Imagem de capa: Romeu Kazumi Sassaki, com o dinossauro mascote do “Seminário Internacional sobre os 25 anos do Ano Internacional das Pessoas Deficientes”, realizado em São Paulo, em 2006.

 

Romeu Kazumi Sassaki, 83 anos [1], o herói da inclusão brasileiro, recebeu, no dia 6 de dezembro, o título de Doutor Honoris Causa, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em reconhecimento aos mais de 60 anos dedicados à defesa dos direitos e à promoção da inclusão das pessoas com deficiência, no Brasil.

Graduado em Serviço Social, autor de cinco livros, incluindo o best-seller “Inclusão, Construindo uma sociedade para todos”[2] e coautor de doze outros sobre o tema, Romeu Sassaki também é o tradutor oficial para a língua portuguesa da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CDPD) e de inúmeros outros documentos referentes às pessoas com deficiência produzidos pela Organização das Nações Unidas (ONU). Sassaki publicou mais de 150 artigos, ministrou 242 palestras e 37 cursos sobre inteligências múltiplas e as dimensões da acessibilidade. “Só de fevereiro a outubro de 2021, participei de 56 eventos online (entre palestras, entrevistas, cursos, reuniões e consultorias técnicas)”, contou em recente entrevista para o Instituto Paradigma.[3]

Para mim, dentre as inúmeras contribuições de Romeu Sassaki à causa da inclusão, destaca-se a abnegação com que ele se dedicou, especialmente nos anos 1980 e 1990, durante o início e o desenvolvimento do movimento em defesa dos direitos das pessoas com deficiência no Brasil, do qual foi um dos mais devotados ativistas e continua sendo considerado um dos principais líderes.

Em entrevista que concedeu para minha tese de doutorado [4], Romeu disse que “não escolheu entrar para a área da deficiência”, mas, sim, que foi escolhido: “A vida foi me colocando em situações nas quais sempre havia alguém com deficiência. Conviver com pessoas deficientes nunca foi problema para mim, pois tinha conhecido muitas crianças com deficiência, durante toda minha vida. Isso me ajudou demais. Comecei a me envolver com a área da deficiência como profissional. Só mais tarde, passei a ser um militante do movimento.”

Como ativista e líder destacado, Romeu foi fundamental para o movimento ao oferecer ideias valiosas para a evolução dos conceitos básicos da causa e nos manter a par do que  acontecia no resto do mundo. No início de todas as reuniões, era praxe Romeu entregar a cada participante uma cópia xerox do mais recente documento da ONU que ele havia traduzido. Recebíamos como tesouros aquelas páginas meticulosamente datilografadas e unidas por um grampo colocado exatamente a 45 graus. (Romeu me ensinou que esse é o ângulo correto para permitir folhear as páginas, sem rasgá-las. Sim, Romeu é organizado e metódico).

Além disso, Romeu foi decisivo para que a luta por direitos das pessoas com deficiência fosse disseminada, praticamente, para todo o Brasil. Ele levava muito a sério e nos ensinou a importância de manter registros fotográficos e escritos do conteúdo de reuniões, seminários, congressos, notícias de jornal etc. Desse modo, Romeu Sassaki é o grande responsável pela divulgação e pelo registro das ideias discutidas, das propostas aventadas e das reivindicações feitas, desde o início do movimento.

Na entrevista que me concedeu, Romeu explica que “sem descartar o fato de que sempre houve líderes atuando isoladamente em outras partes do Brasil, a mobilização para valer, aquela que deu origem ao movimento propriamente dito, começou aqui em São Paulo, em 1979”. Conforme seu relato, “desde as primeiras reuniões, sabíamos como era importante fazer anotações e escrever um relatório, o qual, depois, era copiado e distribuído na reunião seguinte. Isso era feito religiosamente. Nesse relatório, havia a divulgação de quem tinha estado presente, os assuntos discutidos e o que tinha sido resolvido na reunião passada. É muito bom falar e discutir, mas, é o registro que possibilita a evolução das ideias. Essa documentação funcionou como uma semente que foi levada por muita gente para ser germinada na sua terra, no seu bairro, no seu cantinho. Foram o registro e a divulgação das ideias  ─ depois, transformadas em filosofia, conceitos, princípios e até bandeiras de luta ─ que possibilitaram a mobilização, cada vez maior, de pessoas e entidades”.

Sem dúvida, é graças a Romeu que, gradativamente, está sendo possível recuperar a história desse movimento ainda desconhecido por estudiosos e pela sociedade em geral, pois, é claro que Romeu tem esse material todo organizado num acervo inestimável: “Tem jornalzinho, boletim, atas de reuniões, folhetos, recortes de jornais, mil coisas. Trata-se de material quente, produzido no calor dos acontecimentos, que muitos estudantes usariam em seus trabalhos de conclusão de curso, pois, é uma documentação exclusiva, diferente das demais. Penso que a gente deveria ter um lugar, no qual esse material valiosíssimo pudesse ser preservado e estivesse disponível para consulta.”

Nos anos 1980, de modo inédito, as pessoas com deficiência desautorizaram os antigos porta-vozes que falavam por elas, passaram a falar por si mesmas e assumiram o protagonismo das próprias vidas e da luta por direitos. No entanto, Romeu Sassaki, que não tem deficiência, inúmeras vezes, foi eleito pelos militantes como representante do movimento. Esse aparente paradoxo acontecia porque, para os jurássicos [5], mais importante do que a marca da deficiência no próprio corpo era a condição de companheiro de jornada. Romeu era e continua sendo considerado pelos militantes do movimento, principalmente, pelos mais antigos, como um de nós. Um deficiente honorário, por assim dizer, pois sempre esteve ao nosso lado, ombro a ombro conosco.

Na era heroica do movimento, quando o conceito de acessibilidade nem existia e, portanto, as barreiras ambientais grassavam, em diversas ocasiões, Romeu literalmente carregou no colo inúmeros cadeirantes para que pudessem participar de reuniões, seminários, congressos etc. O Chevrolet Caravan dourado do Romeu vivia lotado de pessoas com deficiência, com o porta-malas cheio de cadeiras de rodas.

Conheço Romeu Kazumi Sassaki desde 1980 e nunca me canso de admirar sua competência, dedicação, energia e entusiasmo pela causa das pessoas com deficiência. Hoje, no auge de seus 83 anos, Romeu está tão mobilizado e disposto como sempre esteve a lutar por uma sociedade inclusiva para todos. Para mim, é uma grande honra ser considerada como sua amiga.

 

Notas:

[1] Filho de imigrantes japoneses, nasceu em 29 de julho de 1938, numa enorme e totalmente isolada fazenda de gado, em Campo Grande, que ainda não era a capital do Mato Grosso do Sul.

[2] Em sua oitava edição.

[3] Leia mais neste link.

[4] Para saber mais sobre o movimento, acesse o texto da tese “Da invisibilidade à construção da própria cidadania: os obstáculos, as estratégias e as conquistas do movimento social das pessoas com deficiência no Brasil, através das histórias de vida de seus líderes” aqui e assista ao vídeo que apresentei durante a defesa da tese aqui.

[5] Jurássicos é a forma como os primeiros ativistas do movimento chamam a si mesmos, já que estão em franca extinção.

 

 

Lia Crespo, para Vida Destra, 01/01/2022.                                                              Sigam-me no Twitter, vamos debater o meu artigo! @liacrespo

 

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