Praça de Alimentação do Shopping Metrô Boulevard Tatuapé, eu revisitando o livro “A Jornada do Escritor”, de Christopher Vogler, acompanhado do meu frapê de coco, enquanto aguardava pela presença da Gisele.

Faltavam dez minutos para o horário que havíamos combinado, a energia era boa, de alegria com a presença de jovens em quantidade. As calças jeans, quase sempre rasgadas, e bermudas, passeavam para todos os lados completando o vestuário despojado e colorido.

Gisele aparece em minha frente exatos dez minutos depois, como se ela estivesse ali perto e aguardando o horário correto para a sua entrada. Ela não estava maquiada, nem sequer usava batom; trazia uma beleza natural com o sorriso como ponto forte. Machado de Assis talvez a definiria como uma mulher bem fornida, mas estava longe de ser gorda. Em suma, era um ímã para os olhares masculinos.

Beijou-me, abraçou-me e foi buscar a bandeja com o pedido que já havia feito por aplicativo no celular. Na volta, antes de chegar perto da nossa mesa ela já foi atirando:

-E aí, meu? O Bolsonaro vai dar um 2020 legal para a gente?

Eu ia responder quando uma voz vinda do lado esquerdo atravessou e respondeu primeiro.

-Vai nada, cara. Ele vai dar é muita dor de cabeça e muita canelada, igual fez neste ano.

Olhei para Gisele dizendo com o olhar: eu não sabia que a Pity também viria! O olhar dela me respondeu: nem eu.

-Pity, que surpresa!
-Opa! Parece que não sou bem-vinda.

Gisele foi mais rápida do que eu:

-Deixa de besteira, bobinha, você sempre é bem-vinda. – O beijo e abraço que ela deu na Pity foram mais afetuosos e mais demorados do que os que eu ganhei.

Essas minhas amigas improváveis, com idades tão menos que a minha e que conheci em uma oficina de literatura na USP Butantã, falavam de forma trocada. A Gisele, carioca, normalmente iniciava suas falas usando o “meu”; e a Pity, paulista, usava o “cara”.

-Vocês estão dando continuidade ao exercício de argumentação?

-Sim, disse Pity enquanto me beijava, a Gi defende e eu ataco.

-Por que assim?

-Porque sou louquinha para criticar esse governo, cara.

-Então, Pity, se você já tem a intenção de criticar, você perde a isenção! – Gisele interveio.

-Você não defende o cara? Eu critico.

-Pity! Quando ele pisa na bola eu reconheço, e você sabe disso.

-Mas Gi, eu não tenho culpa, ele levanta a bola para mim, então eu tenho que dar uma raquetada legal. O cara fala muita bobagem, Gi, são muitos confrontos, desnecessários, e tem um monte de gente que critica ele.

-Sabe o que eu vejo, Pity? Os governos anteriores aparelharam os dois poderes onde isso era possível, o próprio executivo, totalmente, e a parte do judiciário onde cabiam as indicações. Todo mundo confortavelmente instalado, alguns trabalhando pouco e outros nem isso, com salários mensais bem acima do que boa parte da população recebe por ano; e os do topo recebendo por mês o que alguns da vala comum não receberão por toda uma vida.

Pity tentou intervir, mas Gisele fez sinal com a mão e continuou.

-Os donos do poder roubaram tanto e com tal facilidade que acabaram por se descuidar sobre o rastro do dinheiro. Pity, veja o exemplo: os sujeitos roubaram em tal monta que, depois de investir em imóveis, colocá-los em nome de parentes, de amigos e de laranjas; depois de abrir várias contas bancárias em nomes de terceiros; comprar joias e obras de arte, carros, lanchas e aviões; depois de várias contas no exterior; ainda sobrava tanto dinheiro que, não tendo mais onde guardar, gastar ou investir, os sujeitos guardavam dentro de paredes e em tudo o que era lugar imaginável ou inimaginável. Um desses alugou um apartamento com o único objetivo de guardar cinquenta milhões de reais em cédulas, em dinheiro vivo, dentro de malas; e você sabe disso. Só com esse dinheiro já daria para construir um belo hospital, ou uma bela escola, ou tantas outras coisas para a população. Aí chega um governo com novo perfil e se comprometendo a mudar muitas coisas. Os bichinhos estão sacudindo, pulando e estrebuchando, tentando se segurar nas cadeiras, se amarrando e até se parafusando nelas. Mas não vai ter jeito, só sobrou o “jus sperniandi”, essa expressão inexistente no Latim, mas mesmo assim utilizada por muitos no meio judiciário, e que seria “o direito de espernear”.

-Espere aí, Gi, você acha que só o PT roubou?

-Claro que não, Pity! Mas comandar o assalto aos cofres do governo e das estatais de dentro dos gabinetes do Palácio do Planalto, institucionalizando a corrupção e alterando na prática o regime para uma cleptocracia, isso, como diria meu pai que é mineiro, foi demais da conta.

-E você acha que neste governo do Sr. Bolsonaro não tem roubo, Gi?

-Pity, o governo é formado por muita gente, e desonestidade é inerente a alguns seres humanos, que só aguardam a oportunidade. Assim, devo deduzir que ocorram ilegalidades sim, mas não no nível em que ocorriam e, principalmente não fazem parte da alma do governo do Sr. Bolsonaro, como você chamou, ironicamente. O Ministro da Justiça é o icônico Sergio Moro, e essa nomeação, muito criticada por quem tem o rabo preso, por si só demonstra o caminho do governo. Aliás, nesse primeiro ano completo de novo ocupante do Palácio do Planalto, não houve uma única denúncia que fosse. E olhe que estão vasculhando o governo com lupa e pinça!

-Gisele, minha querida, você está querendo endeusar esse seu líder, mas ele falou um monte de asneiras.

-Não, Pity, não quero um deus no governo, e nem líder. Quem precisa de líder é quem está perdido e precisa que alguém o guie. Eu não quero isso. Eu quero gente sensata e capacitada para dirigir o país. E não quero “bonzinho”, esse eu quero é para casar com a minha irmã. O mundo político é difícil, e para dirigir o meu pais pode até ser um FDP, mas que esteja do nosso lado e não contra nós. Que aja defendendo o nosso pais e não dando usinas nossas para a Bolívia, não dando dinheiro nosso para amiguinhos, na prática a fundo perdido, para ser pago por nós, os otários.

-E para casar com você, Gi? Quer um bonzinho também? Perguntou Pity maliciosa, enquanto pegava mais um pouco da bata frita da amiga.

-Você sabe bem que eu não preciso casar e nem de companhia, Pity. Eu já tenho você!

Pity deu um sorriso vitorioso.

-Quero falar também, Gi! Quero enumerar as besteiras que o seu presidente falou durante o ano.

-Errado, Pity, retomou Gisele de forma incisiva, ele não é o meu presidente, ele é o nosso presidente, goste você ou não. Ou a democracia só vale quando o candidato no poder é o seu? E eu prefiro quem fale errado, mas aja certo, do que quem tenha boa oratória e carisma e nos roube até as roupas de baixo.

-Eu não gosto desse fascista, Gi.

-Ô Pity? Você endoidou é? Você estudou isso na faculdade, e sabe bem que uma das características do fascismo é o Estado Totalitário. Como poderia ser fascista um governo que propõe abrir a economia e diminuir o tamanho do estado? Um governo que foi democraticamente eleito? Você caiu nessa conversa besta, Pity? A esquerda escolhe e cola esses rótulos, sem qualquer razão de ser, repete isso à exaustão, como um mantra, no melhor estilo gramscista, até tentar fazer com que uma mentira repetida exaustivamente por um monte de incautos vire uma verdade. Você emburreceu, Pity?

-Para, Gi, não estou gostando, disse Pity visivelmente amuada.

-Está bem, chega. Me dá um abraço e vamos para casa.

-Tá bom. Meu, a gente continua na sexta lá na Casa das Rosas. Fechado?

-Fechado! – Respondi, ciente de que já havíamos combinado essa visita à Casa das Rosas (Espaço Haroldo de Campos de poesia e literatura), um casarão remanescente, no começo da Av. Paulista. – Você também vai, não é, Pity?

-Vou.

As duas me beijaram e me abraçaram em silêncio, e saíram de mão dadas. Os olhos da Pity ameaçavam despejar uma lágrima.

Eu também fiquei em silêncio, aliás, da mesma forma como fiquei durante toda a conversa.
Uma loira de saia curta vermelha e camisa cinza, e a outra, morena de bermuda vermelha e camisa cinza, ambas bonitas, ambas vistosas, indo embora e chamando a atenção de todos. Será que se vestiram assim de propósito? Fiquei um tempo, rememorando a conversa das duas, antes de voltar para o meu “A Jornada do Escritor” e terminar o meu frapê.

A Gisele foi meio dura com a Pity, mas as vezes é necessário!

 

Reginaldo Belo de Brito, para Vida Destra, 01/01/2020.

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