Na coluna Espaço Aberto de hoje, publicamos a resenha do Livro As Crônicas de Arthur (Volume I) – O Rei do Inverno, de Bernard Cornwell, escrita pelo Natalino Oliveira. Apreciem!

 

As Crônicas de Artur

O Rei do Inverno

 

Bernard Cornwell

 

 

É inegável a importância do mito na formação civilizacional, enquanto um valor de referência e influência no horizonte sociocultural. E uma personagem na história se mostra como um destes raros casos de êxito do homem que transcende o seu espaço temporal para se tornar um mito capaz de permear o ethos de um povo – trata-se de Artur, ou Rei Artur, como queiram.

As Crônicas de Artur é um romance histórico escrito por Bernard Cornwell, consagrado autor britânico, que teve suas obras traduzidas para mais de 20 idiomas. Seus romances alcançaram o primeiro lugar na lista de best-sellers em vários países e já venderam mais de 30 milhões de exemplares no mundo inteiro. Cornwell nasceu em Londres e foi criado em Essex. Trabalhou por dez anos na BBC antes de se tornar escritor. Em 1979, mudou-se para os Estados Unidos, onde vive até hoje.

As Crônicas de Artur narram as constantes lutas para manter a Dumnonia unida em torno do reino formado pelo Grande Rei Uther Pendragon, do qual Artur e Morgana são filhos bastardos. Diferentemente do que já é estabelecido, Bernard Cornwell toma liberdade criativa embasada por novas descobertas sobre a verdade em torno da lenda arturiana, e ao que tudo indica, nunca chegou a ser de fato um rei, mas um guerreiro que agregou em torno de si um exército de guerreiros e soldados que lutaram ao seu lado para defender a Dumnonia das invasões saxãs, cujos guerreiros eram implacáveis em suas conquistas, espalhando terror e destruição.

A Dumnonia realmente existiu, e consistia num reino da Britânia pós-ocupação romana, ficando na região leste da península do que hoje é a Inglaterra, mais precisamente na região de Somerset e Dorset.

O autor, Bernard Cornwell, foge daquele estereótipo de Artur e os cavaleiros da Távola Redonda, que era composto por membros como Bedwyr (ou Bedivere), Boors, Constantino, Geraint, Leodegan (pai de Guinevere), Mordred, Lancelot, Galahad, Tristão, dentre outros. Todavia, os mais proeminentes sempre foram Lancelot, Galahad e Tristão.

Em que pese muitas destas personagens aparecerem nas Crônicas de Artur, é a forma como o romance se desenrola e graças a Derfel, que foi um grande guerreiro de Artur e o narrador das crônicas, que vai contar e descrever a história e os acontecimentos para a Rainha Igraine, casada com o Rei Brochvael. Igraine é fascinada pela história de Artur, e Derfel, que foi um de seus principais guerreiros e que neste momento vive sua velhice como monge no Reino de Dinnewrac, é o seu elo com as histórias e lendas em torno dessa mítica figura.

E é nesse ponto que reside a maestria de Bernard Cornwell e que o alçou como um dos maiores autores de romances históricos, como por exemplo, Crônicas Saxônicas, que narra a história de Uhtred de Bebamburg, um guerreiro inglês criado pelos vikings dinamarqueses, que contam com incríveis 13 volumes, além de uma excelente série transmitida pela Netflix – “The Last Kingdom”.

Nas Crônicas de Artur, todas as personagens principais que já permeiam o imaginário popular graças aos romances, filmes e desenhos que difundiram aquela imagem de Artur, Merlin, Morgana, Lancelot, o reino de Camelot e os Cavaleiros da Távola Redonda, estão presentes, mas que não guardam tanta relação com o que já está assentado sobre o “rei” mítico.

Aqui nas crônicas, não existe o reino de Camelot – que segundo o narrador Derfel – é invenção de bardos e poetas; e os cavaleiros nem sempre são galantes e honrados como descritos nas canções e poesias.

Todos os capítulos iniciam-se com um diálogo entre o narrador das crônicas e a Rainha Igraine. E ao ouvi-lo em algum ponto divergente, ela sempre traz à memória os feitos de Artur, conforme narrados pelos bardos e poetas, o que de pronto é rechaçado por Derfel, que conforme as crônicas que ele, além de escrever, é um remanescente que presenciou o “reinado de Artur”, sabe por experiência própria que não tinha nada de romântico.

Nas crônicas, ao menos no primeiro volume, “O Rei do Inverno”, todas as personagens são construídas de forma a dá-las um perfil mais próximo da realidade que permeava os idos do século VI, auge do que comumente é chamada de a idade das trevas.

Artur, apesar de  possuir espírito nobre e boas intenções, é construído de forma menos romantizada. Prova disso é que ele luta tanto para manter a paz na Britânia sem a necessidade de promover uma guerra, e quando está para conseguir por meio de um casamento que forjaria uma aliança com o Reino de Powys, pois o mesmo aceitara se casar com Ceinwyn – filha de Gorfyddyd – põe tudo a perder, quando dá azo aos encantos de Guinevere, que está longe de ser uma donzela indefesa – muito pelo contrário, é uma mulher decidida e ciente do papel que lhe cabe dentro do Reino falido de seu pai Leodegan, além de ter suas próprias ambições. Artur não mantém a palavra, e muito menos o casamento. Isso sem falar na vaidade que permeia o “lendário rei” – como observado por Derfel. E este é o estopim para o derramamento de sangue, que, aliás, merece uma ressalva; pois, não há autor que narre cenas de lutas e descreva batalhas como Bernard Cornwell – e, é este episódio de caos e sangue, suor e lágrimas, que faz com que o nome de Artur seja ecoado como um verdadeiro Warlord – um Senhor da Guerra –, palavras do próprio autor.

Este primeiro livro desconstrói a questão da magia em torno do Mago Merlin, que não é mago –, e sim um Druida, que é uma espécie de sacerdote dos deuses do panteão da Britânia, o que o torna muito mais interessante. E não há magia, e sim, muita persuasão, mandingas e superstições, além de muitos xingamentos e palavras de maldição proferidas ao “Deus Carpinteiro que morreu pregado numa cruz”. Aqui se percebe o ressentimento que os bretões e saxões tinham dos romanos, que introduziram não só os deuses da mitologia romana, como também o cristianismo, que se alastrava por toda a Britânia, e consequentemente por toda a Europa. Quanto à mítica espada de Excalibur, não há o famoso episódio da espada encravada na rocha que somente poderia ser retirada por um nobre de sangue real. A arma é um presente de Merlin a Artur, e que Derfel revela se tratar de Caledfwlch, pois o nome Excalibur é fruto da imaginação dos bardos e poetas.

Conforme já estabelecido nas lendas baseadas nos contos do Rei Artur, muitos acreditam que Morgana foi uma sacerdotisa da Ilha de Avalon, na Bretanha, meia-irmã de Artur. Contudo, Bernard Cornwell cria uma Morgana ressentida por ser filha bastarda de Uther Pendragon, e principalmente pelo seu infortúnio, mas que ao contrário de Artur, por ser mulher, não sofria as mesmas agruras de um filho; afinal, elas poderiam ser dadas em casamento para forjar alianças; diferentemente de um filho, pois este, mesmo que bastardo poderia reivindicar a sucessão ao trono, provocando cismas e ebulições no reino reivindicado. Mas aqui, ela é construída de forma que entendemos os motivos de seus ressentimentos, e a razão pela qual levou a mesma a tornar-se uma sacerdotisa tão estimada por Merlin, em que pese sua personalidade sempre taciturna.

Outra personagem que carrega uma aura de herói honrado é Lancelot. Conforme descrito em o Rei do Inverno – nada mais falso! Aqui, Lancelot não é cavaleiro (ao menos não aparentemente), e muito menos honrado. Talvez, haja uma relação com a superproteção com a qual o mesmo é criado; pois vive dos exageros e proteção materna, e muita, mas muita publicidade, afinal, o marketing não é inexorável, mas é tudo! Resumindo, o mesmo não é herói, e sua honra é duvidosa. É descrito como um homem por quem as mulheres suspiram, isso sem falar que por ser o protegido e sucessor do pai, o Rei Benoic do Reino de Ban, ofusca o seu irmão bastardo, Galahad, verdadeiramente um nobre e honrado guerreiro, tornando-se um dos melhores amigos de Derfel e unindo-se ao exército de Artur. Nos contos sobre as lendas arturianas, tanto Lancelot quanto Galahad são membros proeminentes da mítica Távola Redonda.

Muitos reconhecem que “As Crônicas de Artur” é uma das maiores obras de Bernard Cornwell, outros fazem alusão à trilogia “A busca pelo Graal”, enquanto outros mais apaixonados entendem que “O Último Reino – The Last Kingdom”, que narra o esforço para criar uma Inglaterra única sob o reinado de Alfredo e Eduardo, deve ser encarada como a sua melhor criação. De qualquer modo, vale muito a pena a leitura desta trilogia “As Crônicas de Artur” formada pelos livros: O Rei do Inverno – vol. 1, Excalibur – vol. 2, e O Inimigo de Deus, vol. 3.

Meu ponto de discordância é com a insistência em constringir a Idade Média como uma eterna idade das trevas e um suposto obscurantismo. Embora saibamos que a Idade Média é vulgarmente chamada de período das trevas, justamente para que a Idade Moderna, que tem seu ponto de inflexão com o Iluminismo francês, seja demonstrada como a idade das luzes e da razão – nada mais enganoso; principalmente, quando olhamos para o que a Idade Média produziu.

Do século III ao XV, nos foi legado a Patrística [1], a Escolástica [2], as Catedrais Góticas e os suntuosos Castelos (verdadeiras obras de arte da arquitetura medieval), grandes romances épicos como a “Divina Comédia – Dante Alighiere”, Geoffrey Chaucer, Giovanni Bocaccio, além de Gil Vicente. Isso sem falar de Santo Agostinho [3] e Santo Tomás de Aquino [4], grandes pilares da cultura ocidental. Além disso, introduziu o humanismo literário, que é a transição entre o trovadorismo e o classicismo. Ou seja, propiciou a transição da cultura medieval para a cultura clássica.

No mais, vale a pena a leitura de “As Crônicas de Artur”, bem como outras obras de Bernard Cornwell; afinal, nem só de política e noticias que envelhecem mal, hashtags e memes sobreviverá o homem e sua imaginação. E nada melhor do que povoar o imaginário com uma literatura de entretenimento – sim, entretenimento, mas nem por isso de menor qualidade.

 

Notas:

[1] A Patrística foi uma vertente filosófica que teve início no período de transição entre a Antiguidade e a Idade Média. O nome “Patrística” faz uma referência aos primeiros padres da Igreja Católica ou, como são mais conhecidos, “Pais da Igreja”, que se dedicaram a desenvolver uma filosofia que se aproximava do pensamento cristão e do conhecimento religioso.

[2] Escolástica é o pensamento cristão da Idade Média, baseado na tentativa de conciliação entre um ideal de racionalidade, corporificado especificamente na tradição grega do platonismo e aristotelismo, e a experiência de contato direto com a verdade revelada, tal como a concebe a fé cristã.

[3] Aurélio Agostinho de Hipona. Em latim: Aurelius Augustinus Hipponensis, conhecido universalmente como Santo Agostinho, foi um dos mais importantes teólogos e filósofos nos primeiros séculos do cristianismo. Autor de obras como: Confissões e Cidade de Deus.

[4] Tomás de Aquino, em italiano Tommaso d’Aquino. Nasceu em Roccasecca, 1225 – Fossanova. Foi um frade católico italiano da Ordem dos Pregadores Dominicanos, cujas obras tiveram enorme influência na teologia e na filosofia, principalmente na tradição conhecida como Escolástica, dentre elas destacam-se: Suma Teológica, Suma Contra os Gentios, além de Quaestiones disputatae.

 

 

Natalino Oliveira, para Vida Destra, 08/02/2022.                                                      Sigam-me no Twitter! Vamos debater o artigo! @NinoPatriota

 

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