O tempo e o progresso trabalham contra o meio ambiente. Infelizmente. Ocupação humana, exploração imobiliária, a poluição, a cultura do descartável, descaso, falta de consciência e educação ecológica e a vaga sensação que muitas pessoas têm de que aquilo que é de todos não é de ninguém e, portanto, ninguém se sente pessoalmente responsável pela preservação ambiental. “Isso é coisa que compete ao governo”, pensam os simplistas. “Alguém deveria fazer algo a esse respeito”, dizem os isentões. Mas a verdade é que a gente vai vendo a degradação, ano após ano, e a coisa jamais melhora.

Esta crônica é uma reflexão e um testemunho do que já vi e vivi em minha infância. É também um alerta em relação ao derrame – intencional ou acidental – de petróleo nas praias do nordeste brasileiro. É algo que afeta a todos nós, de maneira muito mais intensa e profunda do que possamos imaginar. Fiquem, pois com meu Paraíso Perdido.
“Eu e minhas irmãs passamos quase todas as férias e feriados durante a primeira infância até a adolescência na cidade de São Sebastião, litoral Norte de São Paulo.

Ir para lá era uma espécie de aventura, numa estrada de terra batida a partir de São José dos Campos, uma parada obrigatória, assim como a bucólica cidade de Paraibuna, onde fazíamos um lanche com muito leite fresco e queijos da região.

Mas depois que chegávamos, era só vivenciar férias no Paraíso.

Nada de TV. Rádio, só de vez em quando, pois energia elétrica só depois das seis da tarde, quando ligavam um gerador a diesel que funcionava com barulho monótono pontualmente até as dez da noite.

Nada de refrigerante ou de alimentos processados: era tudo pescado ou colhido na hora. Manteiga era em lata da marca Aviação e o pão sempre tinha sabor de amanhecido. Mas não faltava café, leite em pó, frutas e verduras frescas. De vez quando, íamos tomar sorvete na única sorveteria da cidade. Ninguém reclamava, pelo contrário, pois vivíamos em inimaginável liberdade, em meio à exuberância das matas, abundantes em beleza e vida selvagem.

Todas as praias tinham águas transparentes, os dias eram gloriosos, o ar límpido e as noites de um céu estrelado que chegava a iluminar o chão.

Até quando chovia era razão de diversão. Chuva não era motivo para não irmos à praia e, durante a noite, o coaxar das rãs embalava o sono.

No verão havia o canto das cigarras, das arapongas e a revoada de periquitos.
Sim, de vez em quanto a gente chutava sem querer um ouriço do mar na praia ou levava uma ferroada de um siri. Fazia parte.

A gente acordava assim que o Sol despontava e, para nos proteger dos sempre presentes borrachudos e da inclemência do Sol, passávamos óleo de amendoim na pele. Na primeira semana, ficávamos com a pele do rosto, dos ombros e braços cheios de bolhas que eram refrescadas com uma papa de cachaça e polvilho. Mas, na segunda semana, a pele já estava curtida e nem sentíamos mais.

Havia riachos de águas frias e limpíssimas que desembocavam nas praias e onde nadávamos para nos refrescar e tirar o sal da água do mar. E as praias de areia fina, cantavam sob os pés descalços.

Enfim, era o Paraíso.

A primeira vez que tive consciência do que era poluição foi quando pisei inadvertido, na praia em frente de casa, numa bola de piche. Lembro que foi preciso limpar com querosene e, mesmo assim, foi difícil de sair. Quando as bolas de piche, trazidas pela maré, começaram a se tornar freqüentes nas praias, senti certa inquietação e angústia, pois temi que aquilo ou coisas como aquilo, acabariam estragando as maravilhas do lugar.

Foi o que aconteceu com o tempo. E a magia daquele jardim celeste foi aos pouco desaparecendo.

Hoje, quando visito aquele lugar, ainda consigo ver um resquício da beleza de outrora, mas a magia se foi, definitivamente.

Sou grato, especialmente aos meus pais, por terem me proporcionado a oportunidade de ver e viver aquilo que vi e vivi. Lamento a degradação. E, como todo mundo, não me sinto pessoalmente responsável, apesar da convicção de que todos nós somos.”

Laerte A Ferraz para Vida Destra 10/10/2019

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