Sempre que chove forte na capital paulista, há enchentes. O trânsito piora – se é que isso é possível – o comércio sofre prejuízos, as águas poluídas invadem casas, indústrias e mesmo os estacionamentos de shoppings, edifícios residenciais e comerciais. Acontece sempre e nessas horas a população paulistana sofre para ir ao trabalho, às escolas, às compras, tratar de problemas de saúde ou ter qualquer forma de lazer que não seja ficar postado em frente da televisão ou do computador.

Sob temporais de verão, sair de casa, quando não invadida pelas águas, exige destemor, pois há a incerteza se seremos capazes de chegar bem ao nosso destino e de retornar em segurança. E o temor pela segurança de nossos filhos só nos causa mais apreensão.

É verdade que também acontece em outras cidades do interior de São Paulo e de outros Estados. Qualquer alteração climática excessiva, seja chuva ou seca, causa prejuízos e inquietação, pois sabemos dos transtornos e que não são raras as fatalidades. Frequentemente chegam a nós notícias, daqui e de lá, de norte ao sul do país, a respeito dos fenômenos climáticos que beiram a calamidade. Perante os temporais intensos e persistentes, acontecem interdições de ruas, queda de árvores, desbarrancamentos de morros, estradas bloqueadas, pontes levadas de roldão e edificações ruindo, tudo acompanhado de muita lama fétida pelo transbordo dos esgotos e do lixo acumulado nas ruas.

Nessas ocasiões – impotentes perante a inclemência das adversidades – temos dificuldade em aceitar o infortúnio com resignação. Inconformados, nossa tendência é apontarmos o dedo acusador para a administração pública – seja ela qual for – alegando omissão, incompetência, falta de antecipação, de planejamento e de vontade política para resolver o problema. Claro, pois a alternativa seria reclamarmos dos deuses que regem o clima, mas isso equivaleria à resignação, coisa que não queremos aceitar. Afinal, para cada problema que nos aflige, buscamos encontrar pelo menos um culpado tangível e, nestes casos, só pode ser a administração pública com a costumeira insensibilidade com o padecer da população. E passamos a clamar por soluções – como se fossem fáceis e rápidas, caso possíveis.

Sou paulistano e idoso. Desde a infância convivi com as aparentemente inevitáveis enchentes na cidade de São Paulo. Será que nos últimos 60 anos não houve gestor que se preocupasse seriamente em resolver esse problema recorrente? Afinal, se acontece regularmente e provoca tantos dissabores, alguém já deveria ter resolvido a questão. Mas não. Quase todos os anos, nos períodos de chuvas intensas, é a mesma história: enchentes e enxurradas por toda cidade.

Contudo, é preciso que sejamos minimamente justos ao analisarmos a questão e ao indagarmos o porquê São Paulo é uma cidade tão vulnerável às enchentes. Peço que acompanhem o que penso.

São Paulo surgiu no planalto e começou a ser edificada em pontos elevados, ocupando primeiramente os espigões. No princípio, por mais que chovesse, não havia enchentes, pois a água escorria morro abaixo, chegando até os rios que recortavam o entorno da primeva Vila de Piratininga. Todo excesso de água era absorvido pelo solo de terra, pelos rios e pelas várzeas que circundavam a povoação. Mas a cidade cresceu e, com o tempo, as calçadas, o asfalto e as edificações foram tornando o solo impermeável e a ocupação desceu desordenada, sem qualquer planejamento urbanístico, até os vales e margens dos rios. As áreas de lavouras cederam lugar para as indústrias, tornando a cidade de São Paulo uma metrópole; a necessidade por espaço para o crescimento desmatou grandes áreas e aterrou as várzeas. A conseqüência inevitável disso foi o surgimento das enchentes que apenas se tornaram mais intensas com o passar do tempo, chegando ao ponto em que hoje está. Estou falando de algo que só passou a ser evidente em meados da década de 50 do século passado.

Era previsível isso? Sim, era, mas apenas para alguém com visão muito adiante de seu tempo. Além disso, o crescimento da cidade impôs outras prioridades aos gestores públicos, tais como a abertura de ruas e avenidas, abastecimento de água e esgoto, distribuição de energia, telefonia, iluminação, coleta e depósitos de lixo, limpeza pública, transportes, loteamentos e assentamentos urbanos, hospitais, escolas e tudo aquilo que é considerado indispensável ao bem estar da população. O problema das enchentes intensas, por ser eventual apesar de recorrente, foi relegado a um plano secundário e jamais sobraram recursos para reais soluções. Os administradores da cidade – que se tornou uma megalópole, pois cresceu muito além do vegetativo em função da imigração – trataram essa questão como secundária e de forma paliativa: canalizaram córregos, retificaram e desassorearam o leito de rios e efetuaram a instalação de galerias pluviais, mas sempre aquém das reais necessidades. O resultado disso é que quando chove além da média, a água não tem como escoar rapidamente e as mega enchentes acontecem, tudo agravado pelo lixo não coletado ou descartado de forma inadequada pela população.

Acredito que exista solução técnica para esse problema das enchentes. Entretanto muito provavelmente tais soluções exijam obras e recursos quase inimagináveis, muito além da capacidade atual de qualquer cidade brasileira, até mesmo da pujante São Paulo.

Assim, caros leitores, antes de nos insurgirmos contra o poder público paulistano de hoje e do passado, façamos uma honesta reflexão sobre o problema das enchentes e passemos a cobrar de futuros candidatos à Prefeitura de São Paulo planos e propostas exequíveis para o problema das enchentes, entendendo que quaisquer que sejam, exigirão sacrifícios de toda população paulistana e, mesmo assim, talvez jamais sejam definitivas, pois para isso, a cidade teria que parar de crescer e ser reconstruída.

Laerte A. Ferraz, para Vida Destra, 12/02/2.020.

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