Estavam com saudades da Seção Desnudando o Mercado? Eu também. Então nada melhor que analisarmos juntos a semana, após a a eleição do primeiro turno.
Em uma semana cheia de tumultos provocados pelo STF, Vorcaro e Lula, foi marcada positivamente por um forte alívio no câmbio e uma euforia na Bolsa brasileira, o mercado aposta em vitória de Flávio Bolsonaro e um choque de gestão maior nas contas públicas. O dólar fechou abaixo de R$ 5,00 acumulando queda de 4,44% na semana, enquanto o Ibovespa subiu 8,82% e renovou recorde histórico. No entanto, os dados de inflação mostraram pressão: o IPCA de setembro ficou em 0,82%, após deflação em agosto, com destaque para a alta de 7,98% da energia elétrica residencial. O mercado de trabalho segue aquecido, com desemprego em 5,3% e criação de 165.827 vagas formais em agosto. Em meio ao desespero eleitoral, o governo Lula anunciou a zeragem de tributos federais sobre a gasolina e ampliou subvenções para etanol e diesel. No campo fiscal, a arrecadação cresceu, mas a dívida pública atingiu 82,9% do PIB, maior nível desde março de 2021. O Banco Central mantém a Selic em 13,75% ao ano, sem sinalização de cortes lineares.
Análise dos indicadores
Dólar. A moeda americana fechou a sexta-feira (9/10) em R$ 4,985, com queda de 0,78 %, menor valor em quase cinco meses. No ano, a queda acumulada chega a 9,37%. O movimento foi associado, nos dados apresentados, à expectativa de alternância de poder após o primeiro turno das eleições e à baixa da moeda no exterior.
Inflação. O IPCA de setembro registrou alta de 0,82%, contra deflação de 0,32% em agosto. No ano, o índice acumula 3,95%, e em 12 meses chega a 4,58%, acima dos 4,22% dos 12 meses anteriores. Todos os grupos pesquisados tiveram variação positiva. Habitação subiu 2,31%, com energia elétrica residencial avançando 7,98% — principal impacto individual no índice (0,32 p.p.). Alimentação e bebidas (0,83%) e Transportes (0,89%) também pressionaram. O IPCA-15 de setembro havia subido 0,70%, ante -0,40% em agosto. Com isso, o Boletim Focus elevou a projeção do IPCA para 2026 de 4,99% para 5,01%.
Juros. A Selic está em 13,75% ao ano, após corte de 0,25 p.p. em 16 de setembro. O Copom sinalizou que o caminho para novos cortes “não deve ser linear”, citando desaceleração da atividade, resiliência do real, mercado de trabalho apertado e choques globais de oferta. A projeção mediana do Focus para o fim de 2026 é de 13,50%; a XP projeta 13,25%, com dois cortes de 0,25 p.p. nas reuniões restantes do ano. Para 2027, a XP mantém projeção de Selic em 11,50%.
Emprego e desemprego. A PNAD Contínua do trimestre encerrado em agosto mostrou taxa de desocupação de 5,3%, a menor para o período até agosto desde 2012. A população ocupada atingiu 103,5 milhões, recorde histórico da série. O Caged de agosto registrou saldo de 165.827 vagas formais; no acumulado de janeiro a agosto, foram 1.134.033 postos (+2,41%). A XP projeta desaceleração no ritmo de criação de empregos, de cerca de 110 mil por mês em 2025 para cerca de 75 mil em 2026.
Bolsa de Valores. O Ibovespa fechou em 209.066,90 pontos, com alta de 1,38% no dia e 8,82% na semana — maior alta semanal desde março de 2020 e terceira maior desde janeiro de 2020. O índice superou pela primeira vez os 209 mil pontos e renovou recorde histórico de fechamento, inclusive em termos reais (corrigido pelo IPCA), marca que resistia desde maio de 2008. Destaques positivos: MRV (+21,62%), Magazine Luiza (+19%) e Lojas Renner (+11,56%). Na ponta negativa: Telefônica Brasil (-5,25%) e TIM (-4,18%), pressionadas pelo anúncio da Starlink de entrada no mercado de telefonia.
Arrecadação, gastos e dívida. A arrecadação federal de agosto foi de R$235,6 bilhões (+7,12%), maior valor para o período desde 2000. A projeção oficial da receita total do governo federal para 2026 é de aproximadamente R$ 3,24trilhões. O estoque da Dívida Pública Federal ficou em R$ 9,293 trilhões em agosto (+0,04% ante julho). A Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 82,9% do PIB (R$ 11,05trilhões), maior nível desde Março de 2021. Um levantamento apontou economia potencial de R$ 65,8 bilhões com a dívida caso o patamar de juros da última sessão se mantenha.
Combustíveis e medidas do governo. Em 9/10, decreto presidencial zerou integralmente PIS/Pasep, Cofins e Cide-Combustíveis sobre a gasolina. A desoneração da gasolina foi ampliada de R0,63 para R0,89 por litro. A subvenção ao etanol hidratado subiu de R$0,25 para 0,43 por litro, e a subvenção adicional ao diesel importado ficou em R$ 1,40 por litro. O prazo é de 30 dias, com possibilidade de prorrogação. Segundo o governo atual, a medida foi anunciada para conter a alta dos preços dos combustíveis em meio à escalada do petróleo no mercado internacional.
Cenário externo e outros indicadores. O Fed elevou os juros nos EUA para o intervalo de 3,75% a 4,00%, primeira alta desde 2023. O Treasury de 10 anos atingiu 5,30%, maior nível desde 2002. O petróleo voltou a superar US$ 100 por barril. No Brasil, as NTN-B tiveram um rali “estelar” em 7/10, atingindo o nível mais baixo desde novembro de 2024.
Impacto no bolso do brasileiro
A queda do dólar para abaixo de R$ 5 pode aliviar, ainda que indiretamente, preços de produtos importados, combustíveis e viagens internacionais. Por outro lado, a inflação de setembro voltou a pressionar o orçamento doméstico: a alta de 7,98% da energia elétrica residencial tem efeito direto na conta de luz, enquanto alimentação e transportes também subiram. A zeragem de tributos federais sobre a gasolina e o aumento das subvenções ao etanol e ao diesel podem segurar o preço na bomba no curto prazo, mas a medida tem prazo de 30 dias. Com a Selic em 13,75%, o crédito segue caro para famílias e empresas, embora aplicações de renda fixa permaneçam atrativas. O mercado de trabalho aquecido, com desocupação em 5,3% e massa salarial recorde, sustenta a renda, mas a criação de vagas deve desacelerar. A alta do Ibovespa beneficia investidores e fundos, sem efeito direto imediato para quem não aplica em ações.
Conclusão
A semana de 4 a 10 de outubro de 2026 combinou alívio cambial, euforia na Bolsa e força do emprego com pressões inflacionárias e incerteza fiscal. O dólar caiu, o Ibovespa bateu recorde e o desemprego segue no menor nível da série histórica. Ao mesmo tempo, o IPCA voltou a subir com força, puxado pela energia elétrica, e a dívida pública atingiu 82,9% do PIB. O governo agiu nos combustíveis para conter a alta, mas com medida temporária e desesperada. A Selic permanece elevada, e o Banco Central não sinaliza cortes lineares. O cenário externo, com juros americanos mais altos e petróleo acima de US$ 100, adiciona pressão. Para o bolso do brasileiro, o alívio do câmbio e dos combustíveis divide espaço com a conta de luz mais cara, crédito caro e inflação acima da meta.
Nunes, para Vida Destra, 10/10/2026
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