A maior parte da liberdade moderna tem sua raiz no medo. Não é que somos tão corajosos para nos submeter às leis; é que, ao contrário, somos muito tímidos para nos submeter às responsabilidades.

 Gilbert Keith Chesterton, ou simplesmente Chesterton, foi um escritor inglês – não um simples escritor, mas um daqueles com profundidade e de uma inteligência honesta e brilhante. Apesar de tais atributos, ao que tudo indica Chesterton não foi um dos melhores alunos. Certa vez, um professor lhe disse: sabe de uma coisa Chesterton, se abrirmos sua cabeça, não encontraremos um cérebro – mas um pote de manteiga”.

Autor profícuo, publicou obras que muitos consideraram polêmicas na época, como Hereges, Ortodoxia e o próprio O que há de errado com o mundo; principalmente, por que refuta com argumentos sólidos seus opositores, mas sem apelar para o revanchismo barato. Os embates eram envoltos no mais profundo respeito pelas pessoas de seus opositores. Uma frase célebre sobre Bernard Shaw, que mesmo se opondo as suas ideias – ainda assim mantinham uma relação de amizade, ele diz: não estou preocupado com o Sr. Bernard Shaw como o homem vivo mais brilhante e um dos mais honestos; estou preocupado com ele como um herege – isto é, um homem cuja filosofia é muito sólida, muito coerente, e muito errada“.

A admiração de seus opositores pelo vigor e por seus posicionamentos levou o mesmo Bernard Shaw dizer que o mundo não é grato o bastante por Chesterton”.

O que há de errado com o mundo, foi publicado por Chesterton em 1910, portanto, uma década antes da sua conversão ao catolicismo.

Este livro num primeiro momento não foi muito bem recebido. Um determinado crítico disse o seguinte a respeito do livro: não temos a mais remota ideia do que está mal no mundo, e depois de ler o livro do Sr. Chesterton, sentimos chegar a conclusão de que ele tão pouco o sabe”.

A frase diz muito mais sobre seus críticos do que propriamente sobre Chesterton. O fato é que a natureza de Chesterton, não lhe permitiria escrever uma obra para ser agradável; prova disto são os seus embates antológicos com Bernard Shaw, Rudyard Kipling, H. G. Wells, Lowes Dickinson, que fazem parte do livro Hereges, também publicado aqui no Brasil pela Editora Ecclesiae.

Mas, afinal, o que há de errado com o mundo, de acordo com Chesterton?

Antes de mais nada, este livro é dividido em cinco partes dispostas da seguinte forma: parte um – O desabrigo do homem; parte dois – O imperialismo ou o erro acerca do homem; parte três – O feminismo ou erro em relação a mulher; parte quatro – a educação ou erro em relação a criança, e a parte cinco – O lar do homem.

O fascinante em ler Chesterton, é a sensação de atemporalidade de sua obra; em que pese ter sido publicada em 1910, esta obra já denunciava e antevia problemas e ideologias que nos são comuns hoje – mas que em sua época era nascente; principalmente, sobre a questão das sufragistas em busca pelo direito ao voto. Aqui, muito possivelmente temos o gene do que viria a ser o movimento feminista.

Um ponto interessante na obra é a discussão em torno da democracia, e ainda a ignorância premeditada em relação às gerações passadas, e principalmente pelo que poderíamos aprender com eles, simplesmente mantendo tradições que acompanharam a humanidade desde sempre. Tal constatação levou Chesterton a afirmar que os homens criaram novos ideais, por não se atreverem a buscar os antigos. Olham com entusiasmo para frente com medo de olhar para trás”.

Na primeira parte do livro, o Desabrigo do Homem, Chesterton ao analisar as falácias sociológicas baseadas em estatísticas e sempre com propensão a concluir por uma solução que tende ignorar, principalmente o indivíduo, escreve: a partir do momento em que damos a uma nação a unidade e a simplicidade de um animal, começamos a pensar de maneira selvagem. Não é por que todo homem seja bípede, que cinquenta homens reunidos serão uma centopeia

Neste ponto eu me recordei de Mario Ferreira dos Santos com seu livro a “A invasão vertical dos bárbaros”, onde ele denuncia a presença dos bárbaros na sociedade com a finalidade de destruí-la intramuros, ao dizer que a presença do bárbaro manifesta a valorização de tudo quanto afirme a nossa animalidade”.

Este livro é de uma atualidade visceral e intensa, se levarmos em conta que foi escrito há mais de um século, denunciando questões que em sua época ainda eram incipientes, mas que hoje encontraram solo fértil para sua disseminação; e, ainda contam com uma horda de defensores, que chegam a tal ponto que aqueles que não coadunam com essa visão de mundo sob o prisma do politicamente correto, logo é marcado feito um animal para o abate, como fascista, nazista, ou seja, um anátema.

Chesterton, já denunciava a relativização do papel da mulher e da sua importância para a família; outros pontos que mereceram a sua atenção foi com relação à educação, e as diferenças sociais, que hoje estão muito mais acentuadas devido a ingerência do Estado na autonomia do indivíduo. Isso só prova a natureza atemporal da obra de Chesterton, que se comunicou com os seus contemporâneos, sem perder de vista a comunicação com gerações posteriores.

Um dos grandes problemas identificados por Chesterton, talvez seja a relativização da verdade e até da realidade, tanto é assim que ele diz que o que está errado com o mundo, é que nós não perguntamos o que está correto”. Desta forma, já nos idos da primeira década do século XX, antes mesmo de se conflagrarem os dois eventos que mudariam o mundo, ou seja, a Primeira Guerra Mundial de 1914 – 1918 e a Revolução Russa de 1917; ele já identificava que a imensa heresia moderna, consiste em alterar a alma humana, para se amoldar às condições; ao invés, de alterarem as condições para se amoldar à alma humana”. Sobre esse período há uma série na Amazon, “Downtown Abbey” que retrata as mudanças de paradigmas ocorridas com tais movimentos, bem como os desdobramentos devido a estes eventos – vale à pena conferir.

Sobre a democracia, apesar de hoje ser um tema muito discutido no Brasil por democratas de auditório, Chesterton já dizia: a democracia em seu sentido humano, não é o arbítrio da maioria, não é sequer o arbítrio de todos. Pode ser definida com mais correção, como o arbítrio de qualquer um. A democracia foi concebida para ser uma maneira mais direta de governar; e não uma maneira indireta”. Sabe aquele artigo da constituição que diz que todo poder emana do povo e será exercido por representantes eleitos ou diretamente? Sugiro a você ler essa citação novamente, e depois leia com outra perspectiva o parágrafo único do artigo 1º da Constituição Federal.

Chesterton identificava o surgimento de um novo mundo, mas não necessariamente um mundo melhor. Certa vez ao debater com um feminista favorável ao direito do voto da mulher, ele disse a questão não é saber se as mulheres são boas o bastante para votar; e sim, saber se os votos são bons o suficiente para as mulheres”. Ou seja, Chesterton já vislumbrava essa corrida tresloucada por reivindicações e direitos intermináveis. Estava tão certo disto, e do seu impacto na vida social que vaticinou: se quisermos sujeitar as mulheres, teremos de encontrar um modo de emancipá-las da selvagem regra da consciência.

Sim, foi essa consciência de escrúpulos que se tornou o alvo do feminismo, uma vez que abalada essa consciência, a mulher não teria mais essa escrupulosidade de ser o esteio da família e do lar, criando e educando os filhos; como até mesmo, preferindo não tê-los. E tem gente que acha que o mantra meu corpo, minhas regras é algo novo. Para se ter uma ideia Simone De Beauvoir nessa época tinha dois anos de idade, e Judith Butler nasceria 48 anos depois, mas o caminho já estava sedimentado pelo movimento nascente na época de Chesterton.

A respeito da educação ou erro em relação à criança, Chesterton afirma que a educação é a responsabilidade de afirmar a verdade de nossa tradição humana e transmiti-la com voz firme e cheia de autoridade. Não há como ter uma educação livre, pois se se deixa uma criança livre, não é possível educá-la”. Para Chesterton a educação moderna consiste em impor os costumes de uma minoria enquanto desarraiga os costumes da maioria. Não é isso que vemos com a implantação da ideologia de gênero nas escolas, onde a guerra ideológica subverte a lógica e a biologia para impor que não há meninos e meninas, homens e mulheres, macho e fêmea? Além da imposição da linguagem neutra que torna seus adeptos em idiotas – para dizer o mínimo. Novamente aqui não há como ignorar a verossimilhança com 1984 de George Orwell, com a sua personagem Syme que era o filólogo responsável por editar o dicionário da novilíngua. Ele diz para espanto de Winston que “quando o dicionário estiver em sua versal final e definitiva, pessoas comuns não teriam condições de ter uma simples conversa como aquela” – posto isto, a linguagem neutra é a novilíngua dos imbecis idiotizados por uma ideologia nefasta.

Aqui percebemos que toda a falácia em torno da educação, do socioconstrutivismo, e a tal da Nova Escola, nada mais é que a desagregação de valores e princípios que nos torna participantes de algo que transcende a própria individualidade, que é um conjunto de princípios e valores que moldaram o nosso horizonte de consciência enquanto civilização. E Chesterton visualiza esse violento ataque da ideologia que substituiria o modelo de educação vigente. É só observarmos que uma criança, adolescente ou jovem ao ingressar na escola ou universidade, sofrerão achaques de uma minoria composta, principalmente, de professores militantes que se comportam como gurus que minimizarão tais valores, e aos poucos serão substituídos por uma ideologia que se ascende contra tudo e todos, e o primeiro alvo é sempre o seio familiar.

A educação está tão destruída, que percebemos o quanto a sociedade é incapaz de absorver o óbvio ou o que é lógico. Um exemplo prático são as leis absurdas criadas para dizer o que é ululante: que a escola é lugar de estudar e não impor ideologia – vide escola sem partido. Ou ainda, que é preciso uma lei para dizer aos cidadãos e governantes que a educação é um serviço essencial. Como diria Cícero: o tempora o mores”.

Em síntese, este livro O que há de errado com o mundo, é uma resposta de Chesterton às suas próprias perplexidades, com as coisas que estavam erradas conforme suas observações que se ancoravam em todo um edifício cultural de valores, princípios e regras que fundamentaram a civilização até ali – ou até aqui; e, que naquele momento em particular, afligia e muito a Inglaterra de Chesterton, e que hoje não nos é indiferente.

O que há de errado com o mundo é um questionamento que ecoa há cem anos, e que ao olharmos para trás veremos o que foi produzido como consequência direta da ideologia iluminista que produziu os piores intelectuais da história, capazes de chancelar as piores atrocidades oriundas do comunismo e do nazismo – tudo em nome de uma luz cheia de variação e densas trevas. Presenciamos duas grandes guerras e revoluções que tentaram, e ainda hoje tentam, demolir esse edifício do qual somos signatários diretos. Essas denúncias de Chesterton ecoaram no tempo e no espaço, e hoje percebemos o caminho tortuoso e sinuoso que o autor buscava evitar. Leia o livro, porque tudo o que é discutido na obra é muito atual, pois é atemporal – o que só corrobora que Chesterton, era um profeta.

 

 

Natalino Oliveira, para Vida Destra, 28/04/2021.                                                      Sigam-me no Twitter! Vamos debater o artigo! @NinoPatriota

 

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Natalino Oliveira 🇧🇷🇧🇷🇧🇷
Natalino Oliveira 🇧🇷🇧🇷🇧🇷
14 dias atrás

Agradeço de coração ao espaço sempre cedido de forma solícita pelo Vida Destra.

ERRATA: meu perfil no Twitter é @ninopatriota – alterei para evitar um homônino.

Nunes
Admin

Alteramos no rodapé, caso não apareça, dê um F5 no navegador

Ary Borges
Ary Borges
14 dias atrás

Que grata surpresa este texto!

Chesterton é muito essencial ainda hoje e isso só prova o quanto as ideologias estragaram as pessoas.

Parabéns pelo artigo