Leia a primeira parte, clicando no link abaixo : Grandes Plot Twists: de José do Egito a Hans River (I)

 

No Egito, seu novo lar adotivo, depois do choque inicial que teve ao chegar àquela terra exótica, rica e estranha, incluindo as barreiras de uma nova língua, após superar as dificuldades de lidar, na condição de escravo, com um novo ritmo de vida, tudo transcorria muito bem para José, tudo ia às mil maravilhas como administrador de Potifar. A Bíblia diz que este foi abençoado por Deus, por causa de José.  Tal era a confiança que o comandante da guarda tinha no hebreu, que  “nada sabia do que estava com ele, a não ser o pão que comia”.

José deveria ser tomado, periodicamente, de forte e intensa saudade da família, principalmente de seu pai Jacó, e de seu irmão mais novo, Benjamim. E também de sua tia Lia, de Zilpa e de Bila, concubinas de seu pai. Sua mãe Raquel já havia falecido. Dos outros irmãos que o venderam como escravo, José não deveria ter boas lembranças, por fundadas razões. Por isso, algum misto de mágoa, de raiva e de tristeza pelo que seus irmãos fizeram, vendendo-o como escravo, de forma tão cruel, talvez assaltasse a alma daquele jovem de vez em quando. Poderia haver no seu íntimo até, quem sabe, uma dose de compaixão por eles, em decorrência da fragilidade do caráter daqueles homens. José sabia que seus irmãos não sabiam lidar com alguém que se revelara tão excelente e superior a eles. Daí o medo disfarçado, a revolta, o ressentimento, o ódio, a inveja que nutriam em seus corações. No mais, José deveria estar feliz por seus êxitos conquistados no Egito.

Mas não sabia o nosso herói que nova reviravolta estava prestes a acontecer. Da mesma forma que a zona de conforto da casa de seu pai não poderia leva-lo a cumprir sua missão, não seria na acomodação dos afazeres como CEO de Potifar que José encontraria o seu grande destino. Assim como o arqueiro puxa com força, para trás, a flecha para ela ganhar o necessário e decisivo impulso, a fim de que seja atirada com precisão no alvo, os humanos, às vezes, precisam dar um passo atrás para poder dar dois passos adiante. No caso de José, o passo atrás seria grande, mas os dois passos adiante seriam gigantescos, enormes, colossais.

E então os ventos começaram a tomar outra direção. A Bíblia diz, textualmente, que José era um homem de presença, formoso de porte e de semblante. Por causa disso, a mulher de Potifar, cujo nome não é citado, e sobre a qual não se menciona nada sobre sua idade ou aparência física, foi tomada por uma luxúria incontrolável e quis, a todo custo, que José se tornasse seu amante. Diante das propostas indecorosas da mulher, a resposta de José foi a seguinte:

-Eis que o meu senhor não sabe do que há em casa comigo, e entregou em minha mão tudo o que tem. Ninguém há maior do que eu nesta casa, e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porquanto tu és sua mulher; como pois faria eu tamanha maldade, e pecaria contra Deus?

Mas a mulher não se deu por vencida. Pelo contrário. Redobrou os esforços. Todos os dias fazia as mesmas investidas contra José. Dizem estudiosos da Psicologia que, geralmente, uma das características femininas inatas é a hipergamia. Isto é, as mulheres tenderiam a selecionar como parceiros os homens de status social, econômico e intelectual superior. Quanto à beleza física, esse fator teria um papel menor na escolha do companheiro, mas também teria sua importância¹. Tais atributos favoreceriam a gênese de uma descendência mais promissora, ou seja, filhos mais aptos a ter sucesso na vida. O contrário da  hipergamia é a hipogamia, isto é, quando uma pessoa se casa com alguém de status ou casta inferior. A hipogamia seria, por outro lado, uma característica masculina. No caso da atração da mulher de Potifar por José, não era riqueza ou posição social o que contava, já que ela pertencia à nobreza egípcia e José era apenas um empregado. Ou seja, era de casta social inferior. Estariam atuando, nesse caso, apenas fatores de hipergamia relacionados à aparência física e à inteligência do brilhante hebreu, não ao status social ou econômico dele. Além disso, certamente a mulher de Potifar viu em José apenas um servo, um mero objeto, de sua propriedade, para satisfazer seus desejos e vontades.

Não se diz nada na Bíblia, também, sobre a aparência ou idade de Potifar. Mas se a mulher dele ficou tão atraída por José, podemos inferir que o comandante da guarda de Faraó, embora rico, influente e de status superior, não era um páreo à altura do hebreu no que se refere à compleição física ou à inteligência. Quem sabe Potifar fosse um homem muito mais velho que sua mulher. Nesse caso, a juventude de José contou muitos pontos, certamente, na atração irresistível que passou a exercer sobre a sua senhora. Talvez Potifar também fosse baixinho, barrigudo, careca, com nariz adunco e com verrugas na testa… Ou com raciocínio meio lerdo e tenha chegado à sua posição, de general de Faraó, por indicação de terceiros influentes ou por mero favoritismo junto ao rei, e não por competência ou mérito. Quem sabe tivesse comprado o seu cargo com muito dinheiro… Não sabemos, porque não se menciona nada sobre isso na Bíblia.

Sobre Potifar ter filhos com sua esposa não há também nenhuma referência. Quem sabe fosse estéril. Há algumas versões da Bíblia que mencionam o comandante da guarda de Faraó como eunuco. Nesse caso, isso explicaria muito da paixão da mulher pelo jovem hebreu, dada a possibilidade de gerar filhos com ele. Além dos fatores hipergâmicos envolvidos, a mulher de Potifar poderia ter outros interesses. Já que José era um rapaz tão inteligente e brilhante, entendido em negócios e, segundo a Bíblia, tudo o que ele tocava prosperava; a sedutora deve ter sido tomada por uma sede insaciável de saber os segredos que faziam do hebreu um homem tão diferenciado. Quem sabe ela pudesse, de posse dessas informações, conquistar uma melhor posição na corte de Faraó, abrir uma consultoria e ganhar muito dinheiro. Se fosse esse o caso, se propôs a obter esses segredos em troca de favores carnais, usando, para isto, de insinuações constantes e diárias a José. Por isso não nos espantemos com casos semelhantes que ocorrem atualmente, porque este tipo de comércio é uma prática bem antiga…Nos dias de hoje, temos aí o exemplo do Hans River…

José não aceitou entrar nesse perigoso jogo, pois era temente a Deus e leal a Potifar. Resistiu bravamente. Ficou firme. A Bíblia diz que ele não dava ouvido às propostas indecentes da mulher do comandante da guarda. Certo dia, tendo entrado na casa de seu senhor para cuidar dos negócios, a tentadora propôs a ele a se deitar com ela. A mulher, já desesperada, agarrou em suas roupas e José fugiu, deixando ela somente com a capa ². Ele sabia das consequências e dos riscos da traição, tanto em termos espirituais, como morais, emocionais e existenciais. Ele estava distante da família, não havia o olhar do pai, ou de algum parente, a fiscalizá-lo. Mas havia a vigilância permanente da consciência elevada de José, a quem ele prestava contas continuamente e com muito rigor, zelo e devoção. E, acima de tudo, havia o olhar permanente e perscrutador de Deus sobre ele. Caso cedesse, José perderia a comunhão Divina, se degradaria moralmente e corromperia sua alma. Somente seria condenado à execução física caso fosse descoberto. No entanto, mesmo que isso não ocorresse, sua alma estaria condenada pela mancha do pecado, seria entregue aos aguilhões do arrependimento, às torturas do remorso e ao flagelo da culpa. Para o jovem hebreu, o seu caráter, a sua honra, a sua decência, a sua dignidade e, sobretudo, sua comunhão com Deus e a lealdade aos seus benfeitores humanos eram valores inegociáveis. Não havia chegado até ali para jogar tudo fora por causa de um momento de prazer carnal. Os ensinamentos, os conselhos, as lições de vida apreendidas de seus pais desde quando ele tinha a mais tenra idade haviam impregnado  profundamente todo o seu ser.  Ele não iria abrir mão de todo esse patrimônio e de toda essa riqueza moral e espiritual que recebeu, já desde pequenino, e que trazia consigo como uma herança e um tesouro inestimáveis para onde quer que fosse, em troca de um manjar mortal e venenoso do pecado, ainda que na aparência fosse esse manjar apetecível, aprazível e desejável.

Mas todo esse compromisso e toda essa fidelidade a Deus, a Potifar e aos seus próprios valores de espírito e de caráter, tiveram um altíssimo custo. José foi vítima de outra armação e de nova Fake News. Sua vida iria novamente dar um giro de 180 graus. E para uma direção que ele não gostaria. Iria ser jogado novamente no fundo de outro tipo de poço escuro.

Tendo José fugido para fora da casa, a mulher ficou histérica, gritou pelo pessoal da casa e disse que tinha sido vítima de assédio. Quando Potifar chegou, a adúltera acusou o hebreu de tentar violá-la, mostrando, em suas mãos, a capa deixada para trás. José parecia destinado a ter problemas sérios por causa de túnicas e de capas. Anos antes, a bela túnica listrada, recebida de presente do pai, foi motivo para ser jogado no poço e depois ser vendido como escravo ao Egito pelos seus invejosos irmãos. Agora, aquela capa nas mãos daquela mulher sensual seria motivo de um novo e grande tombo na vida…  Pessoas com orgulho ferido, e com sede de vingança, são capazes de fazer grandes danos, inventando Fake News terríveis, usando para isso até vestimentas daqueles a quem invejam… Novamente vítima das inconstâncias das paixões da alma humana, José foi posto, mais uma vez,  à prova em sua fé, sendo jogado na prisão. A capa seria prova de que fizera uma loucura? Potifar não deve ter acreditado muito na versão da mulher, porque senão certamente teria executado o acusado. Ordenou que o hebreu fosse preso, apenas para que a honra da família não ficasse manchada e houvesse algum tipo de reparação em sua imagem pública. Por outro lado, ainda que José tenha escapado da pena capital, não pode escapar, infelizmente, do assassinato de sua reputação. Todavia, essa mesma reputação assassinada seria ressuscitada mais adiante, aos píncaros da glória imortal, por meio de outra reviravolta espetacular, de um modo que só o Deus a quem José servia poderia proporcionar.

 

¹ Já no caso dos homens ocorre o inverso, pois a beleza física é, geralmente, o fator predominante na seleção de suas potenciais parceiras.

² José não agiu como outro famoso personagem bíblico que viveu séculos depois, Sansão. Este foi vencido pelas insinuações de Dalila e terminou preso, com seus olhos vazados e escravizado pelos filisteus, que pagaram à Dalila muito dinheiro pelos seus serviços. Tivesse Sansão seguido o exemplo de José, seu destino teria sido muito diferente.

Continua no próximo artigo 

Lívio Oliveira, para Vida Destra, 19/02/2.020.

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Júlio Cezar
Júlio Cezar
4 meses atrás

Maravilhoso esse texto, inclusive a associação com situações presentes no nosso cotidiano