NÃO TEM COMPROVAÇÃO CIENTÍFICA!

Em nosso país está parecendo difícil pensar de modo racional, pelo menos para boa parte da população, dos governantes e da mídia.

Quando se fala em auxiliar a prevenir ou a combater a COVID-19 com medicamentos como Cloroquina, Hidroxicloroquina e Ivermectina, é comum ouvirmos que “não há comprovação científica” repetido mecanicamente tal qual fosse um mantra.

Primeiro é necessário lembrar que não existe um único órgão em nível mundial que pudesse decidir o que é ou não é comprovado cientificamente; esse papel caberia normalmente à OMS (Organização Mundial da Saúde), caso essa instituição não tivesse jogado sua respeitabilidade para debaixo do tapete notadamente no início desta pandemia.

Em segundo lugar há uma série de declarações gravadas por médicos, infectologistas e outros profissionais da saúde atestando a eficácia dessas drogas, desde que devidamente ministradas, e também desde que consideradas como alternativa, e não como única opção.

O que ocorre é que esses medicamentos acabaram vinculados à imagem de Bolsonaro, e a partir daí para muitos dane-se o pensamento racional de utiliza-los como algumas das armas baratas e já existentes para o combate a esse vírus; vale mais o rechaço emocional em virtude desses fármacos receberem a defesa de um presidente pragmático, mas com uma comunicação bruta e não rebuscada, que pudesse dar ares de tecnicismo.

E vacina? Tem comprovação científica?

Bem, foram aprovadas por órgãos como a ANVISA, mas essas aprovações ocorreram de forma emergencial em virtude da pandemia, em tempo muito inferior ao que normalmente ocorre para vacinas; e isso no mundo todo.

Só que ninguém sabe ainda quais poderiam ser os eventuais efeitos colaterais, tanto é que laboratórios exigem isenção de responsabilidade quanto a esses possíveis efeitos.

Em outras palavras: “Nos paguem, comprem e confiem em nós; ou em Deus. E não nos culpem se der errado”.

As vacinas que existem por aí parecem ser a melhor forma de prevenção, mas não possuem a tal da comprovação científica.

CHAZINHO, SIMPATIA, ERVAS E REZA

Vamos lembrar que nosso país não é aquele que aparece em alguns filmes, onde em caso de necessidade médica basta ligar, marcar a consulta para atendimento imediato e ser devidamente atendido, diagnosticado e medicado.

Alguns parecem não saber que por estas bandas, principalmente pelo interior, mas não só, muitos problemas de saúde são resolvidos com chazinhos, ervas, simpatias, rezas e remédios baratos; e isso não por escolhas, mas como sendo as poucas opções disponíveis.

Lembrando que essas opções do populacho não possuem, à exceção dos remédios, “comprovação científica”, e algumas tenham apenas um efeito placebo; mas é o que se tem, e é o que se usa; e de há muito.

PRECISO COMER, E MINHA FAMÍLIA TAMBÉM – PIRÂMIDE DE MASLOW

Com o estado de São Paulo na fase classificada como vermelha, parei o carro próximo a um rapaz que vendia máscaras na rua; ele meio escondido e visivelmente desconfortável.

Tivemos um breve diálogo que resumo ainda mais a seguir:

–Amigo, eu não trabalho de camelô para realizar um grande sonho da minha existência. Foi justamente a vida que me trouxe aqui. Trabalho com toda a prevenção possível, mas tenho que passar pela vergonha de me esconder como se eu estivesse fazendo algo imoral ou desonesto. O governador e o prefeito não me deixam trabalhar, mas esse grande home center aqui ao lado não precisou fechar nunca. Onde está a justiça nisso? – perguntou.

E continuou:

–Amigo, se eu não levar dinheiro para casa não consigo alimentar minha família nem pagar o aluguel que já está atrasado, e nem ter água e luz; e assim nem mesmo atender à primeira faixa da Pirâmide de Maslow, a das necessidades fisiológicas.

Com base em um desses pré-julgamentos que fazemos, estranhei a menção a Maslow por parte de um vendedor de máscaras, que depois me informou ter curso superior, mas desempregado, uma vez que a empresa em que trabalhava sucumbiu à retração econômica originada pela pandemia, e agora ele se esconde para tentar trabalhar.

A pandemia está aí de verdade e, embora com as estatísticas engordadas pelos interesses de recursos de prefeitos e governadores, embora com parte da mídia com discurso digno de filmes de terror, ela precisa ser combatida; tudo isso é verdade, mas fome também mata.

As mortes que não tiveram a ver com COVID-19, mas foram classificadas como tal parecem ter ocorrido em tal volume que não é possível saber a real grandeza da pandemia por aqui. E outro número que deverá nos assustar é o da quantidade de brasileiros rebaixados para a faixa da miséria, da fome.

O grande problema da fome no mundo, de modo geral, não é de falta de alimentos como poderia parecer à primeira vista; é problema de logística para que a comida chegue onde dela se precise e de falta de dinheiro para aquisição.

UM PARADOXO

Vivemos em novo e paradoxal momento em nosso país: existem o alimento e a logística, parte da população poderia trabalhar para gerar seus ganhos, embora de forma precária e informal, mas são impedidos de (pasmem)… trabalhar.

Se o “fique em casa” e evitar aglomerações são importantes, os prefeitos poderiam impedir ou interromper os pancadões, ou bailes funk, por exemplo.

Bem, aí o buraco é mais embaixo. A prefeitura sabe que essas festas irão ocorrer, sabe onde e quando, sabem do amontoado de gente desprotegida que se forma, mas não tem peito para impedir.

Deveriam ir lá ao menos para exigir que todos usassem máscaras de proteção.

Deixaram nascer, depois tiveram tempo para resolver, mas deixaram crescer, permitiram que a bandidagem tomasse conta e agora fica claro que não conseguiriam evitar, mesmo se quisessem. Fica claro quem manda.

Em tempo, poderia enviar uma viatura até a casa do governador; parece que andou ocorrendo festa indevida por lá também e com mais gente do que deveria, e sem o uso de máscaras de proteção.

Os prefeitos não podem aparentar omissão em um momento como esse, então a solução para demonstrar que estão atuantes é partir para cima dos mais fracos; é proibir o camelô de fazer seu trabalho; é impedir a senhora na rua passeando somente com o cachorro ao lado, e por aí vai…

MIOPIA MENTAL

Nosso Brasil é dividido em brasis diferentes, e em um desses temos uma parte da classe média (não todos, felizmente) que não enxerga além de si própria.

Alguns com situação financeira garantida, com renda certa no fim do mês ou com reserva adequada para momentos de incertezas, e sem a necessidade de saírem para garantir o sustento, ficam em casa e conclamam a que os demais façam igual; mas existem outros brasis.

A alimentação para esses privilegiados (o bom seria que fizessem parte da regra e não da exceção) pode chegar por um motoboy, que ele próprio não pode ficar em casa; a manutenção da casa muitas vezes é feita por empregada ou diarista, e a tábua com queijos e vinhos está garantida para degustação a tarde, na companhia de um bom livro ou de um filme da Netflix.

Tudo resolvido. E quanto aos outros? E os que não podem?

Ficar em casa é importante na tentativa de se conter ou reduzir a transmissão do vírus, mas é inviável para o todo da população.

Há que se entender isso e não considerar o isolamento como a única profilaxia a ser adotada e nem mesmo a mais importante.

AÇÕES DESENCONTRADAS

O prefeito Paulo Henrique – PSDB,  da cidade de Santo André, o “A” do ABCD na Grande São Paulo (Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e Diadema) proibiu a circulação de ônibus urbanos na cidade no período das 22:00h às 4:00h desde o dia 09/03/21.

É um caso que precisa ser estudado e esmiuçado na tentativa de encontrar alguma lógica nessa determinação para ajudar a combater o vírus corona. Quanta insanidade, e dá para deduzir quem serão os mais prejudicados com essa medida descabida.

Essa ridícula decisão encontra paralelo em algumas do ano passado, do prefeito da cidade de São Paulo, nas quais reduziu a quantidade de ônibus em circulação, comprimindo ainda mais o amontoado de passageiros por veículo.

Outra ideia genial foi reduzir o horário em Shoppings, também no ano passado.

A lógica e o correto seria colocar em circulação a maior quantidade de ônibus possível, e assim tentar espaçar um pouco que fosse a ocupação.

Qual o quê. O prefeito jamais teria coragem de peitar empresas de ônibus na cidade de São Paulo, tomando qualquer medida que elas viessem a entender como prejudiciais aos negócios; e a população que pague, se cale e se acotovele.

JUSTIÇA – TECNICIDADE

E quanto à nossa Justiça?

Aprendi desde criança que a Justiça servia para decidir o que era ou não era justo, e punir culpados de atos lesivos.

Esse “papai-noel” no qual eu acreditava foi perdendo as cores da roupa, saíram os óculos, gorro e barba, e por fim perdeu as botas; e deu no que deu, um ente amorfo e que se perdeu pelo caminho; além de parecer que existe quase que só para o auto sustento.

A Justiça que temos tem grande preocupação e foco nos aspectos técnicos, em detrimento do que seja certo ou seja errado.

O que menos importa parece ser a eventual culpa pelo ato doloso, e sim cumprir o checklist de todos os atos processuais e as filigranas jurídicas.

E a justiça de verdade? Ora, essa que fique para Deus!

Ainda bem que acredito Nele.

 

 

Reginaldo Brito, para Vida Destra, 12/03/2021.                                                                Sigam-me no Twitter! Vamos debater o assunto! @Reginaldoescri1

 

Crédito da Imagem: Luiz Augusto @LuizJacoby

 

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Marlei da Silveira
Marlei da Silveira
1 ano atrás

Reinaldo Belo de Brito parabéns pelo texto!! É a síntese da realidade que vivemos.