O livro “Os demônios”, de Fiódor Dostoiévski, estava na minha estante há algum tempo. Eu o comprei juntamente com outros livros de escritores da literatura russa, cujas obras me cativam mais e mais. Porém, ainda não havia sido despertada em mim uma curiosidade em lê-lo. Estava lendo outras coisas que atraíram mais a minha atenção naquele momento. Uma delas, “Diário de um escritor”, do próprio Dostoiévski. Ainda no início desse livro, em sua apresentação, está escrito sobre a importância da obra “Os demônios” para a vida do autor, visto que retrata a sua visão em relação aos revolucionários na Rússia czarista da segunda metade do século XIX.

Pronto! Pare tudo! Foi o que fiz. Parei a minha leitura do “Diário de um escritor” e comecei, sem demora, a ler “Os demônios”. Confesso que estava até ansiosa e, é claro, trata-se de mais uma obra de arte desse autor, com uma compreensão fora do comum da alma humana, seja na bondade, seja na maldade. E a esta última este artigo deu ênfase, devido ao que estamos vivendo atualmente no Brasil e no mundo.

Para início de conversa e sem ter a intenção de fazer propaganda a ninguém, devo esclarecer que a tradução diretamente do russo faz toda a diferença. Uma tradução boa é fundamental. Nesse sentido, coloco aqui, a título de informar aos leitores, e somente isso, que a melhor tradução para o português dessa obra é a da Editora 34, do tradutor Paulo Bezerra. Além disso, essa edição traz, em notas de rodapé, várias explicações valiosíssimas para o entendimento do texto, do autor e dos fatos que o inspiraram.

Antes de qualquer coisa, é fundamental informar que Dostoiévski escreveu esse livro, motivado pelo assassinato de um estudante, I. I. Ivanov, pelos seus próprios parceiros do grupo niilista liderado por S. G. Nietcháiev, em 1869. Além disso, o próprio Dostoiévski “conhecia de perto a atuação política dos grupos de esquerda, pois fora participante do círculo socialista de Pietrachévski” (Paulo Bezerra). E isso é algo extraordinário desse livro, pois, apesar de ser um romance e não uma notícia verídica, o autor traz toda a sua experiência pessoal e de ocorrências reais daquele período para o leitor. É como se este pudesse estar dentro de um desses grupos, como testemunha.

Outro detalhe é a atualidade dos fatos apresentados. Vários acontecimentos de peso e que mudaram os rumos da humanidade, pela sua crueldade extrema e inimaginável, ocorreram muito depois da publicação desse livro, muito depois da morte do autor. Assassinatos em massa, fanatismo a verdadeiras seitas satânicas, idolatria a mentes visivelmente doentes. Sem dúvida, um alerta a quem busca subsídios para entender o coletivo em que está inserido e para quem tenta evitar que males terríveis do passado voltem a nos escravizar e amedrontar.

Inicialmente, Dostoiévski demonstra como é importante, para o nascimento e o florescimento de ações ditas revolucionárias, o ambiente que pende para o caos, cercado de miséria, violência, ignorância, primitivismo, ausência de esperança. Em sociedades saudáveis, harmoniosas, com princípios sólidos, eles não encontram solo propício nem para germinar. Daí a importância de um governante ser bom, de ter apreço pelos seus cidadãos, de zelar pela saúde social de seu país, pois é isso que evita o nascimento de grupos oportunistas. Os participantes desses movimentos progressistas precisam ser a força salvadora para os sofridos, renegados, desesperados. Agora, se esses salvadores ainda não têm esse campo totalmente caótico para suas atuações, eles se organizam para criá-lo, e isso é uma das características mais aterrorizantes nessas mentes egoístas e ávidas pelo poder.

Em uma de suas reuniões, por exemplo, um dos participantes da sociedade secreta descrita no livro propõe: “Por sua vez, cada um dos grupos em ação, ao fazer prosélitos e disseminar-se em seções laterais ao infinito, tem como tarefa desacreditar constantemente, mediante uma propaganda sistemática de denúncias, a importância do poder local, gerar perplexidade nos povoados, engendrar o cinismo e escândalos, a total descrença no que quer que exista, a sede do melhor e, por fim, lançando mão de incêndios como meio predominantemente popular, no momento determinado lançar o país até no desespero em caso de necessidade”.

Em outro trecho, a sanha desses revolucionários pela catástrofe geral, sem nenhum remorso ou preocupação com os outros, fica evidente: “Mas hoje precisamos da depravação por uma ou duas gerações; de uma depravação inaudita, torpe, daquela em que o homem se transforma num traste abjeto, covarde, cruel, egoísta – eis de que precisamos!”

A degradação sonhada por eles é para todas as áreas da sociedade: “o professor de colégio que ri com as crianças do Deus delas e do berço delas, já é um dos nossos. O advogado que defende o assassino culto que por essa condição já é mais evoluído do que suas vítimas e que, para conseguir dinheiro, não pode deixar de matar, já é dos nossos. Os colegiais que matam um mujique para experimentar a sensação, são dos nossos. Os jurados que absolvem criminosos a torto e a direito são dos nossos. O promotor que treme no tribunal por não ser suficientemente liberal é dos nossos. Os administradores, os escritores, oh, os nossos são muitos, um horror, e eles mesmos não sabem disso!”

O conhecimento e a educação são valores muito perigosos para essas pessoas, já a obediência cega é uma máxima: “No esquema dele cada membro da sociedade vigia o outro e obrigado a delatar. Cada um pertence a todos, e todos a cada um. Todos são escravos iguais e iguais na escravidão. Nos casos extremos recorre-se à calúnia e ao assassinato, mas o principal é a igualdade. A primeira coisa que fazem é rebaixar o nível da educação, das ciências e dos talentos”. Esse final é muito conhecido de todos nós. É muita ignorância afirmar que livros dos séculos passados já estão ultrapassados, que não servem mais, como me foi dito em algumas ocasiões.

A religião e a crença em Deus também são alvos dos personagens niilistas, principalmente, o cristianismo, como nesta parte: “Ou de repente um panfleto de cinco ou seis linhas dirigidas a toda a Rússia, sem quê nem para quê: ‘Fechem depressa as igrejas, destruam Deus, violem os matrimônios, eliminem o direito de herança, peguem seus facões‘ e só, e o diabo sabe o que mais”.

Sobre esse assunto faço um parêntese para transcrever um belo e emocionante trecho de uma carta do próprio Dostoiévski, em que ele se posiciona sobre o seu amor incondicional a Cristo: “Esse símbolo é muito simples: acreditar que não há nada mais belo, mais profundo, mais simpático, mais racional, mais corajoso e perfeito que Cristo, e não só não há como eu ainda afirmo com um amor cioso que não pode haver. Além disso, se alguém me demonstrasse que Cristo está fora da verdade e se realmente a verdade estivesse fora de Cristo, melhor para mim seria querer ficar com Cristo que com a verdade”.

A bondade, característica de Dostoiévski, sempre presente em seus livros, lembra-me de outro fator relevante que nos é mostrado pelo autor: a maldade e o mau-caratismo dos personagens do grupo revolucionário da estória. Todas as passagens colocadas aqui demonstram isso, mas nunca é demais explicar e comprovar as afirmações. “À pergunta: por que tantos assassinatos, escândalos e torpezas? – respondeu com uma pressa exaltada que era ‘para provocar um abalo sistemático das bases da sociedade, para desintegração sistemática da sociedade e de todos os princípios; para deixar todo mundo em desalento e transformar tudo numa barafunda e, mais uma vez assim abalada a sociedade, esmorecida e doente, cínica e descrente, mas com uma sede infinita de alguma ideia diretora e de autopreservação, tomar tudo de repente em suas mãos, erguendo a bandeira da rebelião e apoiando-se em toda uma rede de quintetos, que entrementes, agiam, recrutavam gente e procuravam na prática todos os procedimentos e todos os pontos frágeis aos quais podiam agarrar-se'”.

Há ainda outros trechos de incomparável sabedoria e de informações valiosas nesse livro, e o que me marcou profundamente, ao ler essa obra e fazer um paralelo com o nosso presente, é que muitos ainda não perceberam que esses planos nefastos descritos em “Os demônios” estão sendo postos em prática há muito tempo, em muitos lugares. Os valores que preservam uma sociedade saudável, como o poder do Estado, a família, a religião, a moral, a paz, a tranquilidade, as instituições sociais, fundados para garantir o bem-viver de cada um de nós, estão sofrendo ataques de vários pontos e correm grande perigo.

Nas últimas páginas, o tradutor Paulo Bezerra faz uma excelente análise de toda a obra, em um texto intitulado “Um romance profecia”. Escreve com bastante maestria, mas o termina de uma forma que considero perigosa nos dias de hoje, mas, talvez, no ano em que ele escreveu, 2013, a percepção dos fatos políticos fosse outra. Ele escreve: “É espantosa a atualidade de Os demônios. A despeito do avanço da democracia e do colapso do simulacro de socialismo no Leste europeu, sua leitura, hoje, dá a impressão de que não houve mudança profunda na essência das coisas e aqueles ‘demônios’ continuam soltos e agindo sob diferentes disfarces nos campos da direita e da esquerda, dos liberais e dos conservadores”.

Embora sempre haja pessoas ruins e mal intencionadas que se infiltram mesmo nas classes pensadas para o bem comum, abre-se uma brecha para a maldade oportunista entrar, quando se jogam todos no mesmo saco e se igualam os desiguais. Principalmente no Brasil de hoje, os objetivos dos grupos conversadores são quase que antagônicos aos dos liberais. Enquanto os primeiros lutam para conservar os valores da família, da moral, da paz, da crença espiritual, do fortalecimento e aprimoramento do Estado e das instituições seculares, os segundos se apegam ao globalismo, aos ditos progressistas. Diante de um perigoso avanço, bem parecido aliás com o que o livro de Doistoiévski descreve, deve-se escolher um lado, um posicionamento firme, pois simplesmente não se é possível permanecer neutro em situações em que o destino de milhões de pessoas pode ser a escravidão a pequenos grupos de mentes doentias.

Romana de Castro, para Vida Destra, 06/01/2020.

Romana de Castro
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Giovano Braga
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Giovano Braga

Excelente artigo

Romana Castro
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Fico feliz que tenha gostado. Muito Obrigada!

Cristina
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Cristina

Texto impressionante e perfeito.

Romana Castro
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Romana Castro

Obrigada! Você é muito gentil!

Airton Moraes🇧🇷 (@TonMora70)
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Muito Obrigado pelo seu tempo, conhecimento e nobreza em compartilhar.

Romana Castro
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Romana Castro

Agradeço muito. É muito importante ler comentários que nos incentivam. Fiquei muito impressionada com a atualidade desse livro, de como realmente há predeterminações a serem seguidas por aqueles que pretendem dominar, e elas não são nada humanitárias. Mas, ao mesmo tempo, também vejo várias pessoas se posicionando contra e resistindo a essas manobras. Havemos de vencê-los sempre. Um grande abraço!

BananenseNãoPraticante
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BananenseNãoPraticante

Um grande texto! Daqueles que faz a gente sentir que o dia não foi um desperdício, pois lemos algo realmente valioso!
Obrigado por compartilhá-lo!

Romana Castro
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Romana Castro

Muito obrigada! Com o seu comentário, ganhei o dia, não por pura vaidade, mas porque percebo que mais e mais pessoas estão atentas ao que acontece no Brasil e no mundo. A sensatez precisa vencer. Foi o que senti, por exemplo, ouvindo o discurso de Ricky Gervais, na premiação do Globo de Ouro deste ano. Um grande abraço!