Minha sábia avó tinha uma frase para cada situação. Eram frases tão bem colocadas e em momentos tão oportunos que revelavam instantaneamente, de maneira definitiva, qual a situação e a conclusão a que se poderia chegar.

Um exemplo disso foi quando meu primo chegou a casa dela com sua noiva, uma jovem muito bonita e, após a visita, depois que saíram, o comentário de vovó foi: “Por fora, bela viola, mas por dentro é pão bolorento”. Ficou evidente que ela desaprovara a moça ao que minha tia, mãe de meu primo, argumentou: “Ora, mamãe, ela tem qualidades”. Minha avó nem precisou pensar para responder: “Pois é… beleza não se põe à mesa, mas abre o apetite, não é?” e acrescentou “Beleza sem virtude é flor sem perfume“. Defendendo a escolha do filho, minha tia ainda retrucou: “Mas eles se gostam”. E vovó emendou: “Para cada panela, uma tampa”, concluindo a seguir: “Gosto não se discute, se lamenta”. Ficou claro para todos que na opinião de minha avó ambos se mereciam e ninguém mais tocou no assunto até o noivado terminar deixando evidente que “Lobo não come lobo” e que os recíprocos dissabores provados na relação entre a noiva e meu primo eram merecidos por ambos. Enfim, “não eram flores que se cheirem”.

Se minha avó estivesse entre nós – e é pena que não esteja mais – ao ver a atuação de nosso STF, certamente teria várias frases para definir e concluir. Vou imaginar algumas:
A primeira certamente seria sobre a imagem da maioria dos Ministros: “Lobo perde o pelo, mas não perde a pele”. Pesado? Penso que não, pois muitos deles atuam como “Lobos vestidos em pele de cordeiro”. Muito certamente, quando indagássemos a ela se haveria solução para tanto desmando, a resposta seria: “Pau que nasce torto morre torto, mas a esperança é a última que morre”.

Quando reclamássemos que eles estão passando dos limites, ela diria: “Quem semeia vento, colhe tempestade” e concluiria: “Eles nem parecem macacos velhos, pois macaco velho não mete a mão em cumbuca”. Iríamos argumentar que essa situação está indo longe demais e ela responderia: “Não há mal que sempre dure e nem bem que nunca se acabe”.

É claro que faria outros comentários na medida em que a situação está evoluindo. E quando disséssemos que eles se julgam “supremos” e inatingíveis, ela diria: ”Eles pensam que quem pode mais chora menos”. “Mas, vó – diria eu – será que eles não percebem o quanto estão errando?” e ela responderia: “Paciência, é só esperar, pois quem tudo quer nada tem e é bom que eles comecem a por a barba de molho”.

Após ouvir uma fala do General Mourão, quando ainda era Comandante das Forças Armadas sobre a situação política do país e o papel que cabe à instituição nesse contexto, fiquei com a clara impressão que um aviso foi dado já faz algum tempo. Se ouvisse o que foi dito pelo militar, minha avó diria que “Quem avisa amigo é” e concluiria com uma advertência: “Não se cutuca leão com vara curta”. A impressão que tenho, neste momento, é que a maioria dos integrantes do STF, especialmente dois ou três Ministros, acreditam que a vara deles é muito mais longa do que realmente é. Enquanto isso, nós vamos aguentando a pimenta nos nossos olhos que, para eles, é só refresco. Mas vai chegar a hora da onça beber água e a corda vai arrebentar. Só espero que não arrebente do lado mais fraco, como sempre acontece, tal e qual dizia minha sábia avó. Imagino que todos conheçam o ditado “Passarinho que come pedra, sabe o cu que tem”, contudo, pelo jeito que as coisas estão caminhando, esse ditado parece que eles desconhecem.

Laerte A. Ferraz, para Vida Destra, 05/10/2019.

Laerte A. Ferraz

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