Imagem de capa: Tour com cadeira especial torna possível a visita de pessoas com deficiência ao sítio arqueológico de Machu Picchu.

 

A maioria das pessoas, quando resolve viajar de férias, escolhe o local, faz uma rápida pesquisa na internet, descobre  as passagens mais baratas e os melhores hotéis com as diárias mais em conta. Escolheu, comprou, reservou. Partiu! Porém, por falta de acessibilidade e pelo despreparo dos profissionais da área, para as pessoas com deficiência a decisão de viajar não é tão simples.  A situação é pior nos países menos desenvolvidos, mas, de modo geral, o turista com deficiência encara todo tipo de desconfortos, obstáculos e humilhações mundo afora.

Para minorar o problema, foi recentemente lançada a norma internacional Turismo Acessível para Todos (ISO 21902), da Organização Internacional para Padronização (ISO), com apoio da Organização Mundial do Turismo (OMT). Essa é a primeira norma internacional com requisitos e diretrizes a serem adotados por autoridades nacionais, regionais e locais, e toda a cadeia de serviços e equipamentos ligados ao turismo (hotéis, agências de viagens, animação turística, transporte, etc.), com o objetivo de melhorar  o acesso ao turismo para as pessoas com deficiências física, sensorial ou cognitiva, além de idosos, crianças, mulheres grávidas, pessoas obesas, pessoas com problemas de locomoção temporários, cardíacos, famílias com crianças pequenas, enfim, quase todo mundo.

Considerando que esse público dificilmente viaja sozinho, pode-se afirmar  que o turismo, sobretudo o brasileiro, é um negócio que negligencia milhões de potenciais consumidores [1] e, claro, com isso perde muito dinheiro. Para se ter uma ideia, o mais recente relatório da Open Doors Organization (ODO)[2], organização especializada nesse nicho de mercado, mostra que, entre 2018 e 2019, nos Estados Unidos, 27 milhões de viajantes gastaram 58,7 bilhões de dólares, em 81 milhões de viagens.

Mas, o que é um destino turístico acessível? Tudo vai depender do grau de acessibilidade que a pessoa precisa ou do nível de dificuldades e desafios que ela aceita enfrentar. Mas, grosso modo, para um usuário de cadeiras de rodas, a cidade de Santos, no litoral de São Paulo, com seus planos e bem-cuidados calçadões e jardins na orla da praia, é muito mais acessível do que a cidade colonial de Parati, no Rio de Janeiro, e suas ruas pavimentadas com pedras.

No entanto, quando há vontade e criatividade, é possível tornar amigável até mesmo as cidades históricas e os locais mais inesperados, como o sítio arqueológico Machu Picchu, no Peru, que tem visita adaptada para deficientes, usando uma cadeira de rodas especial, oferecida pela agência Wheel the World, que também faz viagens para a Ilha de Páscoa, no Chile, e para as ruínas do povo Zapoteca, no México.[3]

No Brasil, desde 1985, quando foi editada pela primeira vez, a norma NBR 9050/2020, da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), traz soluções para promover acessibilidade a pessoas com deficiência em edificações, mobiliário, espaços e equipamentos urbanos.  De acordo com a Lei da Acessibilidade, regulamentada  pelo Decreto nº 5.296/2004, mesmo os prédios considerados tombados pelo patrimônio público devem e podem ser tornados acessíveis. Para isso, devem obedecer aos ditames do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN)[4], para que suas características históricas não sejam prejudicadas, evidentemente.

Laura Martins, em seu blog Cadeira Voadora [5] que contém muitas informações e dicas sobre turismo para deficientes, explica que, no que diz respeito a hotéis, basicamente, se não oferecer segurança e autonomia, não é completamente acessível. “A pessoa com deficiência precisa ter segurança para se locomover, para utilizar equipamentos, para tomar banho e por aí vai. Veja dois exemplos: é raro encontrar plataformas elevatórias que sejam de fato seguras. E muitos banheiros considerados acessíveis não têm barras de apoio, portanto não são de fato acessíveis”, assevera Laura.

E quanto à autonomia? Laura explica que não é “que a gente não possa pedir ajuda às pessoas, afinal todo mundo às vezes precisa recorrer ao outro. Porém, se a pessoa com deficiência não pode entrar e sair do hotel quando tem vontade; se não alcança a comida na hora de se servir; se não pode tomar o café da manhã se não houver quem a ajude, então, ela não tem autonomia”. Para  Laura, o conceito de autonomia é difícil de ser “compreendido por pessoas que não têm deficiência”, porque em nossa sociedade ainda “persiste a ideia de que é preciso ‘ajudar o deficiente’, o que é reflexo da visão assistencialista e caritativa que ainda vigora e que valoriza a tutela”.

A cultura do jeitinho, típica do brasileiro, de um lado, resulta em soluções criativas, de outro, induz a crer que as diretrizes não precisam ser fielmente seguidas. Desse modo, no mundo real, a norma NBR 9050/2020, apesar de fazer parte integrante de quase toda legislação brasileira sobre o tema,  muitas vezes é  ignorada ou mal aplicada. Nos hotéis, é comum encontrar banheiros supostamente acessíveis, mas, cujo uso, na prática, é impossível ou muito arriscado porque não têm barras de apoio ou porque o vaso sanitário não tem a altura adequada. Muitas vezes, o banho é frustrado porque um pequeno degrau impede o acesso da cadeira de rodas ao boxe. São raríssimas as piscinas com mecanismos que possibilitam a entrada e saída confortáveis e seguras para deficientes ou idosos. Algumas plataformas elevatórias, feitas para vencer poucos degraus, não suportam cadeiras de rodas motorizadas, que são maiores e mais pesadas. Às vezes, são coisas sutis, como colchões muito macios,  camas baixas demais e até cabideiros muito altos, o que tornam um quarto acessível ou não. Enfim, o que para você é um desnível de um centímetro pode ser percebido como um muro por um cadeirante.

Felizmente, ainda que raras, há iniciativas positivas também. Um exemplo é a cidade de Socorro, situada na Serra da Mantiqueira, em São Paulo, considerada uma referência no que diz respeito ao turismo de aventura acessível para todos. A cidade exige de todo empreendimento que queira obter o alvará de funcionamento o cumprimento da legislação referente à acessibilidade.[6]

Mas, não é apenas a arquitetura em hotéis, restaurantes, bares, museus, casas de espetáculos, estádios esportivos, edificações históricas, pontos turísticos, trilhas, parques, jardins e outros equipamentos públicos de interesse turístico, que precisa ser acessível. Tão importante quanto rampas e sanitários adequados a cadeiras de rodas, é o treinamento do pessoal para o atendimento a esse público. Pois, não é raro, por exemplo, o garçom perguntar ao acompanhante o que a pessoa com deficiência deseja comer, deduzindo erroneamente que, por ser deficiente, ela não tem independência para fazer as próprias escolhas. Além disso, também é fundamental a oferta de informação em braile,  audiodescrição, intérpretes de língua de sinais e o acesso franqueado do cão-guia e do cão de apoio, quando devidamente paramentados.

Ao padronizar soluções específicas para o turismo acessível, a norma internacional ISO 21902 pode incentivar a concretização de medidas adequadas. A esperança é que, num futuro não muito distante, ao chegar a seu destino, o turista com deficiência não precise agradecer aos céus porque sua cadeira de rodas não foi extraviada, nem quebrada durante o trajeto. Talvez nem precise se considerar uma pessoa de muita sorte porque, durante sua viagem de férias, conseguiu tomar banhos relaxantes, usar o banheiro com conforto e segurança, comer e descansar com autonomia, passear e se divertir como qualquer turista, cujos perrengues [7], no máximo, podem resultar em ótimas histórias para contar aos amigos.

 

Notas:

[1] Para saber mais sobre o perfil do turista com deficiência, acesse este link.

[2] Mais detalhes aqui.

[3] Leia sobre outros exemplos de turismo acessível neste link.

[4] Acesse o link https://giselelg.jusbrasil.com.br/artigos/708030697/predios-tombados-e-pracas-acessiveis

[5] Mais informações neste  link.

[6] Para saber mais, acesse aqui.

[7] Uma cadeirante na madrugada de Paris, por Lia Crespo. Leia aqui!

 

 

Lia Crespo, para Vida Destra, 02/08/2021.                                                              Sigam-me no Twitter, vamos debater o meu artigo! @liacrespo

 

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