Quando fui convidado pelo Nunes a abrir este espaço, senti-me automaticamente honrado e com a obrigação de escrever algo que determinasse o tom a ser seguido. A intenção do fundador foi criar um magazine de direita que aborda liberalismo clássico, conservadorismo e assuntos variados, como fotografia e cinema; e portanto, nada poderia ser mais previsível do que o tema do artigo a seguir.

Há ainda poucos espaços em que o pensamento conservador é exposto de forma livre e verdadeira. Os recentes ataques da grande mídia ao professor Olavo de Carvalho mostram quão empenhados os vermelhos estão em estabelecer uma versão peculiar de democracia onde todos que discordam devem ser digladiados ou assassinados moral e fisicamente. Expor ideias contrárias ao consenso da cultura de massa requer muito mais coragem do que se imagina.

Que o Nunes prospere em sua empreitada!

Sejam todos bem vindos!

 


 

“The whole modern world has divided itself into Conservatives and Progressives. The business of Progressives is to go on making mistakes. The business of the Conservatives is to prevent the mistakes from being corrected.”

Chesterton

“Para o relativista, toda afirmação categórica não é senão respingo de algum fanatismo.”

Plinio Corrêa de Oliveira

A maior parte da população brasileira é conservadora. Esta afirmação – repetida muitas vezes por Olavo de Carvalho – está ancorada em uma verdade tão visível que nem as pesquisas feitas por institutos progressistas tentaram questionar. Porém como se autodefine ou se identifica um conservador? Será mesmo que perguntar aos cidadãos suas opiniões a respeito de questões qualificadas como progressistas ou polêmicas pode ser considerado critério objetivo de qualificação? Que ideologia impulsiona o pensamento conservador?

 

Ideologia é um conjunto coerente de ideias que descreve uma sociedade ideal a ser realizada através de uma práxis [1]. Não há dúvida de que a ideologia descreve uma simplificação da realidade através de um reducionismo hermético que exclui tudo que lhe é alheio. O marxismo é, provavelmente, a mais popular e perigosa ideologia já definida na história do mundo e seu modelo econômico impraticável é o magnum opus do reducionismo da realidade. Como o pensamento conservador lida com a realidade tentando entendê-la e aceitá-la sem tentar simplificá-la e subvertê-la, não pode ser colocado na mesma classificação. Daí se entende porque não há uma definição fechada de conservadorismo e porque os filósofos – que lidam com a complexidade do real – foram os mais bem sucedidos em descrevê-lo.

 

Por observar a realidade e tentar entendê-la através da tradição, o conservador sabe que as regras implícitas que garantem a ordem social foram desenvolvidas ao longo da história humana. Se a ordem social foi obtida após séculos e séculos de conflitos, mudanças e experiências bem ou mal sucedidas, alterá-la bruscamente pode trazer o caos. É por esta razão que um conservador será sempre o mais cético e pessimista a avaliar inovações sociais e não apoiará propostas que se mostram contrárias às regras (ou mesmo tabus) que já existiam no tempo de seus tataravós. Não se trata de aversão à mudança, mas de piedade[2], de fazer um esforço além do ego para respeitar o que há acima ou é diferente, disciplinando a vontade, ainda que algum tipo de instinto ou paixão o consuma na esfera íntima. Esta sutileza no pensamento conservador, tão bem elencada por Richard Weaver como condição essencial da restauração da ordem no mundo moderno, por si só explica porque um ex-ator pornô pode se tornar um político conservador ou porque a prática do adultério não invalida o que um pastor prega. A verdadeira fraternidade humana está na tolerância para com o próximo e na piedade para aceitar suas diferenças e defeitos.

 

Já que foram mencionados vontade e ego, o princípio da liberdade deve ser abordado. Não há uma atitude revolucionária ou reivindicação de direito atual sem alguma sustentação no princípio da liberdade irrestrita, que por sua vez resulta do livre-arbítrio exercido pela vontade máxima do ego. Ora, se há um desequilíbrio de poder crescente entre seres humanos e cada indivíduo pode exercer sua máxima vontade, nada impedirá que alguém verdadeiramente poderoso a exerça sobre sua geração e as futuras, por exemplo, através da eugenia ou matando concidadãos e impedindo que bebês nasçam; e isto nada tem a ver com o capitalismo, já que as experiências socialistas com sua economias fascistas e poderes totalitários resultaram em desequilíbrios de poder extremos em que ditadores eliminaram populações inteiras apenas porque estas não lhe eram simpáticas. A liberdade máxima de uma geração é a escravidão de todas as futuras[3][4]. Assim, um conservador sempre defenderá a liberdade de seu semelhante dentro dos limites impostos pelas leis e pelas regras da democracia que impedem (ou deveriam impedir) que o regime seja transformado em algo impossível de ser modificado. Defenderá também que ninguém tenha decisão de vida ou morte salvo em legítima defesa e exercício da justiça nos termos da lei. A liberdade responsável requer sujeição do ego aos cânones sociais e negação atemporal do aborto, do assassinato e das aspirações totalitárias[5].

 

Mas se a liberdade irrestrita não deve existir em uma sociedade saudável e não pode ser fonte de direitos, alguns elementos de liberdade responsável são essenciais. O primeiro deles é a propriedade privada. Como cita Russell Kirk em sua coleção de princípios conservadores[6], o direito à propriedade está intimamente ligado ao desenvolvimento de uma sociedade; quanto mais irrestrito é este direito, bem como a possibilidade de legá-lo aos descendentes, maior a probabilidade de que possa ser realizada uma ação histórica. Se for retirado o direito à posse privada e entregue ao Estado, teremos a máxima tirania do Estado sobre os homens (e não o ponto máximo de igualdade e liberdade previsto por Marx). O segundo é o direito à livre associação, que permite aos cidadãos de uma comunidade formarem entidades fundamentais para o equilíbrio social. A livre associação torna possível a beneficência e a promoção da cultura e dos interesses locais; torna possível também a harmonia através do convívio sadio e cooperativo. E a resultante descentralização ainda tem o benefício de  impedir que um poder central uniformize uma nação impondo, através de órgãos burocráticos, os hábitos e a ideologia que os chefes de governo consideram corretos.

 

Abordadas as questões sobre ideologia e posições em assuntos primordiais, ainda resta estabelecer uma definição para o conservador. A obra de Roger Scruton[7] (que tem sido vítima de assassinato de reputação) vem a calhar. Adaptando suas palavras, define-se conservador como o indivíduo que tem o desejo de conservar o que é seguro e familiar (controle e segurança são necessidades básicas do ser humano), que ele reconhece como advindo da continuidade histórica da sua civilização (sensação de pertencimento coletivo) e de uma ordem social que foi construída lentamente e com prudência; mais ainda, o desejo de legar às gerações futuras esta ordem de forma a perpetuar o que ele corretamente identifica como a mais preciosa realização da sociedade.

 

Ser um conservador implica dialogar diariamente com todos os nossos ancestrais que construíram e legaram os pilares de nossa sociedade e com nossos descendentes mais longínquos que herdarão o edifício civilizacional onde nossa geração pode ter feito uma pequena melhoria. Ao contrário do revolucionário, não viemos para mudar o mundo ou torná-lo perfeito, mas para aprimorá-lo.

 

Referências:

[1] Aula 447 do COF, Olavo de Carvalho

[2] As idéias têm consequências, Richard Weaver

[3] A abolição do homem, C.S Lewis

[4] O livro negro do Comunismo, diversos autores

[5] Princípios de uma política conservadora, Olavo de Carvalho

[6] Os dez princípios conservadores, Russell Kirk

[7] The meaning of conservatism, Roger Scruton

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41 Comentários

  1. Bom dia!! Sucesso aos idealizadores! Que possamos nos apoiar nessa causa que é o retorno da liberdade de expressão dos que anseiam conservar os bons costumes na vida moderna. Um forte abraço

  2. Bom dia a todos!

    A estréia do espaço não poderia ter sido melhor! Parabéns Vieira pelo brilhante artigo e parabéns Nunes pela iniciativa!

  3. Bolsonaro pode vender estatais estratégicas
    SALVAR
    Economia 03.12.18 11:36
      
    Eduardo Bolsonaro anunciou que o governo pode privatizar inclusive as estatais consideradas estratégicas.

    Ele disse a uma rádio colombiana:

    “Há um pequeno grupo de empresas públicas no Brasil que meu pai considera serem estratégicas. Estas empresas estratégicas nós podemos privatizar com a chamada ‘golden share’”.

  4. Como eu disse no post, desejo sorte, Nunes.

    A direita precisa de espaços e a iniciativa é muito boa.

    Contribuirei sempre que possível.

    • Parabéns pela iniciativa e pelo texto publicado.
      No momento em que você falou da questão do Ego, me fez lembrar de Freud e toda sua teoria. Mas antes disso me fez pensar porque somos considerados Animais Racionais, na importância do cumprimento das regras para um bom funcionamento social. Se nem os animais irracionais saem fazendo o que querem de qq jeito, porque compreendem uma hierarquia, e toda a segurança e controle da sobrevivência, q ela traz. Porque o Homem insiste em querer viver em tamanha desordem?

      Um texto bem escrito nos faz viajar em vários pensamentos. Vocês estão de parabéns meninos!

  5. Com certeza será um site muito bem elaborado e serão debatidos assuntos variados e de forma coerente.
    Vamos mostrar à esquerda que o socialismo que tanto pregavam, nunca funcionou.
    Parabéns e desejo muito sucesso.

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