O Plot Twist é a denominação técnica dada a uma mudança súbita na narrativa de uma obra literária ou de um filme. Mas podemos usar o termo também, metaforicamente, para designar transformações imprevistas, não imaginadas anteriormente na vida real. Muitas vezes, uma narrativa está seguindo uma determinada linha lógica, linear, progressiva, até monótona. E de acordo com o contexto envolvendo os personagens e os fatos narrados, o leitor ou espectador espera um final previsível. Mas, para sua surpresa, o roteiro dos acontecimentos sofre uma transformação radical, brusca e inesperada, com a introdução de novos personagens, informações ou fatos. O Plot Twist também envolve a mudança profunda do comportamento e atitude dos mesmos personagens, já conhecidos da trama, sobre a realidade que os cerca, em decorrência  desses novos fatos e novas informações.

 

Ontem,  dia 11 de fevereiro de 2020, na chamada CPMI das Fake News, tivemos um caso muito interessante e peculiar de Plot Twist. Hans River do Rio Nascimento, que trabalhou em uma empresa de marketing, chamada Yacows, denunciada pelo jornal Folha de São Paulo por, supostamente, na campanha presidencial de 2018, contrariando a legislação eleitoral vigente, ter feito disparos em massa de Whatsapp, em favor do então candidato Jair Bolsonaro; foi convocado pelo deputado petista Rui Falcão para depor na comissão. O petista certamente esperava que Hans River confirmasse a versão espalhada pela Folha e pelo restante da velha imprensa. No entanto, houve uma reviravolta estonteante, digna de famosos romances e filmes: Hans não apenas desmentiu a falsa versão de disparos em massa em favor de Jair Bolsonaro, mas afirmou, com todas as letras, que, na verdade, a empresa Yacows fez disparos em massa para o Partido dos Trabalhadores e de seu candidato à presidência, Fernando Haddad! Hans River não seguiu o roteiro que se esperava dele e denunciou os verdadeiros vilões, quebrando, subitamente, a expectativa anunciada de antemão! Que Plot Twist notável houve com a introdução deste novo personagem nas narrativas envolvendo essa CPMI das Fake News! A verdade apareceu, o que desagradou profundamente aqueles que defendem a mentira. Hans foi massacrado pelos parlamentares da oposição. Estes se mostraram nervosos e exaltados por causa das revelações inesperadas. Houve quem entre eles o ameaçasse com voz de prisão. Hans também está sendo detonado sem dó pela velha imprensa por dizer a verdade. George Orwell disse certa vez: “Numa época de mentiras universais, dizer a verdade é um ato revolucionário”. Irei tecer outras considerações sobre esse caso, posteriormente.  Quero inserir agora, devido à sua perenidade e importância épica, histórica, literária e universal inigualáveis, uma narrativa repleta de magníficos Plots Twists, relacionada ao texto sagrado dos cristãos: a Bíblia.

 

A Bíblia, considerada, por muitos estudiosos, entre eles Northrop Frye, como a matriz originária e intelectiva de grande parte da boa literatura ocidental, tem inúmeras narrativas contendo reviravoltas surpreendentes. São giros radicais no rumo narrativo, de 180 graus, em muitos relatos, que encantam leitores das Sagradas Escrituras até hoje. Muitos dos personagens e fatos narrados mudam tão profundamente, quanto rapidamente, que o sentimento do leitor é um misto de surpresa e deleite pela expectativa de justiça ser satisfeita ao final da trama. Uma das mais interessantes e envolventes estórias bíblicas desse tipo, sem dúvida, é sobre José, um dos doze filhos de Jacó, Patriarca do povo de Israel. José era filho predileto de Jacó com Raquel. Os meio irmãos de José, filhos de Jacó com sua outra mulher, Lia, irmã de Raquel,  e com as duas concubinas de seu pai, Bila e Zilpa; lhe tinham enorme inveja por isso. Esse mau sentimento fez nascer também o ódio, quando o filho amado recebeu de seu pai, de presente, uma túnica listrada, que era um símbolo de sua preeminência e autoridade sobre seus irmãos. Mesmo sendo o segundo filho mais jovem de Jacó (o mais novo era Benjamin, também filho de Raquel), José foi colocado acima de seus irmãos mais velhos, em posição de destaque. Isso criou um péssimo clima de animosidade, intrigas, disputas e desavenças naquele clã.

 

José teve dois sonhos que tratavam de seu futuro e de sua família. Em um deles, o seu feixe de trigo era reverenciado pelos feixes de trigo de seus irmãos. No outro sonho, o sol, a lua e onze estrelas se curvavam perante José. Tendo este contado esses sonhos, a inveja e o ódio de seus irmãos aumentaram. E a situação chegou a níveis totalmente insuportáveis porque José fazia constantes relatos a seu pai sobre o mau comportamento de seus irmãos. Assim, foi considerado um traidor, “língua preta”, “dedo duro”. Foi questão de tempo para seus meio irmãos bolarem um jeito para se livrarem dele em definitivo.

 

A oportunidade chegou quando, um dia, José foi enviado por Jacó para saber como estavam seus irmãos no campo, que eram pastores e tomavam conta das ovelhas da família. Ainda de longe, estes o avistaram, dizendo: -Vem lá o tal sonhador! Decidiram mata-lo. Mas Rúben, o irmão mais velho, os impediu e sugeriu que lançassem José em uma cova, para lhe dar uma lição da qual não esqueceria jamais. Talvez assim mudasse seu comportamento de filho mimado e deixasse de delatar o mal comportamento dos manos. Tendo Rúben saído por um momento, surgiu no horizonte uma caravana de comerciantes ismaelitas. Judá, um dos mais velhos, aconselhou seus irmãos a venderem José como escravo, para matar dois coelhos com uma só cajadada: não seriam responsáveis pelo sangue derramado de José e ainda ganhariam um bom dinheiro com isso.  Foi o que fizeram sem pestanejar. José, ao ser tirado do poço, pode ter pensado que seus irmãos já teriam esgotado sua vingança. Ele já havia aprendido a lição. Talvez tenha sentido uma sensação momentânea de alívio. Tal não foi seu desespero e pavor quando foi amarrado, com força e violência, pelos próprios irmãos e vendido como escravo àqueles mercadores por vinte moedas de prata. De uma hora para outra, perdeu sua condição de prestígio em sua casa, seu status invejável, com todas as regalias e privilégios, para se tornar mero escravo em terra estranha.

 

Deus, no entanto, estava protegendo José e forjando o seu caráter. Tinha grandes planos para  aquele adolescente. Sim, José foi vendido como escravo quando tinha apenas dezessete anos. Não seria como filhinho de papai, acomodado, sem a responsabilidade de pegar no pesado como faziam seus irmãos, que ele se tornaria um grande líder como se tornou posteriormente. Em contrapartida, os irmãos de José, para justificarem o desaparecimento súbito do rapaz a Jacó, forjaram outro plano sórdido. Mataram um cabrito, molharam a túnica de José no sangue do animal e a enviaram ao pai, com uma Fake News repugnante e abominável: José teria sido devorado por uma fera no campo! Jacó, ao ver a túnica do amado filho ensanguentada, sem saber da verdade dos fatos, acreditou na farsa, caiu em prantos e chorou amargamente a suposta perda do filho durante anos. Não havia quem o consolasse. Mesmo com remorso, por ver o sofrimento diário do pai, os cruéis e invejosos irmãos de José não tiveram a dignidade de contar a Jacó o crime que cometeram, de ter vendido José como escravo. Certamente, se fizessem isso, seriam, no mínimo, deserdados e amaldiçoados por Jacó. O estrago foi feito e para eles, devem ter pensado, não havia mais como voltar atrás.

 

Chegando ao Egito, nova e surpreendente reviravolta. No mercado de escravos,  José foi comprado por Potifar, alto oficial da guarda de Faraó. Devido à sua inteligência, sagacidade e excelentes habilidades gerenciais, José foi levado novamente a uma condição de honra. Fosse hoje, José seria reconhecido como portador de Altas Habilidades e Superdotação. Mesmo tão jovem, foi escolhido por Potifar como mordomo de sua casa. Mas aqui mordomo não significa que José se tornou mero servidor da mesa de Potifar.  Não foi escolhido apenas para servir pão, carne e cerveja na sala de refeições. Nada disso. Ele se tornou uma espécie de CEO ou diretor executivo dos empreendimentos de Potifar. A Biblia diz que a administração dos negócios de Potificar, que era um homem poderoso e muito rico, ficou à cargo de José. Potifar não se preocupava, de acordo com a narrativa bíblica, com nada que ocorria em sua casa, pois confiava plenamente em José.

 

Continua no próximo artigo.

Lívio Oliveira, para Vida Destra, 12/02/2.020.

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