ser feita às custas da exclusão de 1.000”.

A situação piorou, afirma o professor, quando resolveu pedir seu dinheiro de volta para uma pessoa que, aparentemente, era a responsável pela ideia de “trazer crianças barulhentas ao concerto”. Nesse momento, um homem, que “parecia em tudo e por tudo um não frequentador habitual dos concertos”, se aproximou e começou a “hostilizá-lo” e a “parabenizar” a coordenadora pela iniciativa. Jairo da Silva afirma ter sido seguido por esse homem que dizia que era ele, o professor, que deveria ser retirado do recinto. Durante a primeira peça da segunda parte do espetáculo, como “os gritos continuaram e um muxoxo geral” percorreu o ambiente, o professor decidiu abandonar o espetáculo e aguardar amigos e parentes no café do local.

Na saída, conforme sua explanação, ele e seus acompanhantes foram cercados pelo homem que o havia abordado, o menino que gritava e a mãe dele, além de cinco policiais “da tropa de choque”. Essa foi a primeira vez que viu o menino, que “parecia autista”, e a mãe, que aparentava ser “uma pessoa bastante simples”. Todos foram escoltados até a van da Polícia Militar estacionada em frente à Sala São Paulo. A mãe, com o “testemunho” do homem, acusou o professor de ter injuriado a criança. Os depoimentos tomaram cerca de hora e meia e o professor foi liberado.

No final de sua postagem, Jairo da Silva expressa sua suspeita de que tudo não tenha passado de uma “armação”. De acordo com ele, a situação “com potencial lacrador” poderia ter sido criada para causar “stress e forçar uma reação que seria classificada como preconceituosa”. Ele acredita que, “enquanto a mãe ficava no alto para garantir que todos ouvissem os gritos da pobre criança, o homenzinho percorria o andar térreo em busca de um antagonista para poder fazer o que fez. Eu fui o sorteado. Tenho a impressão de que ainda vou ouvir falar deles”. Dito e feito.

A versão da mãe

No dia 5 de abril de 2022, a jornalista Patrícia Faermann publicou, no jornal de esquerda Grupo Gente Nova (GGN), a matéria intitulada “’Onde está esse monstrengo?’: criança com deficiência auditiva é humilhada em orquestra em São Paulo”, com a linha fina “Amante da música e da arte, o sonho de Heitor terminou em trauma, quando um senhor humilhou e ofendeu a criança”.[1]

Baseada nas declarações que a mãe da criança, Viviane (Vivi) Castro, fez em seu perfil do Facebook, a matéria afirma que Heitor, de 7 anos, não tem diagnóstico de autismo, apresenta “poucas respostas a estímulos” e tem deficiência auditiva. Nas palavras da mãe, seu filho é um “menino incrível, com deficiência auditiva”, que tem um implante coclear e uma suspeita de leve autismo, “ainda em fase de diagnóstico”.

Segundo a matéria, como um “amante da música e da arte”, Heitor  estava realizando o “sonho de assistir a um concerto” da Osesp e respondia “à música clássica com aplausos e reações pontuais de exaltação e alegria, contrastando com o polido e silencioso ambiente da alta sociedade paulistana”. A mãe afirma que Heitor, “durante a apresentação, em alguns momentos, demonstrava estar em êxtase, e, claro, a seu modo, batendo palmas e murmurando”.

De acordo com a matéria, “o sonho terminou em trauma” quando, “durante a pausa do concerto”, Jairo José da Silva “humilhou e ofendeu” Heitor e “esbravejou gritos às funcionárias do teatro para que expulsassem a criança”. Conforme o jornal, isso ocorreu apesar de as reações do menino terem sido recebidas “com sensibilidade”, tanto pela “equipe de segurança e recepção da Sala São Paulo” como pelo trompetista Pacho Flores, que até “dedicou uma canção de ninar” ao menino e enviou “um beijo com as mãos”, em direção ao camarote de onde mãe e filho assistiam ao concerto.

Mas, a mãe reconheceu que nem todos os músicos estavam satisfeitos, pois, em sua postagem, conta que, “durante o intervalo, um músico da orquestra” abriu a porta de seu camarote e “começou a gesticular como se exigisse” que ela tomasse uma “providência”, em relação ao comportamento do menino. Ela afirma que, pouco depois, pôde ouvir “quando um senhor [que, provavelmente, depois, foi] identificado [como] assinante da Osesp,  mesmo tendo sido informado que meu filho é uma criança com deficiência, começou a gritar da plateia, questionando se ‘alguém vai calar a boca desse menino?’ Em alto e bom som, ele questionava atrocidades como ‘onde está esse monstrengo?’ e ‘parece que não é só ele que é débil mental aqui’.” De acordo com a mãe, “o mesmo senhor esbravejou muito com os membros da segurança” da Sala São Paulo e exigiu que o menino fosse expulso do local.

A mãe, “coberta em lágrimas”, disse ter visto que outras pessoas “esbravejavam, gesticulando” para que seu  filho se calasse. “Não bastasse a dor diária, da luta contra a discriminação, ontem me senti humilhada, ofendida e acuada.  Não conseguia segurar as lágrimas de desespero com a situação, sozinha e com medo. Em pânico, chamei a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana.”

A matéria do GGN informa que, “da plateia, Fábio Gusman, procurador judicial civil da Universidade de São Paulo (USP)”, testemunhou os fatos e se ofereceu para ajudar os policiais a encontrarem o professor Jairo e levá-lo à delegacia para fazer um boletim de ocorrência. Ao jornal, Gusman afirmou que é possível entrar com ações judiciais contra o músico da Osesp, por ter abordado a mãe da criança em seu camarote, e contra o professor, “pelas ofensas”. Ele se ofereceu para atuar “como testemunha ou como advogado, mas lamenta que, provavelmente, em qualquer das opções, o episódio seja minimizado na instâncias judiciais”.

Viviane Castro termina seu relato afirmando que as “lágrimas ainda tomam meu rosto, quando lembro da humilhação e do medo que senti. Mas não vamos desistir de levar o Heitor para vivenciar novas experiências! Lugar de criança com deficiência é onde ela quiser estar!”

A palavra da Osesp

De acordo com o jornal GGN, a Osesp declarou que: “A oferta de programas de excelência artística, em uma sala de concertos reconhecida por suas qualidades acústicas e arquitetônicas, não é um fim em si mesmo, mas uma maneira de expressar nossos mais profundos valores humanistas, de entendimento e de tolerância. Assim, chegamos à premissa de que os concertos devem ser inclusivos e acessíveis a todos os cidadãos. Descontentamentos podem ter ocorrido e, nesses casos, desde já nos colocamos à disposição para ressarcimento do valor dos ingressos daqueles que se sentiram lesados com o acontecimento. Sabemos das demandas dos diversos públicos, mas, em nenhuma hipótese, nos afastaremos de nosso ideal de que a arte é um caminho para uma maior compreensão das diferenças. Se houve dissenso entre pessoas durante o evento é porque ele existe na sociedade de forma mais ampla.”[2]

Uma situação complexa 

Decidi não resumir demais os relatos porque creio que esses depoimentos em primeira pessoa são importantes para compreender quais valores estão envolvidos nessa situação complexa, em que todos os atores parecem estar certos e errados ao mesmo tempo.

Será mesmo que lugar de criança com deficiência é onde ela quiser estar? Creio que para responder a essa pergunta precisaremos analisar vários fatores.

Em primeiro lugar, evidentemente, uma criança com deficiência é, antes de tudo, uma criança. E embora todas as crianças devam ser estimuladas a exprimir suas predileções, incentivadas a fazer suas escolhas, considerando sua idade e maturidade, além de encorajadas a assumir as consequências por suas opções, em última instância, quem deve decidir quais atividades e locais são adequados e seguros para seus filhos menores de idade são os pais e as mães, sempre levando em conta, é claro, as leis e o convívio em sociedade. Pensando nisso, entrevistei duas mães.

Desyrée T. Kseib, cujo filho Gabriel, de 18 anos, tem autismo leve, relata que “quando era pequeno”, seu filho “não parava quieto, andava de um lado para o outro, nunca gritou, mas emitia um ruído. O pai e eu não o levávamos ao cinema, teatro, muito menos em um concerto. Quando ele começou a controlar esses impulsos, quando começou a entender que esse comportamento em lugares públicos não era adequado, passamos a levá-lo em todos os lugares. Nunca tivemos problemas. Nunca usamos a condição de autista para qualquer favorecimento ou vitimismo. Hoje ele participa de qualquer evento e, se houver barulho excessivo ou algo que o incomode muito, ele se retira. Há bastante tempo, só recebemos elogio pela educação e amorosidade dele. Eu jamais levaria o Gabriel com 7 anos a um concerto. A mãe, para mim, é a responsável pelo tumulto na Sala São Paulo. Se não foi uma armação, a mãe e o tal homem se aproveitaram da irritação do Jairo”.

Marinalva Macedo é mãe de Thales, um jovem de 24 anos, com paralisia cerebral e perda auditiva bilateral severa, e cuja primeira língua é libras. Ela entende o desejo da mãe do Heitor de “realizar o desejo do filho” e lamenta o “constrangimento” pelo qual passou. Marinalva diz ter passado “por situações parecidas” até aprender que, “antes de ir a alguns eventos”, era preciso saber se o lugar estava adequadamente preparado, se era “acessível para pessoas com deficiência, com segurança e intérprete de libras”, se fosse o caso. “Muitos lugares e pessoas não estão preparados para as diferenças e não sabem respeitar,  só apontar. Sobre o ‘professor’ e sua falta de empatia para com a mãe e seu filho, digo que isso dói muito. Nossos filhos não são o ‘problema’, é a sociedade que continua sem meios, serviços e instrumentos adequados para que todas as pessoas sejam incluídas.” Fazendo a ressalva de que “cada caso é um caso”, Marinalva não considera “adequado levar uma criança com deficiência auditiva a um concerto, sem que a criança e o ambiente estejam devidamente preparados para isso, de modo a evitar que um momento que deveria ser prazeroso se torne desastroso como foi para essa mãe e essa criança.”

A opinião dos leitores do jornal GGN

Então, tendo por base as palavras de Desyrée e Marinalva, o segundo fator a ser considerado é saber se é adequado e justo, para todos os envolvidos, levar a um concerto uma criança, deficiente ou não, que não esteja devidamente preparada para usufruir e deixar que os demais também desfrutem da experiência. Os leitores do jornal GGN têm opiniões divergentes sobre essa questão.

Para Danielle, Heitor “tem sorte de ter uma mãe tão dedicada, que entende a importância da cultura para o desenvolvimento completo da criança e proporciona a ele esse contato. É direito dele ter acesso a esses espaços de experiência e de convivência. Eticamente, a sociedade tem muito a avançar, é lamentável ver esse tipo de coisa ainda acontecer”.

Clara discorda: “As pessoas estão cada vez mais egoístas e acham que podem fazer o que quiserem. Já pensaram que, na sala, estavam mais de 1.000 pessoas que pagaram seus ingressos para um concerto, sem saber que teriam uma situação de inclusão? Muitos são frequentadores assíduos, acostumados com o ‘protocolo’ da apresentação, das exigências de silêncio, isso se chama educação e respeito. Sinto muito pela mãe, mais ainda pela criança, mas não era um lugar para levar o menino. Existem projetos de inclusão, onde organizadores são preparados para situações como essa, com público sabedor do que vai encontrar. Tem coisas que são imiscíveis. Pelo visto, nem plateia, nem orquestra, nem organizadores estavam preparados para uma situação dessas”.

Larissa esteve na plateia naquele dia e relatou: “Presenciei esse ato infeliz. Foi muito triste e repudiante. Fiquei tão abalada, que me senti mal pela mãe do menino e não aguentei até o final do concerto. Fui embora antes. Quem estragou a minha noite foi esse ser humano obscuro com seus gritos e ‘ordens’ nojentas. Foi uma situação horrorosa. Sinto muito por essa mãe e seu pequeno”.

Danilo pergunta: “Ninguém parou para refletir que os gritos do menino autista indicavam que ele estava em sofrimento? O autista percebe o mundo de forma enviesada e reage conforme. Para a plateia, deleite para os ouvidos. Para o menino autista, sons do fim dos tempos. Uma incrível mistura de uma mãe, que violenta o próprio filho, com um professor, que elogiara truculência policial, revela a falta de modos e o desprezo pela alta cultura vigente, entre muitos que assistem às apresentações, ao defender o indefensável, em nome de uma suposta inclusão. Inclusão de que, exatamente? Ah, sim, do direito de uma família destruir uma refinada obra de arte”.

Teresa afirma que a Osesp “deveria convidar a criança a um próximo concerto. No mínimo. E se desculpar. Quanto ao professor brucutu, que gritou na sala, deveria ser convidado a sair. Ele pagou, mas não é dono do espetáculo”.

Para Dezio R. Legno, “concerto de orquestra sinfônica é um espetáculo que exige o mais absoluto silêncio da plateia. Se a orquestra ou os organizadores tivessem a intenção de homenagear crianças com deficiência deveriam fazê-lo em seção especial. Uma matinê, por exemplo. Um absurdo o que ocorreu. O professor Jairo apenas exigiu que os organizadores tivessem consciência do que estava ocorrendo. Não se deve levar crianças pequenas a concertos noturnos. Simples assim”.

Marxismo cultural e as políticas identitárias

Como uma ativista (hoje não muito ativa) do movimento das pessoas com deficiência, tenho um terceiro fator a considerar. Além do direito à inclusão das pessoas (sobretudo das crianças) com deficiência e do direito de todas as pessoas, deficientes ou não, usufruírem prazerosamente de um concerto sinfônico, acredito que é preciso levar em conta o perigo representado pela iminente captura da causa das pessoas com deficiência pelos “progressistas” que professam a fé no marxismo cultural, na política identitária e no politicamente correto, que vêm assolando o mundo desde a queda do muro de Berlim, em 1989.[3]

No dizer de Flávio Gordon, autor do best-seller A Corrupção da Inteligência: intelectuais e poder no Brasil, de acordo com o marxismo cultural, a história já não se limita à “luta de classes (ricos vs. pobres)”, mas também incorpora a luta “de raças (brancos vs. negros) e de gênero (homens vs. mulheres, héteros vs. gays, cis vs. trans)”. Segundo as “políticas de identidade”, as pessoas não devem “ser percebidas à luz da tradição liberal – ou seja, como indivíduos únicos e insubstituíveis –, mas segundo uma lógica coletivista, como representantes permutáveis de determinada classe, raça ou gênero”. Sob a ótica da política identitária, não basta responder “eu sou Fulano de Tal” à  pergunta “quem é você?” É preciso acrescentar “sou Fulano de Tal, um homem negro, cisgênero, heterossexual” e assim por diante.[4]

Flavio Gordon explica que, de acordo com as políticas identitárias, oprimidos “serão sempre ‘oprimidos’, mesmo quando oprimem. ‘Opressores’ serão sempre ‘opressores’, mesmo quando vítimas de opressão. Racistas não são os que cometem racismo, mas os que pertencem à categoria imutável dos racistas apriorísticos. Agressores não são os que cometem agressão, mas os que, prévia e inexoravelmente, foram incluídos na categoria dos agressores. Um negro que discrimine racialmente um branco não é racista, como o seria um branco que discriminasse um negro. Não há exagero algum no que digo. Adeptos do politicamente correto dizem essas coisas e agem o tempo todo com base nesse critério”.

“Me inclua fora dessa!”

Se, por esse critério, os deficientes são, forçosamente,  os “oprimidos” [5], então, todo o restante da humanidade é, irremediavelmente, o “opressor”?

Acho que não. De todo modo, é irônico lembrar que, pelo menos em seu início, em 1980, o movimento das pessoas com deficiência estava focado justamente em desfazer a imagem de vítima que a sociedade tinha (e, em alguma medida, ainda tem) em relação a essas pessoas.

Se, de acordo com o marxismo cultural, aos “opressores” só resta reconhecer seus “crimes” e “descontruir” suas identidades, dos “historicamente oprimidos – mulheres, negros, gays e deficientes –, espera-se que aprendam “a amar e valorizar suas identidades”.[6] Daí, por mais constrangedor que isso seja, frequentemente, temos declarações do tipo “amo ser negro, amo ser deficiente”. (Só não vale dizer “tenho orgulho de ser mulher”, porque aí você corre o risco de ser cancelada, como aconteceu com Adele,  já que essa afirmação “diminuiria” outra classe de “oprimidos”, a dos trans.[7])

Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Não por acaso, um dos principais motes do movimento, no Brasil daquela época, era “nem coitadinho, nem super-herói”, já que essas duas imagens são faces de uma mesma moeda, ambas injustas e danosas para a inclusão e a dignidade das pessoas deficientes.[8]

Conforme escrevi no artigo Pessoas com Deficiência e a Construção da Cidadania, de um lado, a imagem do deficiente “coitadinho” inspira pena e “atitudes paternalistas, assistencialistas e caritativas, ou seja, exclui toda a noção de respeito aos mais básicos direitos como, por exemplo, o da autodeterminação”. De outro lado, a visão de super-herói causa grande admiração e “induz a que se desconsidere a necessidade de a sociedade remover os obstáculos que dificultam a vida dos deficientes, já que a força de vontade, a coragem e a determinação dessas pessoas seriam suficientes para que fossem bem-sucedidas na vida e, em decorrência, serem integradas à sociedade”.[9]

Então, estou convencida de que os líderes e ativistas jurássicos mandariam um “Me inclua fora dessa!”, em alto e bom som, a essa história de “oprimidos e opressores”, até porque a mistura da causa dos direitos das pessoas deficientes com a política partidária foi evitada ao máximo pelo movimento. No entanto, creio que esse imbricamento vem se tornando cada vez mais difícil de combater.

Por se considerarem os mocinhos da história e, consequentemente, os defensores dos “oprimidos”, os “progressistas” arrogam a si o direito de classificar como “bolsonaristas”  aqueles que eles identificam como “opressores”. É o que demonstram três dos comentários postados na matéria do GGN, como veremos a seguir.

Cézar afirma que a atitude do professor Jairo mostra que ele tem “todo jeito de ser um boçalnarista”. Por sua vez, Maurício acredita que aquele que postou um comentário a favor do professor tem um “bolsonarismo enrustido” que o impede de “pensar”, pois “há uma GIGANTESCA diferença entre protestar contra gritos de uma criança autista em um show e ofendê-la, humilhá-la com palavras que machucam”.

Por seu lado, Laércio Raphael escreveu: “Eu assisti ao espetáculo, e cheguei a pedir à Sala que isso não se repita. O menino acabou com o concerto. Aceito inclusão, é óbvio. Mas lamento não estar de acordo com o fato. Levem-no no ensaio, onde isso é mais aceito. Num ambiente onde tossir incomoda a todos, ouvir aquela gritaria e paus batendo acabou com o espetáculo para mim. E não sou bolsonarista, tenho ódio ao homem e seu séquito. Se fosse um show de rock, tudo bem. Mas num local onde nos pedem para desligar celulares para não atrapalhar plateia e músicos, sinto muito, não dá”.

A humanidade nunca teve tanta inclusão

Faz parte da natureza do marxismo cultural fazer tábula rasa de nossas vivências e da própria história para nos convencer de que nunca existiram as conquistas obtidas – com muito sangue, suor e lágrimas – na área dos direitos civis e humanos. Assim, os ditos progressistas menosprezam e jogam no lixo a luta de Martin Luther King e Harvey Milk, por exemplo. Para manter sob seu jugo diversas categorias de pessoas, os “justiceiros da identidade”[10] espalham narrativas de que esta é a era menos inclusiva e mais preconceituosa da história.

Evidentemente, qualquer pessoa intelectualmente honesta, que não seja jovem e/ou ignorante demais, sabe que isso é uma falácia. Ainda há preconceito? Ainda existe discriminação? Há pessoas excluídas de todos os benefícios oferecidos pela sociedade? Sem dúvida nenhuma, mas, a verdade é que a humanidade nunca desfrutou de tanto conforto e tamanha riqueza e mais ampla inclusão como atualmente.[11]

O movimento das pessoas deficientes, em pouco mais de 40 anos, logrou a aprovação de uma legislação robusta que, se colocada em prática, faria do Brasil um dos países mais acessíveis e inclusivos do mundo. Mas, creio, ainda mais importante do que isso, foi a mudança cultural havida a partir do momento em que se tornou audível o discurso do movimento, transformando a maneira como os governos e a sociedade passaram a perceber e a reagir às pessoas com deficiência. Quem viveu na época pré-movimento sabe que o preconceito, a discriminação e a ausência de acessibilidade eram encarados como perfeitamente normais ou nem eram percebidos. Hoje, situações desse tipo são entendidas como inaceitáveis e motivo de constrangimento a seus causadores.

Entretanto, os ativistas e líderes do movimento, bem como os entusiastas da inclusão das pessoas com deficiência, sempre deixaram claro que, para respeitar os direitos dessas pessoas, não era preciso nem desejável passar por cima dos direitos dos outros. Até porque, pelo menos em sua origem, o movimento de pessoas com deficiência sempre fez questão de apregoar que a acessibilidade e a inclusão seriam benéficas para toda a sociedade. Assim, calçadas bem cuidadas e sem desnível, barras de apoio, guias rebaixadas, elevadores, rampas suaves, transportes com pisos rebaixados, portas e corredores mais largos, informações impressas com tipos maiores, legendas ocultas em programas de TV, entre outros recursos de acessibilidade, também facilitam a vida de uma ampla gama de pessoas, tais como mulheres gestantes, idosos, crianças, doentes, obesos, pessoas com limitações físicas temporárias, com malas, empurrando carrinhos de bebê ou de compras etc.

Mas, a realidade é que, com décadas de dominação na educação, na academia, no entretenimento e na velha imprensa, a cultura do vitimismo e a ditadura do politicamente correto vêm, a passos largos, lançando seus tentáculos sobre a causa das pessoas com deficiência também.[12]

Acredito que, da mesma forma como a causa trans está sendo prejudicada, ao defender que homens biológicos compitam com mulheres, colocando em risco a existência do esporte feminino, o movimento de pessoas deficientes atuará contra seus próprios interesses se ignorar os direitos e as necessidades dos demais cidadãos.

Se isso ocorrer, uma causa – que, com dignidade e sem vitimismo, angariou a simpatia e o apoio de todo o espectro político e da sociedade em geral – pode passar a ser vista com antipatia e como defensora de privilégios.

 

Notas:

[1] Leia a íntegra aqui.

[2] Osesp lamenta humilhação de criança com deficiência auditiva em concerto em SP. Leia aqui.

[3] “A Escola de Frankfurt, o marxismo cultural, e o politicamente correto como ferramenta de controle” (Leia aqui) e O que é marxismo cultural? (Leia aqui)

[4] O politicamente correto, esse desconhecido, leia aqui.

[5] A menos, é claro, que sejam “bolsonaristas” e, nesse caso, se transmutam em “fascistas”.

[6] Como as pautas identitárias estão se tornando a nova religião de um mundo sem Deus, leia aqui.

[7] “Adele diz ter orgulho de ser mulher e é acusada de transfobia”, leia mais aqui.

[8] “Nem coitadinho nem super-herói”, título de uma matéria do Folhetim, suplemento da Folha de S. Paulo que, em 1981, fez uma edição especial em alusão ao Ano Internacional das Pessoas Deficientes (AIPD).

[9] Acesse o artigo na íntegra aqui.

[10] Como as pautas identitárias estão se tornando a nova religião de um mundo sem Deus, leia mais aqui.

[11] Racismo estrutural? Como combater a teoria racial crítica: saiba mais aqui.

[12] “Capacitismo e microagressão: A cultura do mimimi alcança os deficientes”, leia o artigo aqui.

 

 

Lia Crespo, para Vida Destra, 15/04/2022.                                                              Sigam-me no Twitter, vamos debater o meu artigo! @liacrespo

 

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WELTON REIS DOS SANTOS
2 meses atrás

Viva o Rock’n’roll!!! Na zona o que é da zona! Cada um no seu quadrado! O silêncio redime os pecados! Sensibilidade é sentimento para poucos! Lia, vivemos o auge do sensacionalismo hipócrita e doentio. A verdade está nas suas próprias palavras, Faz parte da natureza do marxismo cultural fazer tábula rasa de nossas vivências e da própria história para nos convencer de que nunca existiram as conquistas obtidas. Li e reli a Lia! Dali vi o que não vivi Se não li, não vivi Se não vivi, porque não li O quê a Lia nos diz A verdade sobre o… Read more »

Luiz Garcia Bertotti
Luiz Garcia Bertotti
2 meses atrás

A esquerda sempre anseia por um cadáver, de preferência algum membro bem obscuro de sua seita satânica, para não afetar a cúpula dirigente. Como a visão de cadáveres é desagradável e pode chocar os membros mais frágeis da seita, passaram em investir politicamente nas “vítimas da opressão” vivas e em condições de despertar comiseração e revolta. Mulheres, mulheres negras, mulheres pobres, mulheres que antes eram homens, mulheres negras pobres que antes eram homens. Agora estão investindo nas crianças, e as com deficiência são ainda melhores para acender a fogueira lacradora dessa gente. Um dia vão achar um garoto negro de… Read more »

Last edited 2 meses atrás by Luiz Garcia Bertotti