O que é o perdão? Em termos cristãos, nas palavras do Rev. Augustus Nicodemus, “perdão de pecados é  dado gratuitamente por Deus aos que creem. Não vem deles. Não é mérito deles. É graça pura e simples concedida com base nos méritos de Cristo. A fé é a mão vazia que se ergue humilde para receber essa graça. Fé que transforma o pecador”. Some-se a isso que o perdão implica em um arrependimento genuíno, que suplanta todas as veleidades e suscetibilidades que, imbuídas de orgulho ou senso de preservação, lutam para manter uma falsa virtude. Assim não haverá arrependimento e sim uma autocomiseração, que por si só não é digna de perdão, pois o ofensor se traveste com os trapos da vitimização.

Dito isto, eis que surge no jornalismo uma voz cacofônica a apregoar o “perdão” a políticos corruptos, ou melhor, a um político e corrupto em especial, e já adianto que ele possui nove dedos. Um fato inexorável no jornalismo brasileiro: as redações foram reduzidas a usinas de militância.

Por dois prismas diferentes o panfleto sobre o perdão diz muita coisa sobre o mediador e o beneficiário do sublime gesto.

O primeiro ponto, é que ao dizer que chegou a hora de perdoar tanto o ladrão, quanto o partido, o blogueiro do grupo Globo acrescenta um ingrediente cínico como forma de substantivar seu ponto de vista: “a de que há 30% da população sistematicamente rejeitada, e que isso constitui-se em um grave problema para o país, e ainda aconselha que o Brasil precisa enfrentar e superar”.

Esquece-se, porém, que o Brasil já enfrentou e superou esse estigma por ocasião das eleições de 2018. O que ocorre é que as redações acostumadas com as polpudas benesses em forma de verbas de patrocínios milionários, não superaram e sentem como poucos a escassez de recursos públicos que jorraram indefinidamente por quase 16 anos em periódicos sem leitores. Tal financiamento público tornou o jornalismo indolente, acostumado a ser remunerado não por seu produto, que é a informação por meio de seus noticiários, e sim por propagandas que injetavam dinheiro sem o menor escrúpulo nos mais variados veículos de comunicação do país que ignoravam por completo o solapar das instituições e dos cofres públicos.

Voltando ao perdão requerido pelo Sr. Ascânio ao Partido dos Trabalhadores, surge a pergunta: a que tipo de perdão o senhor se refere? Pois textualmente reconhece que em que pese o assalto sistemático por meio do Mensalão e posteriormente pelo Petrolão, diz que o Partido dos Trabalhadores como o maior representante da esquerda latino-americana “precisa ser readmitido no debate nacional”.

Desde quando o PT ou a esquerda ficaram de fora do debate nacional? Para a infelicidade do país, o PT nunca ficou de fora do debate nacional, pois sempre contou com a graça companheira da imprensa e da classe artística que insiste em não deixar o país livre dessa influência perniciosa – afinal, o Lula é uma ideia. É a isso que resume o artigo. O perdão não é ao PT, e sim ao maior ladrão da história deste país, pois sem ele, o PT perde o seu principal “manancial de ideias”.

Como o PT poderia ficar de fora do debate nacional, uma vez que o partido conta (ainda) com a maior bancada de deputados na câmara federal? O PT, malgrado as condenações de quase todos integrantes da a cúpula do partido, nunca foi penalizado o suficiente e jamais será – a não ser nas urnas. Assim, esperamos.

Ao contrário das afirmações panfletárias, não há no país um partido amplamente perdoado como PT. Vejamos. O PT foi perdoado no processo de impeachment da Sra. Dilma Vana Roussef, pois ao ser impedida deveria perder todos os seus direitos políticos, mas o companheiro Lewandowski depois de muito açoitar a Constituição, distorceu o processo impeditivo e concedeu a preservação de direitos políticos a estocadora de vento. Isso sem falar nas idiossincrasias que ocorre na mais alta corte de justiça do país, que não perde a oportunidade ao ver um petista que logo exclama: é meu! Seja Lula ou Dirceu.

Isso não é perdão, é promiscuidade! Tanto é verdade, que a guerrilheira ao receber a dádiva, candidatou-se a uma cadeira no Senado por Minas Gerais, mas o povo não perdoou e manteve a “mulher sapiens” longe do Congresso Nacional. Façamos um esforço hercúleo de imaginar 8 anos de discursos desconexos com pausas espasmódicas… Deus nos livre! Ainda bem que os mineiros sabem o valor do perdão.

O partidão nunca ficou alijado do debate nacional, isso é engodo de jornalista militante desesperado, pois até hoje está com o brocardo do “EleNão” entalado na garganta. Mesmo tendo esse mesmo jornalista estreitos vínculos com o PSDB de FHC, Aécio e Serra – sendo inclusive, Assessor no Ministério da Saúde nos tempos de Serra, o jornalista precisa urgentemente manter o teatro das tesouras e posar de imparcial.

O óbvio ululante é que não se conformam com a alternância de poderes que é algo natural em uma democracia, o problema reside no fato de que ficaram mal acostumados ao serem bajulados financeiramente. Então de repente acordaram e viram o teatro com as cortinas descerradas, senão escancaradas para a vida real. E a vida real passava a margem destas redações com quase 65 mil homicídios/ano e desemprego na casa dos 15% a penalizar o país – inclusive essa mesma parcela de 30% que são eleitores do PT. Tudo isso graças a uma propaganda massiva que enaltecia o PT com seu herói montado em um jumento – tal qual um São Jorge Nordestino gestado na imaginação criativa não de um Ariano Suassuna, mas de um Duda Mendonça, que fez milagres com seu indefectível “Lula-lá” cantados por atores globais, que viriam a ser a posteriori os maiores beneficiários da Lei Rouanet. Esse marketing agressivo e publicidade enganosa tornou de fato o sapo barbudo no verdadeiro pai dos pobres e desvalidos.

O segundo ponto, é que o senhor Ascânio ao buscar o perdão para o partido, por tabela monopoliza a virtude e ainda recebe louros da confraria jornalística com elogios vazios e falsas confabulações. Isso porquê com raríssimas exceções, jornalistas escrevem sabendo que serão lidos por seus pares. O jornalismo foi reduzido em um jogo cínico e rasteiro, pois apregoa o perdão ao PT com aura de pureza e abnegação, mas deseja  democraticamente a morte não só do Presidente Jair Bolsonaro, bem como de toda a sua família –, além de buscar a todo custo silenciar quem ouse pensar diferente e não lhes devotar credibilidade. É uma virtude distópica capaz de tornar São Francisco de Assis em um rábula dos piores carrascos.

A esquerda, tanto jornalística quanto politicamente, tem como regra para suas ações práticas distorcer a realidade em detrimento de seu “marxismo virtuoso”, para assim poder culpar os outros, principalmente seus oponentes pelos seus insucessos terceirizando suas culpas. É a aplicação prática de um famoso sofisma: “deturparam Marx”. Agora surge no jornalismo um argumento vil para deturpar o perdão. Sobre o perdão recorro-me uma vez mais ao Rev. Augustus que diz: “perdoar é uma das decisões mais difíceis para os cristãos, especialmente por que perdoar implica em renunciar à mágoa e ao ressentimento”. E uma vez mais acrescento que o perdão é um gesto gracioso que não tem origem em nós mesmos – e sim, em Deus Pai de todos nós. Assim, o que o jornalismo apregoa não é o perdão em sua transcendência mítica, e sim a conivência e exaltação dos vícios que insiste em relativizar a barbárie.

Natalino Oliveira, para Vida Destra, 20/7/2020.

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Nunes
Admin
1 ano atrás

Sintetizou bem, não há motivos para perdoar um “ladrão”. Mais uma vez, a velha mídia querendo “fazer” a cabeça das pessoas.

Sander Souza
Sander Souza
1 ano atrás

Excelente artigo, parabéns!
Não é possível perdoar este partido e nem este político, que sequer cumpriu adequadamente a sua pena! Aliás, se dependesse de mim, este partido seria extinto e a sua ideologia, criminalizada!

Arthur Brandao
Arthur Brandao
1 ano atrás

É impressionante a capacidade dos profissionais de imprensa em achar que todo e qualquer brasileiro implora para ser tutelado.

Em relacao ao texto é muito bom pelo fato de deixar claro que a todo ato de perdoar corresponde a uma ação que é embasado no arrependimento.

Parabéns pelo excelente artigo!

Rafaela Sollera
Rafaela Sollera
1 ano atrás

Ler sobre o perdão em um artigo que analisa a situação política do país é muito reconfortante, mostra o tipo de país que queremos ser.

Detalhe, perdão como bem dito é um dom de Deus e pressupõe humildade e arrependimento, e não é o que vemos por parte destes que vivem a roubar o país.

Parabens pelo artigo

Renato Lucas
Renato Lucas
1 ano atrás

Ao ler o texto não sei quem é mais criminoso: o jornalismo cínico ou seus gurus e mentores.

Parabéns ao site pelo excelente artigo.

Moises
Moises
1 ano atrás

Muito bom

Arildo
Arildo
1 ano atrás

Senão tivesse acontecido aquela aberração de Anistia Ampla e Irrestrita, o Brasil hoje estaria em outro patamar da economia no mundo ! Figueiredo tinha razão quando disse “ agora vocês verão a democracia que vos espera “ em outras palavras !

Alexsandro Luhm
Alexsandro Luhm
1 ano atrás

Li com perplexidade e estranheza o artigo do jornalista do Globo, nunca li uma defesa em prol do banditismo disfarçada de boas intenções. E pensar que esse mesmo jornalismo que tece loas ao Petismo é aquele mesmo que rejeita e condena o jornalista Oswaldo Eustáquio justamente por não fazer parte da patota que se reúne todos os dias para execrar o presidente e seus apoiadores.

Silas Marinho
Silas Marinho
1 ano atrás

Para quem busca um panorama do que ocorre entre a realidade e o suposto jornalismo o texto está de parabéns, pois cumpre muito bem esse papel.