Tenho ouvido figuras que considero importantes e que tiveram relevância na mudança dos rumos políticos do Brasil, fazerem comentários que soam como se estivessem ensinando Bolsonaro a governar ou mesmo apontando as famosas “soluções milagrosas”, como se política, num país apodrecido como o Brasil, se fizesse tão somente com ideologia. Falaremos sobre dois grandes influenciadores da direita ou dos conservadores brasileiros. São eles o filósofo e professor Olavo de Carvalho e o jornalista Allan dos Santos.

Tenho admiração e profundo respeito pelos dois, porém não posso deixar de apontar alguns erros que eles cometem, que nem chagam a atrapalhar Bolsonaro. O que mais me assusta é o fato de que, não só eles, mas alguns outros apoiadores do Presidente, esperem que dentro de um sistema onde não há equilíbrio ou harmonia entre os poderes, um indivíduo sozinho, com suas convicções e cosmovisão, convencerá um Congresso que mais parece um clube de sócios; um Judiciário aparelhado com indicações da mesma quadrilha que nos trouxe até aqui e um Senado com os rabos presos pelo mesmo Judiciário.

Recentemente Olavo de Carvalho publicou críticas a Bolsonaro que não pareceram muito produtivas. O próprio Olavo admite que, apesar de ter críticas ao Presidente e não concordar com boa parte de suas ações, continua firme com ele, declarando voto e apoio.

“Já reconheci mil vezes que o Bolsonaro é o melhor administrador que o Brasil já teve. Só não aceito que o melhor administrador seja também o mais fraco líder político, somando novas humilhações a cada bom trabalho que faz na administração.” (Leia a citação original aqui)

O filósofo compreende a competência, mas critica a suposta fraqueza política de Bolsonaro. Já sabemos que, para Olavo, a política brasileira deixou de ser um campo de debate ou de aceitação, passando a ser terreno onde o embate ideológico deve ser travado com mãos de ferro e peito de aço.  Para ele:

“O problema do Bolsonaro, como o de todo o movimento bolsonarista, como o de todos os generais, é sua total ignorância do movimento comunista, do qual têm uma ideia tosca adquirida na mídia.” (Leia a citação original aqui)

Como grande influenciador que é, Olavo de Carvalho, em sua vasta obra, defende basicamente que é preciso combater fogo com fogo. Enquanto os conservadores, ou movimentos de direita, continuarem combatendo o comunismo dentro das “quatro linhas”, os inimigos, que usam de todos os meios para chegarem e se manterem no poder, prosperarão.

O jornalista Allan dos Santos já tem um posicionamento muito mais ligado à sua própria situação de exílio político. Suas críticas são voltadas para a suposta falta de envolvimento do Presidente com a situação dos presos políticos e dos perseguidos pelo STF. Recentemente escreveu:

“Presidente Jair Bolsonaro, se o senhor que REALMENTE não cerceia a liberdade de expressão ficará calado, o que será do povo quando o retirarem daí graças às táticas de ‘pacificação’ com a corja política? Não se trata de ‘reclamação’. É seu dever FALAR pelo POVO. Ao menos FALAR”. (Leia mais aqui)

A crítica de Allan dos Santos reforça a tese de que muitos dos que são defensores do Presidente ainda acreditam que ele iria se envolver diretamente com questões envolvendo seus apoiadores e o STF. Este é o principal inimigo político de Bolsonaro, já que a maioria dos que ali exercem suas atividades são opositores das pautas dos conservadores e, para piorar, são representantes das agremiações partidárias que dominaram o Brasil nos últimos trinta anos.

É fundamental tentar compreender a crítica como forma de avaliar ações e corrigir rumos. O que há de diferente nestes casos é o fato de que os críticos não criam uma narrativa para se oporem ao Presidente. Na verdade, aquilo que criticam pode ser até mesmo algo com grande fundo de verdade, porém é preciso entender os limites de ação que cada cargo permite. Talvez seria imprudência querer que Bolsonaro assumisse uma postura radical às vésperas das eleições.

Tudo isso prova que aquilo que chamamos de direita no Brasil, na verdade ainda não se consolidou como força política. Ela tem número para eleger representantes nos poderes constituídos, tem poder de mobilização, tem pautas definidas, mas não tem o principal para a ação no campo político: a organização para falar a mesma língua. Não se pode pensar que a direita (que alguns até dizem não existir, mesmo compartilhando de seus ideais) é um partido político ou um conglomerado partidário. Ainda não há, sequer, um partido 100% conservador, de direita, no Brasil. Resta ainda um longo caminho para que ela se defina como força política e não somente social.

 

 

Davidson Oliveira, para Vida Destra, 13/01/2022.
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WELTON REIS DOS SANTOS
9 dias atrás

Sua preocupação é fundamental, como fundamental é a organização. O PT foi um partido organizado pela igreja católica que tem na hierarquia e conhecimento individual a sua maior competência. Os outros partidos são meras agremiações eleitoreiras. Revolução para unificação nunca deu certo, vide a francesa que foi uma carnificina. O momento é de mobilização para convencer. Excelente artigo!