Salvo raríssimas exceções, o leitor comum e desavisado não encontrará na mídia tradicional –, comumente chamada de “Grande Mídia”, um jornalismo capaz de fomentar um debate sensato do que viria ou poderia ser a política, enquanto um embate de ideias que podem ou poderiam influenciar os rumos e a percepção do conhecimento da verdadeira realidade da qual fazem parte as pessoas que no interregno de dois anos vão às urnas para decidir um pleito eleitoral.

Olhando de soslaio, o que se percebe é o embate da mídia dita especializada que fomentam seus editoriais, suas matérias e suas pautas – que desde o início das manifestações que varreram o país a partir de 2013, vive em completo descompasso com a camada média da população que está descolada desta bolha progressista. Desde o advento dessas manifestações, a sociedade do mundo real iniciou um período de independência em busca de informações que não nasciam nas grandes redações de jornais, e principalmente nas colunas de jornalistas blasé que imprimiam sua ojeriza ao cidadão médio, pois, viviam a falar para aos seus pares tidos como classes iluminadas que nunca compreenderam a fundo, os princípios e valores que regem os cidadãos que povoam os asfaltos das metrópoles ou bancos de praças no interior esquecido do país.

O descolamento da realidade em que vivem os redatores, editores e jornalistas que franzem o rosto incrédulo aos valores de um Brasil alienado às suas celestes opiniões, é fruto de uma arrogância denunciada pela literatura, que exalta os diplomados, e fazem pouco dos “iletrados” que buscam conhecimento, como no caso de um cidadão que lê livros e possui uma biblioteca – mesmo não sendo ele um “bacharel”. E, isso, causou uma ruptura com a matrix do pensamento hegemônico, onde a informação só existe com veracidade e imparcialidade se sua gênese for as redações dos jornais que poucos leem, quando muito, os que o folheiam são os partícipes do círculo vicioso do conhecimento autenticado pela guilda de intelectuais, que se encastelaram e com isso perderam o contato e a noção da realidade.

Essa clausura foi exposta pela internet, e principalmente por meio das redes sociais, que de certa forma deu voz aos “indivíduos, ora impronunciáveis”, àqueles de quem a mídia não poderia nem perder tempo em citar ou discutir suas ideias, como afirmara certa vez Milton Temer, ao pedir explicitamente que os meios de comunicação “não deveriam nem ao menos citar Olavo de Carvalho, pois o mesmo não era para ser comentado”. Ou seja, se as ideias fogem dos salões nobres da realeza academicista e midiática, e se essas ideias representam um contraponto ao discurso uníssono da elite tradicional, o que fazer com esse petulante que ousa expor as idiossincrasias da classe falante? Alija-o do debate das ideias, pois seu pensamento e postura não coadunam com o nosso status quo – além de humilhar os iluminados que vivem nas mais densas trevas.

Olhando para o momento único que essas eleições representaram para o país, o discurso e narrativa imposta pelos meios de comunicação ruíram, e junto com ele o seu poder de moldar e mudar consciências se esvaíram com a ascensão das redes sociais no debate político, uma vez que tal ferramenta permitiu a notícia, bem como a sua interpretação chegar ao cerne do senso comum, sem as bênçãos da exegese da classe dos oráculos de Delfos, que de certa forma está sendo desnudada, pois as redes sociais revelaram cruamente as suas incongruências e imparcialidade tão propagada, que não cola nem mesmo nos bancos das universidades que se tornaram centros de excelência de militância organizada capitaneada por: PCdoB, PROS, UNE, UJS, PT, REDE, PSOL, e “tutti quanti”. Essa imparcialidade que possui lado foi desnudada causando alvoroço na elite sapiente, que já não detém o poder da narrativa, principalmente na Esquerda que sempre foi beneficiada pela linha editorial simpática e conivente.

Exemplos clássicos dessa suposta imparcialidade se esvaem matéria após matérias noticiosas, que estão longe de serem notícias. E, principalmente, por seu viés progressista, acabam por direta ou indiretamente tomando partido, e com isso produzindo cortina de fumaça em detrimento de um dos espectros políticos. Recentemente, ambas as figuras que disputaram a corrida presidencial, foram surpreendidas por suas próprias declarações, cito, a fala do Gen. Hamilton Mourão que ousou criticar a política salarial, chamando o 13o Salário de Jaboticaba. Resultado: foi defenestrado do debate por insistentes matérias que não cessavam de atacar o candidato principal, Jair Bolsonaro, que naquele momento estava se convalescendo em um leito de hospital, vítima de um crime cometido por um autodeclarado indivíduo de extrema-esquerda ligada ao PSOL.

Em contrapartida, o então candidato a Presidência pelo PT, Fernando Haddad disse que iria convocar uma “Constituinte Exclusiva”, e que se preciso fosse “criaria meios e condições” juntamente com conselhos populares (MST, MTST, UNE e os mesmos baderneiros de sempre), e que isso inclusive, havia sido mediado com a integração do PCdoB que comporia a chapa como vice. Isso sim é preocupante! E não foi noticiado como deveria, pois o candidato petista, apenas repetiu o que o guru intelectual do partido, o comunista e ex-presidiário José Dirceu, havia dito dias antes, “que o PT tomaria o poder, e que isso independe de ganhar eleições”, demonstrando com isso um total desprezo pelo Estado Democrático e suas instituições. O que se seguiu a isso? Uma matéria para cumprir pauta, mas, não houve sequer, o mesmo escrutínio incensado e dispensado ao outro lado, que apenas expôs sua visão crítica a respeito de determinado assunto, ao passo que a “Constituinte Exclusiva” era proposta inserida em plano de Governo e ecoada na boca do alto comando petista. Inclusive, em um momento de “autocrítica”, o ex-presidente e ex-presidiário (por enquanto), em ato falho revela sua faceta autoritária dizendo: “Eu, por exemplo, tive um erro grave. Eu poderia ter feito a regulamentação dos meios de comunicação”, e ficou por isso mesmo. Não houve um jornalista profissional escandalizado com a postura totalitária do meliante de Atibaia. A mídia e a classe falante não deram um único suspiro sobre as declarações fascistas que revelam ditadores por trás da máscara de bons democráticos vendida a preço de petróleo com o auxílio de marqueteiros enrolados até a medula em processos e condenações.

A guisa de exemplo trazemos à baila outro episódio que exprime essa polarização do debate, e consequentemente, a insistente militância dos editoriais. O Deputado Federal Eduardo Bolsonaro, eleito com mais de 2 milhões de votos, enquanto ministrava uma aula inaugural em cursos para ingresso na Polícia Federal, respondeu um questionamento de um concurseiro sobre a possibilidade de o Exército intervir, caso, o STF impedisse o ingresso de Bolsonaro na Presidência da República por meio de chicana jurídica e muito ativismo irresponsável. Ele responde ironicamente, que não precisaria do Exército, e que somente um Soldado e um Cabo seriam suficientes para fechar o STF. Pronto! Para a mídia profissional a caixa de pandora que ecoa no imaginário da Esquerda desde o período do Regime Civil/Militar foi aberta. Logo, Ministros ativistas tiveram voz e a repercussão foi seguida por uma fala de indignação (àquela mesma indignação que fez prescrever processos como o de Renan Calheiros e et caterva), e fingindo ostentar um zelo angelical pela democracia. Os mesmos Ministros, mídia ou academia não deram repercussão as falas de um Deputado Petista desesperado por ver seus companheiros e asseclas serem, um a um presos, na Operação lava jato, inclusive com a confirmação de sentença pelo próprio STF. O ilustre e democrático petista em voga, era o Deputado Wadih Damous, que democraticamente diz que “tem que fechar o Supremo Tribunal Federal!”. O que é idiossincrático é que o mesmo deputado já foi, inclusive, presidente da OAB Secional do Rio de Janeiro. Mas, o que causa espécie para a elite iluminada é a resposta de um Deputado que lecionava para alunos, cuja resposta, provavelmente não foi levada a sério nem mesmo pelos concurseiros de plantão, pois os mesmos tinham a exata noção do contexto entre pergunta e resposta. Convenientemente (04 meses após o ocorrido), a Folha, apelidada ironicamente nas redes sociais de “Foice de São Paulo”, começou a divulgar o mesmo vídeo justamente na última semana das eleições. Isso beira a desonestidade intelectual com o fim de corromper a inteligência e o discernimento de indivíduos que são bombardeados todos os dias com matérias que visam à desconstrução de um candidato, enquanto o outro é incensado como moderado e democrático ou outro eufemismo qualquer, em que pese ser portador de 32 (trinta e dois) processos em casos de corrupção que vai de caixa dois, fraude no ENEM, Desvios no Theatro Municipal, Escândalo da Salsicha, Desvio nas Multas, e outras infinidades nada dignas de um homem que se diz probo e apto para concorrer ao cargo máximo da República  – isso  sem falar que esteve como Ministro de Estado em um Governo que assaltou sistematicamente o país ao longo de 16 anos. Isso, a mídia simpática aos desmandos do PT/PSDB com sua fome voraz a ponto de surrupiar merenda escolar não repercute; e não traz para o centro das discussões, em que pese ser um momento singular da história, onde para muitos a pauta que trata do combate a corrupção e demais valores inalienáveis para a sociedade deveria ser o cerne do debate público –, e não as delongas sobre minorias e afins.

Em seu livro Apoteose da Vigarice, Olavo de Carvalho faz uma constatação ao enfrentar um choque de realidade. Ao mudar-se para os USA, percebendo como se dá o debate e como as ideias são fomentadas, ele diz: “Já quase acostumado aos bate-bocas medonhos entre Republicanos e Democratas na mídia americana, fico cada vez mais deprimido ao observar a pastosa uniformidade dos jornais brasileiros. É uma assembleia de cães amestrados, cada qual mais ansioso de mostrar obediência aos cânones admitidos. O que um declara, o outro repete. O que um suprime, os outros omitem. O que um aprova, os outros aplaudem”.

Por essas bandas, a classe letrada em sua incessante cruzada em detrimento de sua postura e agenda, assume lado e torcida no espectro político. Por esse prisma segue tão nocauteada quando a própria esquerda. Pois o toque de Midas que a imprensa profissional tinha sobre a propaganda eleitoral perdeu o efeito, e consequentemente tornara-se um reflexo distorcido daquilo que ela supostamente mais combate – as Fake News.

Natalino Oliveira, para Vida Destra, 28/6/2020.

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Fabio Sahm Paggiaro
14 dias atrás

A imprensa brasileira, com raríssimas exceções, há muito se tornou comunista. Virou um “Ministério da Verdade”. Porém, está caminhando para o abismo, pois perdeu o monopólio da informação para as redes sociais. Por esse motivo, tentam acabar com elas pela Lei das Fake News.