O atual sistema político do Brasil se divide, basicamente, em 2 tendências ideológicas opostas entre si: esquerda e direita. Apesar de existirem correntes alternativas (como o chamado “Centrão”, e outras que muitos denominam de “Terceira Via”), são aquelas 2 primeiras (esquerda e direita) que mais se destacam.

Em relação aos partidos, poderíamos dizer que existe um certo domínio da esquerda no Congresso Nacional. Dentre esses mesmos partidos, o PT é quase sempre o primeiro a ser lembrado. Em outras palavras: ao se falar da esquerda, o PT já é automaticamente colocado como a principal referência (ou como se fosse o único representante de toda a esquerda).

Apesar do PT ainda ser o carro-chefe (isto é, o partido mais conhecido) da esquerda, há outros que, em maior ou menor proporção, seguem a mesma linha de atuação do PT (como PSOL, PSTU, e PCO). Isso porque eles vieram justamente de algumas dissidências do próprio PT. Além deles, temos também outros que surgiram ao longo da história: PDT, PCB, PC do B, PSB, Cidadania (antigo PPS), PV, Rede, Solidariedade (dentre outros).

Existe, porém, um que chama a atenção: é o PSDB. Algumas pessoas desinformadas (ou mal intencionadas) têm a tendência em ver o PSDB como um partido de direita (ou como oposição ao PT). Tanto que esta ideia de que ambos (PT e PSDB) eram (e ainda são) adversários passou, após um certo tempo, a ser amplamente divulgada na grande imprensa como sendo a mais absoluta verdade.

Isso ficou ainda mais evidente nas eleições presidenciais de 1994 e 1998, onde a disputa foi polarizada pela suposta rivalidade entre Lula e FHC (Fernando Henrique Cardoso). O slogan predominante era o de que Lula (do PT) era o candidato que defendia os interesses dos pobres, da classe operária, das minorias, dos excluídos, e de todo o povo em geral, enquanto que FHC (do PSDB) era o representante da burguesia, dos banqueiros, dos empresários, do grande capital, e da submissão do Brasil ao FMI (e ao imperialismo americano). Em outras palavras: seria o “projeto popular” (do PT) contra o “projeto das elites” (do PSDB). E isso foi intensamente propagado em ambas as campanhas.

Que o PT é um partido comprovadamente de esquerda, isso já está mais do que confirmado (não há o que discutir). E quanto ao PSDB? Será que o PSDB é realmente de direita? E será que os governos de FHC foram realmente liberais e de direita? E será que FHC foi mesmo um representante do neoliberalismo econômico (que era o que alguns esquerdistas diziam quando ele esteve à frente da Presidência da República)?

Para respondermos a estas perguntas, é necessário que voltemos no tempo a fim de saber como tudo aconteceu. Conhecendo o contexto histórico de cada época específica (e também sabendo como cada personagem atuou direta ou indiretamente dentro do mermo contexto), podemos formar uma sequência lógica dos eventos que ocorreram desde aquela época até o presente momento.

No período compreendido entre o final de 1986 (após as eleições gerais) e o início de 1987, surgiu, dentro do PMDB (que, na época, era o principal partido de oposição ao PDS, o partido do governo), um movimento político específico: o MUP (Movimento de Unidade Progressista), liderado por FHC. Este mesmo movimento foi o ponto de partida para o surgimento do atual PSDB. A atual sigla (PSDB) significaria, num primeiro momento, o nome do partido, o qual seria denominado “Partido Socialista Democrático Brasileiro”. Para disfarçar a tendência esquerdista do novo partido (que ficaria muito explícita com o termo “Socialista” no nome), o mesmo foi rebatizado como “Partido da Social Democracia Brasileira” (como permanece até hoje).

No dia 25/06/1988, um grupo de dissidentes do PMDB que não concordava com o governo do então presidente José Sarney resolveu fundar um novo partido que, nas palavras dos seus integrantes, haveria de romper com a chamada “Velha República”. O mesmo partido adotaria, entre outras coisas, a primazia do trabalho sobre o capital (característica da ideologia trabalhista), a ética, a solidariedade, e a participação comunitária (característica da ideologia social), e adoção de medidas liberais (típicas do liberalismo econômico). Dessa fusão de correntes ideológicas é que surgiu a social democracia (e a fundação do PSDB). Entre os fundadores, estavam: José Serra, FHC, Mário Covas, Franco Montoro, José Richa, e Geraldo Alckmin (dentre outros).

Embora a esquerda tente associar a social democracia à direita (devido às posturas liberais da economia), não deixa de ter características de esquerda, como a presença maciça do Estado na área social (o chamado “Estado de bem-estar social”). A social democracia não é contra o capitalismo, mas, em contrapartida, não abre mão do controle do Estado sobre a economia e a área social. Logo, a social democracia é uma corrente ideológica que pode ser classificada como sendo de centro-esquerda. É uma esquerda mais “moderada” em relação à chamada “esquerda radical” (representada pelo PT e por outros partidos com a mesma agenda). Mas não deixa de ser esquerda.

Para que não haja mais nenhuma dúvida de que o PSDB nunca foi de direita, vamos enumerar alguns pontos:

• FHC (um dos fundadores do PSDB) foi estudioso (e admirador) do marxismo. Nos anos 50, trabalhou na revista “Fundamentos”, pertencente ao PCB (Partido Comunista Brasileiro);

• Em 1990, FHC (que, na época, era senador), num documentário de sua autoria intitulado “Social democracia – O que é, e o que propõe para o Brasil”, disse textualmente: “Qual é a posição ideológica da social democracia? Se ser de esquerda significa ser contra a ordem social existente (e ser de direita é ser a favor), então a social democracia é, sem dúvida, uma corrente de esquerda. Um social democrata é, antes de tudo, alguém que tem senso crítico, que percebe as injustiças da sociedade, e que não tem medo de se opor a elas (mesmo correndo o risco de passar por subversivo ou sonhador). Ser de esquerda, neste sentido, é o mesmo que ser progressista. É acreditar que tudo na vida muda, se transforma, e que é melhor ajudar conscientemente a mudança do que ficar parado no tempo, agarrado aos privilégios, à ideologia, às conveniências políticas, enfim, a tudo o que faz as pessoas de direita defenderem a ordem estabelecida apesar das injustiças, da miséria e da violência que ela produz”.

Estas são as bases do PSDB, um partido assumidamente de esquerda;

• Em 2003, aconteceu, em São Paulo, o “XXII Congresso da Internacional Socialista” (organização atuante que, há décadas, possui afiliados 160 partidos de esquerda em mais de 100 países ao redor do globo). No evento em solo nacional, integraram oficialmente o PDT (partido membro da organização no Brasil), além do PPS e do PT (que foram convidados como observadores).

A abertura do evento foi feita pelo então presidente Lula, que disse: “Espero que esses 3 dias, em que São Paulo se transforma em capital mundial do socialismo democrático, permitam a realização de um importante debate. De um debate capaz de renovar as esperanças daqueles que em todas as partes do mundo, sonham e lutam por um mundo mais livre e justo, o que é a essência do socialismo. As profundas transformações pelas quais passou o mundo nas últimas décadas, abalaram muitas certezas e afetaram em parte paradigmas socialistas do passado. Os conservadores celebraram muito apressadamente, sobretudo na América Latina, a vitória de suas teses, e a derrota das esquerdas. Não foi necessário que transcorresse muito tempo, porém, para constatar que o legado que o conservadorismo deixou foi um continente o mundo de desempregados e famintos atravessados por profundas desigualdades e incertezas. Um mundo onde as grandes conquistas científicas e tecnológicas beneficiam relativamente poucos excluindo muitos”.

O que muita gente não sabe é que o PSDB tentou se filiar à mesma entidade. O pedido, porém, foi negado graças à forte influência de Leonel Brizola na organização, o que foi encarado pelos tucanos como um mero golpe eleitoreiro. A negativa gerou uma dura nota do partido à imprensa. Eis o teor da mesma nota: “Só a ignorância pode explicar (sem, no entanto, justificar) o sectarismo presente à organização do XXII Congresso da Internacional Socialista, que acontece em São Paulo na próxima semana. O encontro deixou de lado forças representativas do campo progressista brasileiro, em especial o PSDB, numa demonstração de manipulação partidária, oficialismo, e desconhecimento de nossa realidade política que é de causar vergonha aos que, ao longo da história, empunharam as bandeiras nobres da Internacional Socialista”.

A nota acima foi assinada por José Anibal (então presidente nacional do PSDB);

• A acusação de que o governo de FHC foi de direita carece de qualquer embasamento ideológico com o que seja o conservadorismo (ou qualquer outra vertente ligada à direita). Mesmo sem qualquer apelo à família tradicional, à religião, ou a outros valores conservadores (para corroborar tal julgamento), normalmente a direita é associada com a palavra privatização. Tal postura é um erro, a julgar o período histórico em relação aos próprios modelos de privatização adotados por FHC (longe de qualquer ideário liberal).

O que FHC fez, na verdade, foi apenas dar continuidade a uma política de descentralização inescapável para aliviar os gargalos de um país em processo de abertura. Esta política foi iniciada por Collor (e continuada por Itamar Franco). Mais tarde, tal processo seria retomado por Lula e Dilma em seus respectivos governos;

• Pouco antes de entregar o poder no final de 2002, FHC rejeitou o título de “neoliberal” (tão intensamente propagado pela esquerda). Ele disse textualmente: “Nunca houve nenhuma chance do neoliberalismo aqui. Este país é muito pobre, e o Estado terá sempre um importante papel na diminuição das diferenças sociais. Nós liberalizamos, mas não promovemos uma varredura do que existia antes. No Brasil, o gasto público, na verdade, aumentou como porcentagem da produção econômica”.

Apesar da política de privatizações, FHC foi responsável por criar diversas agências reguladoras (com poder de controle por parte do Estado). Dentre elas, destacamos: Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), Ancine (Agência Nacional do Cinema), ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), ANP (Agência Nacional do Petróleo), ANTT ( Agência Nacional de Transportes Terrestres), Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). De 10 dessas mesmas agências reguladoras existentes atualmente, pouco mais da metade delas foi fundada por FHC.

Como parece claro aqui, tratar o PSDB como um partido de direita (devido às posturas liberais e privatizantes) é uma tentativa de trazer todo espectro político mais à esquerda, radicalizando o debate, e transformando qualquer pessoa (ou partido) que não seja de esquerda em extrema-direita;

• Nem mesmo o ex-presidente Lula considera o PSDB como um partido de direita. Para ele, o PT e o PSDB são “que nem 2 jogadores de futebol, somos amigos, somos até irmãos, e estamos jogando em times diferentes”.

Na campanha presidencial de 2010, que contaria com Dilma, Serra, Marina Silva, e Plínio de Arruda Sampaio, ele comemorava a ausência de candidatos de direita na disputa. Eis o que ele disse na época:

“Vocês querem conquista melhor do que numa campanha neste país a gente não ter nenhum candidato de direita? Porque, antigamente, como é que era a campanha? Era o de centro-esquerda ou de esquerda contra os trogloditas de direita. Era assim em toda campanha. Começou já a melhorar comigo e com o Fernando Henrique Cardoso (já foi um nível elevado). Depois, foi comigo e o Serra também. Depois, eu e o Alckmin. Mas aí baixou o nível (por conta dele, não minha). Mas, agora, se tiver se apresentando os candidatos que eu estou vendo aí, vai ser uma coisa inédita neste país. Se tiver 4 ou 5 candidatos, são todos do espectro de esquerda. Uns podem não ser mais tão à esquerda quanto eram, mas não tem problema. A história e a origem dão credibilidade pro presente das pessoas. Essa eu acho que essa é uma conquista que nós precisaríamos aprender a valorizar. Porque era inimaginável até outro dia que nós chegássemos a esse momento do Brasil: não ter um único candidato que represente a direita. É fantástico”.

Você, eleitor, lembre-se disso na próxima vez que chamar o PSDB de direita (nem o próprio Lula concorda com essa ideia).

CONCLUSÃO:

Podemos afirmar, sem nenhum medo de errar, que o PSDB nunca foi, não é, e nunca será de direita. É um partido de centro-esquerda, ou seja, é uma esquerda “moderada” em relação ao PT (e a outros partidos da chamada “esquerda radical”). Mas é esquerda do mesmo jeito (não é de direita)!

Que esta mensagem seja amplamente divulgada a todos, para que não se deixem enganar pela aparência “democrática” do PSDB!

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (João 8:32)

 

 

Justiceiro Solitário, para Vida Destra, 24/09/2020.
Sigam-me no Twitter! Vamos debater meu artigo! @JUSTICEIROSOLI2

Acompanhe me
Últimos posts por Justiceiro Solitário (exibir todos)
Subscribe
Notify of
guest
14 Comentários
mais antigos
mais novos mais votados
Inline Feedbacks
View all comments
Davidson José de Sousa Oliveira
2 anos atrás

A história comprova o teatro das tesouras. FHC nunca foi de direita e tampouco conservador.
Justiceiro, lhe rendo meus sinceros parabéns pelo texto bem organizado.

Nunes
Admin
2 anos atrás

Belo artigo. Infelizmente muita gente boa foi enganada pelos “falsos direitistas”

Wilson
Wilson
2 anos atrás

Excelente texto! Mostra que o PSDB, por fora, apenas tem a aparência de direita, mas, por dentro, a essência é de esquerda (tanto quanto o PT)! Foi direto ao ponto!

Parabéns ao “Justiceiro Solitário” por mais um artigo bastante esclarecedor!

Edna
Edna
2 anos atrás

Realmente um texto esclarecedor
Parabéns!!!

Fábio Sahm Paggiaro
2 anos atrás

Excelente análise. Se FHC ou PSDB se colocavam ou eram convenientemente colocados como “centro” ou direita, era somente para enganar direitistas e levar seus votos e chegar ao poder. FHC aplainou o caminho para Lula e este, como bom esquerdista, acabou com o Brasil. Tudo combinado. Alguém do PSDB fala dos roubos do PT? Claro que não, pois estavam juntos, mas disfarçados de inimigos. FHC condena algum corrupto do PT? Não! Mas condena Bolsonaro por ser “ameaça a democracia”. Os dois são farinha do mesmo saco. Tramaram juntos contra o Brasil.

Lucas
Lucas
2 anos atrás

Este artigo foi mais do que oportuno (veio no momento certo). E considerando que este ano é de eleições, nada melhor do que mostrar a verdade sobre certos partidos (como o PSDB). Isso serve para alertar o povo (para que ninguém seja enganado)!

Parabéns ao autor (“Justiceiro Solitário”), por nos brindar com mais um primoroso artigo!

Nilza
Nilza
2 anos atrás

Texto super esclarecedor e de fácil compreensão. Justiceiro, muito obrigada pela excelente eloquência e esmero na pesquisa. FHC e Lula fez o Brasil inteiro de telespectador de uma enganosa e macabra peça teatral. Dois esquerdo-nazistas que, sedentos de poder, destruíram nosso País. Nunca mais podemos esquerdista entra na minha vida

Luiz Antonio
Luiz Antonio
2 anos atrás

No brilhante artigo de @justiceirosoli2 s/a verdade do PSDB, que não é de direita, salutar dizer que as agências reguladoras criadas nos EUA por John F. Kennedy não tem o mesmo propósito que aqui no Brasil. Alias, o que houve foi um teatro das tesouras.