Aleksandr Soljenitsyn, é autor de Arquipélago Gulag, marco da literatura de testemunho. A memorável obra denunciou os terrores do stalinismo nos campos de trabalhos forçados da antiga União Soviética, mesclando relatos e reconstrução histórica à experiência do próprio autor, que passou oito anos como detento. Para contar a história, construída a partir do testemunho de 227 sobreviventes dos campos do Gulag, na União Soviética, Soljenítsyn precisou montar uma verdadeira operação secreta. Passou duas temporadas em um sítio na Estônia, longe da vigilância soviética, onde escreveu a maior parte do texto. Com o manuscrito pronto, aquartelou-se em uma casa de campo próxima a Moscou, onde revisou, datilografou e microfilmou cada página em 1968. Uma cópia foi entregue a uma amiga francesa, que naquele mesmo ano contrabandeou o livro para fora da cortina de ferro.

A primeira edição de “Arquipélago Gulag” foi lançada em Paris no final de 1973, mesmo ano em que o manuscrito foi descoberto pela KGB. Poucas semanas depois do lançamento, o autor foi preso, acusado de “alta traição”, teve a cidadania soviética retirada e foi obrigado a deixar a URSS. Isso não impediu que o livro fosse traduzido para dezenas de línguas, recebesse críticas positivas e vendesse milhões de cópias.

Logo no início da obra, Soljenítsyn narra como se davam as prisões ilegais, que para o horror da existência humana, não se davam por meio de forças policiais (a não ser quando um caso era de âmbito federal, por assim dizer), mas as prisões eram efetuadas por meio de “órgãos”, pessoas comuns a serviço do partido. A pretensão da prisão poderia ser um simples encontro em uma rodoviária, café ou mercado. O persecutor se apresentava como amigo chamando a vítima pelo nome em voz alta, e abraçando-lhe pedia-lhe que conversasse em um local mais calmo. Pronto! Sem processo e julgamento o mesmo seria enviado para uma colônia penal conhecida como Arquipélago Gulag, por um período mínimo e invariável de 10 anos de detenção, sem haver o mínimo de resistência, pois muitos criam piamente em sua inocência e principalmente no Sistema Judiciário – a confiança cega, livre de qualquer senso crítico nas instituições propiciou um dos maiores genocídios da história da civilização. Muitos nunca voltaram.

Ao descrever essa parte da detenção, Soljenítsyn revela o questionamento daqueles que conseguiram escapar da detenção:

“A resistência! Onde esteve a vossa resistência?” é a recriminação que fazem hoje os que sofreram àqueles que escaparam à repressão. Sim, a resistência devia ter começado a partir daqui, do início da detenção. Mas não houve um começo”.

O eugenista alemão Alfred Ploetz introduziu o termo Rassenhygiene em sua tese de Noções Básicas de Higiene Racial. Inicialmente com base em um suposto declínio da natalidade alemã, e o consequente aumento do número de doentes mentais e deficientes nas instituições do Estado – e seu alto custo para o próprio Estado, foi um dos programas mais abjetos da história da ciência moderna, e segundo consta, um dos fundamentos que serviriam para a embasar a questão do genocídio judaico, e essa questão dominou a Alemanha a partir de 1920 com reflexos sangrentos e cruéis ao longo da Segunda Guerra Mundial. O resto é história e morticínio.

Brasil, 2021: o Senado Federal, aprova o excrescente Certificado de Imunização e Segurança Sanitária (CSS) que será utilizado para autorizar a entrada em locais e eventos públicos, o ingresso em hotéis, cruzeiros, parques e reservas naturais, entre outras possibilidades. E fazendo coro com uma afirmação do Paulo A. Briguet, logo “os sem-passaporte terão de andar com uma estrela amarela costurada em local visível?”.

Outra medida prevista é a divulgação, na entrada do local, de forma ostensiva, visível e escrita, da seguinte informação: “O ingresso neste local está condicionado à apresentação do Certificado de Imunização e Segurança Sanitária (CSS)”.

O estabelecimento, público ou privado, assumirá a responsabilidade de exercer o controle de entrada, mediante a apresentação do CSS válido por cada pessoa — na versão eletrônica ou em papel — e quem não apresentar será impedido de entrar. 

O texto determina que, empresas e estabelecimentos comerciais que cumprirem as exigências não poderão sofrer sanções, restrições ou serem impedidos de funcionar — desde que cumpram as demais medidas sanitárias profiláticas.

Como um Senado, que é a Casa mais Nobre do Legislativo de uma República, se presta a esse papel? Já não houve morticínios, genocídios perpetrados e embasados por leis que sempre limitaram todos os direitos basilares de cidadãos, porque estes são ignaros e incapazes de saber o que é melhor para si e para o seus? Não há o que esperar de um Senado onde figuras como Renan Calheiros, bancado pelo STF, Omar Aziz, Jader Barbalho, desfilam como os Senhores do Poder, tanto o Presidente da Congresso quanto os demais Senadores limitam-se a chancelarem mais essa atrocidade imputada pelos verdadeiros defensores do bem-estar, do welfare state do degredo – isso sem falar na aura esfuziante do jornalismo de teleprompter, prontos a inculcar mais essa sandice na mente de parcela significativa de pessoas alienadas e omissas.

E este estado de letargia que grande parte da sociedade vive, incapaz de se posicionar frente a tão grande perigo, pois estão absortos em narrativas e presas ao medo veiculado por jornais e programas de TV que inculcam o terror na mente dos incautos, permitirá levar a cabo sem esboço de reação, a uma tirania legislativa que será aprovada no Congresso, independentemente de veto presidencial. Tal lei criará, com a conivência do STF, cidadãos de segunda classe que não terão acesso ao livre direito de ir e vir, e que por meio de um ativismo irresponsável, típico daquele praticado por um iluminismo das trevas, vai referendar e dar ares de legalidade constitucional a um dos maiores ataques contra a cidadania insculpida na Constituição da República.

Voltando a Soljenitsyn, onde está a nossa resistência? Sim, a resistência deve começar a partir daqui, do início da detenção. “Mas não houve um começo”. O que aguardamos?

Não podemos nos acomodar confiando cegamente nas instituições, estas são parte de um poder invisível que existe precipuamente para limitar seus nacionais; e contam justamente com o espírito pacato, subserviente e indolente do brasileiro que insiste em não sair deste estado psicológico – enquanto por outro prisma, limita-se a aceitar o terror noturno dos jornais como a voz que guia um país rumo ao precipício e ao degredo.

 

 

Natalino Oliveira, para Vida Destra, 17/06/2021.                                                      Sigam-me no Twitter! Vamos debater o artigo! @NinoPatriota

 

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Rose Mary Carvalho Telles
Rose Mary Carvalho Telles
2 meses atrás

Excelente! Parabéns pelo elevado senso de observação e expressão dos fatos. Impecável!

Luciano
Luciano
2 meses atrás

Excelente artigo! Ótima analogia entre os fatos. É preciso reagir logo para impedir esse absurdo de se criar uma sociedade de castas.