A adolescência é um dos períodos mais difíceis para todos, não é mesmo? Participar de um grupo parece ser a coisa mais importante do mundo. É vital vestir as roupas da moda que todos estão usando. Imperioso é questionar a autoridade dos pais e conquistar a independência. Os hormônios estão a mil! É urgente perder a virgindade, pois esse é o rito de passagem para a idade adulta. O cinema já fez muitos filmes sobre esse tema.

Mas, o que acontece quando você é muito diferente do grupo,  as roupas da moda não lhe caem bem e são reduzidas ou inexistentes suas oportunidades de socializar com pessoas da sua idade? E quanto aos hormônios? Bem, eles estão a mil, mas, o que fazer com isso se você depende de seus pais ou cuidadores até para fazer suas necessidades fisiológicas?

Os  filmes “Hasta la Vista: venha como você é”, “37 segundos” e  “The Fundamentals of Caring” (sem título em português) são exemplares bem interessantes de como o cinema aborda deficiência, sexualidade e adolescência.

“Hasta la vista: venha como você é”, de 2011, teve duas novas versões, uma feita em 2016 (Adiós amigos) e outra, em 2020 (Venha como você é). Não gosto de refilmagens, então não sei se vou ver essas versões mais recentes. Mas, recomendo muito o original, dirigido por Geoffrey Enthoven, premiado como Melhor Filme, no Festival de Valladolid, na Espanha e no Festival de San Jose, nos Estados Unidos. Também recebeu o Prêmio do Público e do Júri Especial, no Festival de Cinema de Montreal, no Canadá, e o Prêmio do Público, no Festival de Alpe d’Huez, na França.

Ao contrário do que o título possa fazer pensar, “Hasta la vista” não tem nada a ver com viagens no tempo, robôs ou com futuros apocalípticos. Na verdade, o filme conta a história de três rapazes com deficiência, na casa dos 20 anos,  que — contrariando o desejo dos pais e o conselho de médicos — fogem de casa para fazer juntos uma viagem da Bélgica, onde vivem, até a Espanha, com o objetivo único de perder a virgindade num bordel chamado El Cielo, no qual, segundo ficaram sabendo, as mulheres seriam especializadas em atender homens com deficiência.

O trio é formado pelos amigos amantes de vinho Philip (interpretado por Robrecht Vanden Thoren), tetraplégico [1] que, apesar da relativa autonomia propiciada pela tecnologia, é dependente dos cuidados dos pais para as mais básicas atividades da vida diária. Jozef (Tom Audenaert) é praticamente cego e, apesar de ser o mais velho dos três, ainda mora com a mãe. Lars (Gilles De Schrijver) parece ser o mais jovem deles e está paraplégico [2] por causa de um tumor. Muito protegido pelos pais, vive às turras com a irmãzinha mais nova porque ela entra em seu quarto sem bater e ele se vale da deficiência para não ajudar nas tarefas domésticas.

Alguns críticos de cinema consideram o título inadequado porque não reflete o cerne da história. Pessoalmente, acho que é um trocadilho com o nome do personagem da vida real que inspirou o filme, Asta Anthony Philpot, jovem com severas limitações físicas causadas pela artrogripose [3] que, aos 25 anos, protagonizou o documentário “Por apenas uma noite” (For one night only), feito pela BBC One, em  2007, sobre a viagem que fez com dois rapazes com deficiência para visitar um bordel espanhol.

Já o filme “37 Segundos”, da diretora japonesa Hikari, ganhou o Prêmio do Público e o Prêmio da Confederação Internacional de Cinemas de Arte, na seção Panorama do Festival de Berlim, em 2019. O filme conta a história de Yuma Takada, uma tímida jovem japonesa de 23 anos, talentosa desenhista de mangá, que tem paralisia cerebral, conforme ela mesma conta, porque  ficou  37 segundos sem respirar, após o nascimento. A protagonista é interpretada pela atriz Mei Kayama, ela mesma com paralisia cerebral e usuária de cadeira de rodas, o que, claro, torna esse filme muito especial.

Yuma não tem amigos, nem vida social. Ela não tem dificuldade para usar normalmente o transporte público e se deslocar em sua cadeira motorizada pelas calçadas perfeitas de Tóquio, cidade acessível e segura, mas, apenas para ir de casa para o trabalho. Seus problemas decorrem da superproteção da mãe que amplifica as limitações de sua deficiência, pois, além de fazer tudo por ela, também decide até as roupas que ela deve vestir, o que a faz parecer um garoto. Ela também é humilhada  e explorada profissionalmente pela prima/patroa, a influenciadora digital, youtuber e famosa quadrinista de mangá, conhecida como Sayaka (Minori Hagiwara). Yuma é autora dos desenhos, mas a prima diz a seu público que trabalha sozinha e ainda desvia parte de seu salário.

Quando decide alçar voo solo,  Yuma leva seu trabalho para ser avaliado por uma revista especializada em mangás eróticos. O desenho e a história são ótimos, mas, as cenas de sexo não parecem convincentes. “Só a imaginação não basta. Volte aqui, quando deixar de ser virgem”, diz a responsável pela revista. E, assim, tem início a jornada de Yuma em busca de sua iniciação sexual, a qual inclui até tentar uma casa de prostituição, depois de não conseguir encontrar um parceiro por meio do aplicativo de encontros. Mas, esse objetivo inicial é apenas o estopim para uma reviravolta em sua vida. Tal como os rapazes de “Hasta la vista”, Yuma também inicia uma viagem. Em sua fuga para se libertar da mãe que chegou a trancá-la a cadeado em casa, Yuma descobre seu passado, encontra a si mesma, torna-se adulta e constrói um novo começo para si e para sua mãe.

O terceiro filme, “The Fundamentals of Caring”,  estreou no Sundance Film Festival, nos Estados Unidos, em 2016, escrito e dirigido por Rob Burnett e baseado na obra literária The Revised Fundamentals of Caregiving, de Jonathan Evison. Nesta história, conhecemos Trevor (Craig Roberts),  jovem de 18 anos, charmoso e com inteligência afiada, fortemente apegado à sua rotina diária, viciado no noticiário de TV, com senso de humor ácido e que se diverte em usar sua deficiência para pregar peças nos cuidadores. Trevor tem Distrofia Muscular de Duchenne [4] e se torna o primeiro cliente de Ben (interpretado pelo ótimo ator de Homem Formiga, Paul Rudd), um escritor que, depois de sofrer uma perda na família, resolve fazer um curso e trabalhar como cuidador. Ele aprende que: “Cuidar não se trata apenas de  alimentar, vestir e limpar. Também se trata de compreender como conduzir um relacionamento complicado entre aqueles que cuidam e aqueles que precisam de cuidados. Pergunte, escute, observe, ajude e pergunte novamente. O essencial do cuidador é cuidar, mas não cuidar demais. Não é possível cuidar do outro se não cuidar de si primeiro.”

Trevor e Ben fazem uma viagem para conhecer as coisas inusitadas sobre as quais o jovem toma conhecimento pelo noticiário, tal como o buraco mais profundo do mundo, por exemplo. Ao se aventurar além das fronteiras de seu mundo e mudar sua rotina milimetricamente calculada, Trevor descobre o prazer de experimentar coisas novas e o que é ter amigos de verdade. Ben faz as pazes consigo mesmo, retoma sua vida e sua carreira de escritor.

Se o movimento  é o cerne dos road movies,  o foco da narrativa acontece mesmo é nas pausas. É numa parada que Trevor, de “The Fundamentals of Caring”, tem seu primeiro encontro com uma garota. Os viajantes de “Hasta la vista” param na estrada para que um dos rapazes possa urinar e é durante essa pausa não panejada que ocorre um dos pontos de virada mais importantes da história.  Philip reconhece e pede desculpas por seu comportamento inadequado em relação à motorista/enfermeira Claude (Isabelle De Hertogh), que tem lá os seus problemas e também sofre uma transformação durante a viagem. Numa outra parada, os rapazes quase levam uma surra por fazerem comentários grosseiros às mulheres de outros homens. Embora haja quem considere que esse comportamento politicamente incorreto torne os personagens desagradáveis, em verdade, no meu modo de ver, isso apenas reforça a humanidade deles. Não são anjos, ao contrário do estereótipo em relação às pessoas com deficiência. São homens e jovens. Seres humanos.

Ainda que tenham a deficiência e os percalços da juventude como mote, os três filmes são muito diferentes entre si. Os rapazes de “Hasta la vista”  e “The Fundamentals of Caring” podem ter comportamentos escrotos, fazem piadas sobre a própria deficiência e riem de si mesmos. Sem serem comédias escrachadas, têm momentos engraçados e, sem cair no dramalhão, tratam com sensibilidade as situações mais difíceis.

Já “37 segundos” é um belo filme mais intimista, delicado, contido, feminino. E tem como diferencial a interpretação da atriz com deficiência que lhe confere uma aura genuína e comovente. A atuação dela proporciona um caráter autêntico e potente à história, sem descambar para o melodrama. Por outro lado, mesmo sem terem deficiências na vida real, os atores de “Hasta la vista” e “The Fundamentals of Caring” têm atuações irretocáveis, tornando seus  personagens verossímeis e cativantes. Afinal, essa é a nobre arte de interpretar, não é mesmo?

Como é praxe nos road movies, ao superar uma série de obstáculos, os personagens se transformam durante o trajeto. A viagem acaba sendo mais interior do que exterior e se revela a metáfora de um recomeço. Esses três filmes são emocionantes, sem serem piegas porque tratam com muita dignidade assuntos tão complexos. Ao compartilhar conosco seus desejos e destinos, seus personagens nos envolvem e nos convidam a viajar junto com eles para que possamos, nós também, mudar nosso ponto de vista.

“Hasta la vista” pode ser assistido no GloboPlay,  “37 segundos” e “The Fundamentals of Caring” estão disponíveis na Netflix. Divirta-se!

 

Trailer de “Hasta la vista”

https://www.youtube.com/watch?v=EfrQRas7gPw

 

Trailer de “37 segundos”

https://www.youtube.com/watch?v=WYsnQ4s9ZIo&t=11s

 

Trailer de “The Fundamentals of Caring”

https://www.youtube.com/watch?v=35KUstvQxOU&t=17s

 

Notas:

[1] Tetraplegia acontece quando a medula espinhal é lesionada na altura do pescoço, causando perda dos movimentos e da sensibilidade do tronco, dos braços e das pernas.

[2] A paraplegia ocorre após lesão da medula espinhal na altura da coluna dorsal ou lombar, causando perda dos movimentos a da sensibilidade na metade inferior do corpo, incluindo ambas as pernas.

[3] A artrogripose é uma malformação das articulações que não se desenvolvem corretamente, causando limitação de movimento e diminuição da força muscular.

 [4] Distrofia muscular de Duchenne é uma doença genética degenerativa e incapacitante que acomete, aproximadamente, um em cada 3.600 bebês do sexo masculino e só de forma muito rara ocorre em meninas. A expectativa de vida para as pessoas com essa distrofia era entre 16 e 19 anos, no entanto, com o avanço da medicina e o surgimento de novas terapias e cuidados, essa expectativa tem sido aumentada.

 

 

Lia Crespo, para Vida Destra, 15/10/2021.                                                              Sigam-me no Twitter, vamos debater o meu artigo! @liacrespo

 

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